Três dias depois do casamento, o meu enteado apareceu à porta de casa com um advogado e um maço de papéis que punha a minha casa nas mãos do marido. Era uma terça-feira de manhã, lembro-me porque olhei para o relógio do micro-ondas e perguntei-me se seria cedo demais para comer o último pedaço do bolo. Aos 57 anos, decidi que há menos regras para o bolo do que as pessoas pensam. O Osvaldo tinha saído por volta das 7h30 para uma reunião com um cliente em São Paulo.

Eu ainda estava de roupão, a beber café e a arrumar os cartões de casamento na bancada da cozinha, quando a campainha da câmara tocou. Olhei para o telemóvel. O Evandro, filho de 34 anos do meu novo marido, estava no alpendre com um moletom azul-escuro de gola alta, muito mais apresentável do que eu. Ao lado dele, um homem que eu nunca tinha visto.
Fato cinzento, pasta de cabedal. Abri a porta a meio. “Bom dia. ”
“Olá, Celina.
” O Evandro sorriu. “Desculpa aparecer assim de surpresa. ”
O homem ao lado estendeu a mão. “Heitor Albuquerque.
” Apertei-lhe a mão. Ele acrescentou: “Sou advogado. ”
Há frases que melhoram uma manhã de terça-feira. Isso raramente é uma delas.
Olhei para o Evandro. “Devo calçar os sapatos? ”
Ele riu como se eu estivesse a brincar. Eu não estava totalmente.
“Não é nada de mal”, disse ele. “O pai queria que tratássemos de uns papéis. ”
“O pai tem o meu número de telefone. ”
“Ele está ocupado com um cliente.
”
O Heitor já parecia desconfortável, o que achei interessante. Deixei-os entrar. Sentámo-nos à mesa da sala de jantar onde, três noites antes, o Osvaldo e eu tínhamos aberto champanhe depois de voltar da receção. Ainda havia dois cartões por abrir no aparador.
O Heitor pôs uma pasta à minha frente. “Percebo que o Osvaldo tenha conversado consigo sobre algumas alterações no planeamento sucessório. ”
“Não, ele não falou. ”
O Evandro interveio.
“Não especificamente, talvez. Isso é geralmente o que ‘discutido’ significa. ”
“Celina, é rotina. ”
Aquela palavra.
Rotina. Abri a pasta. A primeira página tinha um nome impresso no topo: “Holdings Familiares Barbosa Leda”. “Isto é quê?
”, perguntei. “A empresa do pai”, respondeu o Evandro, rápido demais. O Heitor corrigiu-o. “A holding gere os ativos da família.
O Osvaldo quer garantir que os bens fiquem protegidos, querida. ”
“Não me chame querida. ”
“Peço desculpa. ”
Corri os olhos pela segunda página.
O nome dele no topo, o meu por baixo. Li algumas linhas. Depois li-as outra vez. Virei para a terceira página.
Procurei o objeto. Encontrei-o na página quatro, na secção três. O projeto Belo Horizonte. Os batimentos cardíacos começaram a soar-me nos ouvidos.
Conhecia bem aquele termo. O Osvaldo tinha um empreendimento com esse nome havia mais de um ano. “Isto diz que os fundos do meu património apoiam o projeto Belo Horizonte. ”
“É uma linguagem-padrão”, disse o Heitor.
“Protege o negócio no caso de um… desacordo. ”
“Que tipo de desacordo? ”
“Entre vocês os dois.
Financeiro. ”
“Eu não tenho negócios com o Osvaldo. ”
Ele respirou fundo. “A sua casa, Celina.
É um ativo. Numa união com separação de bens, o que é seu permanece seu, mas quando entra num casamento, os credores têm o direito de… ”
“Credores? O que é que eu tenho a ver com os credores dele?
”
“Não são os credores dele. São os credores da holding. ”
Olhei para o Evandro. Ele não me devolveu o olhar.
“Deixe-me esclarecer aquilo de que estamos a falar. ” Fechei a pasta. “Tu e o teu pai decidiram que, se ele falir, eu pago. É isto?
”
“É exatamente isto que não é. ”
“Então porque é que fala a minha casa como garantia? ”
“O teu nome está na empresa. ”
“Não estou na empresa.
”
“A tua assinatura está na ficha de abertura da conta. É por isso que estás aqui. ”
Fiquei ali sentada. “Eu nunca assinei nada.
”
O Heitor abriu a pasta e apontou para uma assinatura na parte de baixo da página. Era o meu nome. Reconheci-o, mas não por o ter posto ali. A caligrafia era parecida com a minha, mas mais rápida.
Mais solta. Eu não assinava assim as coisas desde que ia a correr entregar os formulários de matrícula do filho na escola. “Isto não sou eu. ”
“Estive lá”, disse ele.
“Não esteve. Eu não assinei. ”
“O banco tem a gravação da reunião. ”
“Que reunião?
”
“Há cerca de um ano. Na agência da Avenida Paulista. ”
Eu conhecia aquela agência. Ia lá uma vez por mês, sempre ao balcão habitual.
“Quando é que acham que eu estive nessa reunião? ”
O Heitor hesitou. O Evandro disse: “Abre o vídeo, Heitor. ”
“O quê?
”
“Mostra-lhe o vídeo. ”
O Heitor tirou um computador portátil da pasta e carregou no play. A imagem era granulada, visão de cima, provavelmente a câmara de uma sala de reuniões. Lá estava uma mulher de cabelo castanho apanhado.
Batom da mesma cor que eu usava à época. Blazer preto, os meus óculos escuros na cabeça. Girava uma caneta entre os dedos e acenava com a cabeça. “Isto não sou eu.
”
O Evandro riu-se. “Celina. ”
“Eu nunca tive óculos escuros na cabeça daqueles. ”
A mulher no ecrã virou a cabeça.
Era parecida, mas não era eu. Tinha um sinal no pescoço. Eu não tenho sinal nenhum. “Para de filmar sem autorização”, disse.
“É uma câmara de segurança normal. ”
“Então diz porque é que a mulher que está aí não levanta a cabeça nem uma vez. ”
O Heitor olhou para o Evandro. O Evandro não disse nada.
Apertei as páginas contra o peito. “Digam ao Osvaldo que tenho a papelada dele. Se quiser rever, sabe onde estou. ”
Levei-os à porta.
O Heitor começou a falar sobre “consequências” e “procedimentos legais”. Abri a porta e deixei-os sair. Fechei-a e pus o trinco. Depois tranquei a porta.
E a da varanda. E a do escritório. Sentei-me no chão do corredor e voltei a ler os documentos até as letras se desfocarem. A assinatura continuava minha.
O problema é que eu não tinha a certeza de que era minha, e essa é que era a parte mais assustadora. Voltei para a página um. Li o documento até ao fim devagar, sem saltar nada. Depois voltei atrás.
Havia mais de quarenta páginas. Não as li todas, mas li o suficiente. O suficiente para perceber que o Heitor não estava ali para responder a perguntas. Estava ali para fazer a leitura.
Deixei-o terminar. Perguntei: “O que é que o teu pai espera que eu faça? ”
“Ele pensou que, se assinasses os formulários de financiamento conjunto, o banco… ”
“Espera.
” Levantei a mão. “Financiamento conjunto? ”
“O projeto precisa de capital de giro. O Osvaldo já comprometeu tudo o que podia.
A tua parte cobre o resto. ”
“A minha parte do quê? ”
“Do casamento, Celina. Do casamento.
As pessoas unem tudo. ”
“Algumas pessoas unem o quê, exatamente? Eu já tenho família. Tenho casa.
”
“E ele tem um empreendimento. ”
“Ele tem um empreendimento há dezoito meses, e eu não assinei nada. Acabei de saber que ele tem um sócio. ”
O silêncio que se seguiu disse-me mais do que qualquer resposta.
O Heitor ficou a olhar para o Evandro de novo. O Evandro olhou para o chão. “Evandro”, disse eu. “O que é que se passa com o sócio?
”
Ele respirou fundo. “O pai vendeu uma participação minoritária da holding para levantar dinheiro. ”
“Quando? ”
O Evandro hesitou.
“Evandro. ”
“Vamos dizer que foi logo a seguir a falarem do sítio do casamento. ”
Fechei os olhos. “Ele vendeu parte da base do negócio da família três dias antes do casamento dele?
”
“Não foi por isso que ele… ”
“Eu falei com ele naquela noite. Sobre as flores. Sobre a data.
Sobre o menu. Ele falou sobre tudo menos sobre isso. ”
“Ele não queria preocupar-te. ”
“Então preferiu casar comigo sem me dizer que andava a negociar a venda de um terço da confiança da família?
”
Não respondi. Levantei-me e fui buscar a pasta. “Celina. ”
“Não posso responder a isto no minuto seguinte, Evandro.
São vocês os dois a planear isto há dias. ”
Saí da sala. Ainda ouvi o Evandro ligar para o Osvaldo quando fechei a porta do quarto. Não acreditei de repente que o Osvaldo fosse algum tipo de génio do crime.
Aquele era um homem que metia a mala na cama porque alguém na televisão disse para o fazer. Mas também era um homem que não odiava quando os outros confundiam silêncio com paz. Tinha passado a vida a deixar as pessoas espremerem as palavras das respostas, e soube que, se tivesse dito a verdade antes do casamento, eu teria uma conversa sincera e honesta sobre o risco. Em vez disso, assinou papéis e sorriu para as fotografias.
Deixei a pasta na cama e fui buscar três revistas antigas à estante da sala, onde ainda se viam manchas de champanhe da noite do casamento. Voltei para o quarto, deitei-me, e comecei a ler. Não. Comecei a vasculhar.
A primeira lembrança apareceu 20 minutos depois. Mês de janeiro. Eu e o Osvaldo na fila do supermercado. Ele pegou num maço de pastilhas elásticas e meteu-o com as compras dele.
O carrinho dele, reparou a minha mente. Ele tinha uma caixa de ferramentas no porta-bagagem do carro. Ele não era o tipo de gajo que masca pastilhas elásticas. Continuei a ler.
Fevereiro. Ele saiu do quarto ao amanhecer para “ver o correio”. Poucos minutos depois ouviu-se a porta da rua. Quando entrei na cozinha, ele estava a dobrar um talão para o bolso.
Não. Não o talão. O recibo. “Bom dia”, disse eu.
“Bom dia, querida. ” Beijou-me a testa e apertou o bolso. Continuei a ler. Abril.
A sua pasta estava aberta no sofá, e eu vi uma página com o logotipo do grupo de investimento de que nunca tínhamos ouvido falar. Ele fechou o computador portátil quando me sentei ao lado dele. Não. Em maio, quando lhe perguntei pelo projeto, ele disse: “Celina, é só uma coisa chata.
”
Continuei a ler. Não. Acho que foi nessa altura que o fio de lã se soltou. O marido morto.
Foi o que o Evandro chamou ao Tomás. “O pai da Celina”, disse. “O primeiro marido dela faleceu, e ela tem o dinheiro do Tomás sentado no banco há cinco anos. Isso não é suspeito?
”
Ele disse isto a uma plateia de pessoas. Jornalistas de negócios, um casal de investidores, o diretor do grupo de investimento. O Evandro estava a falar sobre integrar as finanças da família depois do casamento. Quando ele disse “família”, o que quis dizer foi “eu e o meu pai”.
Eu já devia ter desconfiado. O Osvaldo era o sócio silencioso. O Evandro era o parceiro. Ele fazia as reuniões, apertava as mãos, cuspia os números.
Mas foi quando começou a mencionar o dinheiro do Tomás que a conversa mudou de direção. “Não estou a ver que isso seja da tua conta”, cortei eu. “É da conta de toda a gente quando a viúva de outra pessoa está sentada sobre a herança enquanto o marido atual precisa de apoio”, respondeu ele. A mesa ficou em silêncio.
Os dois representantes do banco olharam para o Osvaldo. O Osvaldo olhou para o prato. “Querido? ” O meu tom de voz era mais agudo do que o normal.
“Alguma coisa para dizer? ”
“O Evandro exagerou na conversa lá para dentro”, disse ele, sem levantar os olhos. “Eu não pedi para falarem do Tomás. ”
“E, contudo, aqui estamos.
”
“Ele faleceu há cinco anos, Celina. ”
“Isso é suposto torná-lo mais barato? ”
“Não é isso. ”
“Então diz-me qual é a parte em que eu devo desbloquear os ativos dele para patrocinar o projeto de que não me falaste?
”
“Eu não te escondi o negócio, escondi-te dele. ”
“Ah, essa é a tua defesa? Semântica? ”
Respirei fundo.
Limpei as mãos aos lenços de papel. “Nós falamos de finanças antes do casamento, Osvaldo. Combinámos manter tudo separado. Lembras-te?
Tu disseste que era essa a razão pela qual te tinhas casado com uma mulher madura, e não com uma criança maluca. Eu tenho a tua frase algures num cartão que escreveste. Querias que eu lesse? ”
Ele não respondeu.
“Foi isto que eu pensei. ” Atravessei a sala e peguei na mala. “Celina, espera. ”
“Não.
Eu não estou a ir a lado nenhum. Estou a ir buscar ar. ”
Atravessei o átrio e fui até aos elevadores. Quando as portas se abriram, o Heitor saiu.
Levantou uma sobrancelha quando me viu. “A reunião já acabou? ”, perguntou ele. Quase me ri.
“Quase de certeza que deveria ter uma palavra contigo a sós, Celina”, continuou ele. “A sério, dava só um minuto. Podemos ir ali? ”
Nem respondi.
Entrei no elevador, respirei fundo e pressionei o botão várias vezes até as portas fecharem. Não saí do edifício. Voltei para o meu piso e parei mesmo em frente à porta do escritório do 12º andar. Assenti para a rececionista, que levantou o telefone para avisar a chefe.
A chefe surgiu na porta. Cabelo curto prateado, blazer cáqui, o ar cansado de quem já viu muitos erros sérios. “Celina. Desculpa, não me digas que vieste tratar de assuntos de negócio?
”
“Estou a pensar que sim. ”
“E o Osvaldo? ”
“O Osvaldo não vem. Fica entre mim e ti e o fim do prazo de um empréstimo privado.
”
Ela fez sinal para eu entrar. Fechámos a porta. Marta Monteiro, 58 anos, era a pessoa mais competente de todo o edifício e provavelmente do continente. Conhecia toda a gente antes de terem chegado a algum lugar.
E, ao contrário dos recém-casados em geral, eu gostava de saber onde estava o caminho da porta. “O que precisas? ”, perguntou ela, enquanto me sentava. “Preciso de perceber se uma assinatura minha aparece num empréstimo, mas eu não assinei.
”
Ela olhou para mim por cima dos óculos. “Acabei de me casar com um tipo de quem só uma pessoa duvida, e agora vêm os papéis a chegar de casa. ”
“O teu contrato pré-nupcial protege-te. ”
“Não tenho.
”
Marta piscou os olhos. “Não fizeste o pré-nupcial? ”
“O Osvaldo disse que era uma perda de dinheiro. ”
“Então assinaste os papéis do casamento sem proteção nenhuma?
”
“Limitei-me a confiar. ”
Ela apoiou-se na secretária. “Então o que tens? ”
“Tenho uma assinatura minha que não me lembro de assinar num documento que me transforma em fiadora de um empréstimo de uma empresa cuja existência me foi omitida.
”
“E por que é que achas que não era tu? ”
“Porque eu não assino o meu nome com esse r. ”
Marta estava a olhar de novo para a assinatura. “Não é nada de especial.
”
“É. O meu nome é Celina. O “C” é o meu. O “A” é o meu.
Mas o “I” nunca foi mais alto que a haste. ”
“És muito minuciosa para uma senhora que se esqueceu de fazer o pré-nupcial. ”
“Não me estava a esquecer de nada. Faço-a por bem.
”
Pega na fotocópia, olha para o lado do carimbo, e depois para o número. “Isto é um contrato de mútuo? Com que banco é? ”
“O tal banco da Avenida Paulista.
”
Ela franziu o sobrolho e afastou-se. “Celina, para de brincar. Aquela filial é a de crédito ao consumo. Não emprestam com limite de juros destes.
”
“Então o que é? ”
“Isto é um contrato de prestação de contas assinado a 10 de setembro. Mas, espera… isto aqui, no cabeçalho, diz Holdings Familiares Barbosa Leda.
”
“Porque é que os meus investimentos estão a apoiar o grupo do teu marido? ”
“Não estão. É a holding que me está a usar a mim. É para isso que serve o seguro.
Eu sou a fiadora. ”
“Fiadora de quê? ”
“Do património do projeto Belo Horizonte. ”
“Mas isso é o nome dele.
”
“Exato. E quando ele falir, o banco vem buscar-te a ti e à tua casa, e só resta uma questão. Quem lucra com a holding? ”
Levantei-me e agarrei na mala.
“Obrigada, Marta. Isto ajudou. A sério. ”
“Onde vais?
”
“Vou tratar de uma toupeira. ”
Atravessei o átrio e parei em frente à porta de outro gabinete. No vidro, em letras verdes, lia-se:
Marisa Caldeira. Contabilista de registo.
Era uma mulher de prata na casa dos cinquenta que usava um casaco de malha mesmo no verão para disfarçar o ar condicionado. Foi com ela que o Tomás trabalhou durante trinta anos, e continuou comigo depois do funeral. “Celina. ” Ela levantou-se quando entrei.
“Que surpresa. ”
“O que é que me estás a esconder, Marisa? ”
Ela congelou. “Do que é que estás a falar?
”
“O Osvaldo. A holding. Assinaturas que não são minhas. Começa por onde quiseres, mas recomendava o início.
”
Ela olhou para a parede atrás de mim. Depois abriu uma gaveta e tirou uma pasta com o meu nome. “Ele disse que sabias. Assumiu que eu te teria dito.
”
“Ele disse para a manter em segredo? ”
“Não. Sim. Disse que era uma surpresa para ovos de Páscoa.
”
“Páscoa. Há quanto tempo? ”
“Sete meses. ”
Sentei-me na cadeira em frente à secretária.
“Sete meses. Sete meses e o que mais, Marisa? Tudo o que ele souber, soube. Tudo o que eu souber, é segredo.
”
“Ele teve medo de te perder. ”
“Então é suposto que ele faça isto? Esconder-me que estou enterrada em dívidas de outra pessoa? ”
“Ele meteu-te na posição de fiadora para proteger as suas partes.
”
“Para proteger as partes de quê? ”
Ela hesitou. “Da hipoteca da casa. ”
“Que casa?
”
“Não sei. A minha parte. A casa, a casa de praia. ”
Olhei para a folha de cálculo no ecrã.
“Isto diz que ele hipotecou a casa dele para comprar participação numa sociedade? ”
“Foi a única forma de ele conseguir os fundos para o projeto. ”
“E ele pôs-te como fiador. ”
“Celina, não…
”
“Ouve-me. ” Fechei os olhos. “Eu não sou fiadora de ninguém. Assinei o que assinei, e tu sabes que eu assinei.
”
“Eu sei, mas ele disse que tu sabias. ”
“Marisa. Eu não sabia. A sério, não sabia.
”
Ela olhou para o papel. “Então vais processá-lo? ”
“Não vou processar ninguém. ” Levantei-me.
“Vou à farmácia, depois trato disto. ”
“A farmácia? ”
“Tenho a cabeça a andar à roda e o meu analgésico de vinte anos está esgotado. Ou vais-me dizer que o Osvaldo pôs-te como administradora do meu armário de medicamentos também?
”
Ela não respondeu. Peguei na pasta, meti-a na mala e atravessei o escritório. “Celina, espera. ”
“Não posso, Marisa.
Estou com pressa. Tenho de ir descobrir as outras mentiras. ”
Passei pela receção, atravessei as portas duplas e segui pelo corredor até ao elevador. Na rua, o ar fresco soube-me bem.
“Celina. ”
Não. Oh, não. Voltei a virar-me e lá estava o Heitor, a atravessar o átrio na minha direção.
“A conversa que tivemos mais cedo foi uma chatice”, começou ele. “Vai-se lixar, Heitor. ”
“O sossego, por favor. ”
“Tu entraste na minha casa e distorceste-me a assinatura.
Levaste-me para uma reunião e fizeste-me ler documentos que não autorizei. Depois disseste que tinha havido uma discussão que não aconteceu. Estou a fazer-te o favor de não lixar o teu emprego. ”
Ele avançou.
“Ele fez-te uma proposta razoável, Celina. O projeto tem mais de cinco vezes o capital… diz que… Olha, aquilo é a oferta dele.
”
“Não quero a oferta. ”
“Estás a ser apressada. ”
“Se não me deixares em paz, ligo já ao teu. ”
“Ao teu quê?
”
“Ao tribunal. Vamos ver o que é que a tua associação com senhora me ajuda. ”
Ele ficou imóvel. Atravessou o corredor, abriu a porta da rua e saiu.
Apanhei um táxi. Dei o endereço do contacto profissional que tinha o nome do meu antigo departamento de polícia, uma senhora magra de cabelo grisalho que se sentava atrás da secretária e tinha visto tantos casos encerrados como eu tinha certificados na parede. “Olá, Dina? ”
Ela atendeu ao segundo toque.
“Celina. Há quanto tempo. ”
“Preciso que digas se uma assinatura é minha. ”
“Envia por fax.
”
“Não posso. ”
Houve uma pausa. “Porquê? ”
“Porque se enviar por fax, ela consegue.
”
Outra pausa. “Estás a falar do quê, exatamente? ”
“De assinaturas com o ‘I’ acima da haste. Assinaturas com o ‘S’ demasiado apertado.
Papéis assinados há três meses e com data de terça-feira. ”
“Celina, o que é que se passa? ”
“Não sei. É por isso que estou a ligar.
”
“Eu vou tratar disto. ”
Desligámos. Voltei a pôr o telemóvel no bolso e olhei para o edifício do Fundo de Pensões do Estado de Minas Gerais. Não sabia se era o edifício que precisava de mim.
Mas sabia que precisava de um plano. Entrei no átrio principal e fui para o elevador. No 12º andar, a rececionista levantou a cabeça. “Boa tarde.
A Dra. Valéria Teles está à minha espera. Tenho uns documentos para ela assinar. ”
“Nome, se faz favor?
”
“Celina Barbosa Leda. ”
Ela verificou o computador. “Sim. A doutora está a tratar de uns assuntos ao fundo do corredor, no gabinete 1221.
”
“Obrigada. ”
Atravessei o corredor e bati à porta. Uma voz respondeu: “Entre. ”
Entrei e fechei a porta.
O gabinete era pequeno, uma secretária coberta de processos. No outro lado, uma mulher com fato cinzento e cabelo apanhado, uns óculos pendurados ao pescoço. “Celina. Recebi a tua mensagem.
Disse-me que era urgente. ”
“É. ”
“O que se passa? ”
“Eu sei que tenho de casar com o Osvaldo.
”
Ela inclinou a cabeça. “Outra vez, não. ”
“Vais ouvir isto: eu ia casar-me com o teu irmão, ele di-lo e disseram-me que está tudo tratado. ”
Foi só por isso que ela reparou.
“Tu não queres casar com ele. ”
“Claro que não. Mas ele tem um plano. E eu tenho de descobrir quais são as partes.
”
“Avança. ”
Pus a pasta em cima da secretária. “Primeiro, encontrei isto no lixo, em casa. ”
Ela leu.
“Uma autorização de porrada do banco? ”
“Autorização do que? ”
“É uma assinatura para dar ordens de transferência. Está marcada como ‘adiantada’.
O que é que isto te diz? ”
“Diz-me que alguém queria que eu fizesse uma transferência antes de o casamento chegar ao fim. ”
“Quem é que te deu isto? ”
“O Heitor.
”
“O advogado do Osvaldo? ”
“O mesmo. E tenho outra coisa. ” Abri a fotocópia da assinatura.
“Isto é o que dizem que eu assinei. ”
Ela olhou. “E assinaste? ”
“Não.
”
“Então porque é que é a tua assinatura? ”
“O problema é que eu não posso provar que não é. ”
“E é por isso que estás aqui, a falar com uma advogada de divórcios? ”
“É por isso que estou aqui, a perguntar-te sobre fraudes.
”
“Então, não tens advogado de divórcios. ”
“Ainda não. ”
“E não vais arranjar um. ”
“Não.
”
Ela pousou as mãos em cima da secretária. “Então o que é que vais fazer acerca do Osvaldo? ”
“Vou fazer aquilo que ele não espera. ”
“O quê?
”
“Vou ao jogo. ”
A Valéria levantou uma sobrancelha. “Explica-te melhor. ”
“O Osvaldo não quer casar comigo.
Quer casar com o saldo da conta. Por isso, enquanto ele pensa que me está a proteger do caso, o que está a fazer é proteger os projetos. ”
“E o que é que tu fazes? ”
“Processo-o.
”
“Porquê? ”
“Porque quando ele descobrir que estou a processar a pedido de divórcio, os bens que ele escondeu vão congelar. ”
“E se ele descobrir? ”
“Não descobre.
”
A Valéria recostou-se na cadeira. “Celina, tens 57 anos. Sabes quantos casos de fraude eu vi caírem na mesma altura? ”
“Sei.
Mas aquilo que ele fez soa melhor quando eu explico do que ele espera. ”
“O que é que ele espera? ”
“Espera que eu entre em pânico. ”
“E entras?
”
“Estou a fazer o melhor que posso. ”
Ela abriu a gaveta e tirou um caderno. “Então vamos começar por aqui. ”
Passámos duas horas a redigir o processo.
Não foi dramático. Foi técnico. Foi para compilar factos por ordem e definir qual era o objetivo. No fim, empurrou a caneta para mim.
“Vinte e cinco mil. ”
“Quanto? ”
“É o adiantamento para os honorários. ”
“Ainda não te pedi para fazeres nada.
”
“Pediram. ”
Fomos jantar a um sítio pequeno e tranquilo, duas ruas a norte do tribunal. Ela contou-me histórias de colegas advogados, e eu deixei-me rir. Na terceira taça de vinho, perguntou:
“Contaste ao Osvaldo que vieste falar comigo?
”
“Ainda não. ”
“Vais ter de lhe contar. ”
“Como é que me aconselhas a fazê-lo? ”
“Com cuidado.
”
Bebi o resto do vinho. “Vou precisar de outra garrafa. ”
Quando cheguei a casa, estava escuro. A luz da sala estava acesa.
O Osvaldo sentado no sofá, com um copo de uísque na mão. “Ouve, querida, desculpa lá esta manhã ter sido difícil. ”
“Que manhã? ”
“Quando o Heitor te apareceu com a papelada.
O Evandro exagerou. Deixou as coisas um bocado… histriónicas. ”
“Histriónicas.
”
“Ele contou-me o que aconteceu. ”
“Contou-te o quê, exatamente? ”
“Que ele te deu os documentos para ler. ”
“Não foi bem isso que aconteceu, mas continua.
”
Ele bebeu um gole e pousou o copo. “Eu sei que esta coisa toda parece pior do que é. Mas o projeto é uma coisa minha, não tua. ”
“O projeto de que nunca me falaste.
”
“Eu ia-to contar. ”
“Quando, Osvaldo? Na lua de mel? Depois de assinar a escritura?
”
Ele riu-se. “Tu não és assim tão ingénua, pois não, Celina? Tu sabes o que acontece quando se casa. As coisas fundem-se.
As casas fundem-se. Não podes continuar agarrada àquilo que era teu e esperar… esperar que continue a ser só teu. ”
Fiquei parada.
“Desculpa? ”
“Estou só a dizer, agora as nossas vidas são uma coisa só. ”
“Não. Não são.
Eu não assinei nenhum acordo para misturar as nossas finanças. ”
“Mas eu pensei… ”
“O quê? Que podias simplesmente esperar que eu aceitasse?
”
O sorriso dele fraquejou. “Celina. ”
“Não. Tu falaste com o Evandro.
Com o Heitor. Tu tentaste envolver a minha casa. Eu falei contigo sobre o telhado que precisava de ser arranjado e tu mudaste de assunto. ”
“Eu não mudei de assunto.
”
“Mudaste. Disseste: ‘Vamos ver no próximo ano’. ”
“Isso é diferente. ”
“Talvez.
Mas descobri uma coisa sobre ti, Osvaldo. Quando a coisa fica difícil, tu dás a volta ao assunto. ”
Ele recuou. “Isso não é justo.
”
“Não é justo? Eu passei anos a fazer contas à vida ao lado de um homem que desapareceu. Tu escondeste-me que estavas com novecentos mil de dívida. ”
“Não é dívida.
”
“Então porque é que a tua assinatura está em dívida? ”
Ele ficou calado. “Muito bem”, disse eu, com um suspiro. “Vou dar-te uma noite para o contares ao teu advogado: vou pedir o divórcio.
”
O rosto dele passou por três fases, palidez, perplexidade e fúria, em menos de cinco segundos. “Não podes. ”
“Já pedi. ”
“A quê?
”
“Ao divórcio. ”
“Celina, não podes divorciar-te de mim, nós estamos… Tu não podes. ”
“Acabei de o fazer.
”
“Porquê? ”
“Porque mintiste. ”
“Eu não menti. ”
“O que é que chamas àquelas assinaturas?
”
“Assinaturas? ”
“As tuas. As que têm o “I” acima da haste. Já as viste.
”
“Celina, eu não sei do que estás a falar. ”
“Ótimo. Então isto vai ser mais fácil do que eu pensava. Vais explicar à juíza.
”
Ele afundou-se no sofá. “É isso que queres? O quê, vais levar tudo? A casa, o negócio?
”
“Não quero ficar com nada disto. ”
“Então porque é que estás a fazer isto? ”
“Porque tu me deste razões para duvidar, e eu não consigo viver assim. ”
Ele riu-se.
Não era um riso feliz. “Sabes, ela também não me avisou que era assim que ias ser. ”
“Quem? ”
“A Géssica.
A gémea. ”
Foi a minha vez de parar. “Que gémea? ”
“O que é que queres dizer com ‘que’?
A Géssica. A tua irmã. ”
“Eu não tenho irmã. ”
Ele ficou pálido.
“Tens. Esteve no casamento. ”
“Não tenho. ”
“Então quem é que eu vi na receção do hotel?
”
“Não sei, Osvaldo. Quem é que viste? ”
Ele apertou os olhos. “Estás a mentir.
”
“Não estou. ”
“A Géssica. Ela disse que era tua irmã. Ela disse que era a gémea que foi dada para adoção à nascença, que tu a procuraste uma vez, e que ela te repreendeu por estares a desperdiçar a herança do Tomás com um canalha.
”
“Eu não tenho irmã nenhuma. E nunca teria dito isso. ”
“Não foste tu? ”
“Não.
”
Ele ficou sentado por muito tempo. O silêncio esticou-se até se tornar desconfortável. “Quem é a Géssica, Osvaldo? ”
“Não sei.
”
“Como é que a conheceste? ”
“Ela apareceu-me. Disse que era tua irmã. Eu não pedi prova.
Ela sabia coisas sobre ti. O teu nome de solteira. A morte do Tomás. O nome da vossa filha.
”
“Eu não tenho filha. ”
Ele empalideceu. “A tua filha faleceu, desculpa. Desculpa, eu queria dizer aquela.
Eu fiquei confuso. ”
“Quem te contou isso? ”
“A Géssica. Ela disse que morreu, de bebé.
”
De repente, estava frio. Muito frio. “O que é que ela disse que aconteceu? ”
“Celina, senta-te.
”
“O que é que ela disse? ”
“Ela disse que a morreu tinha… Celina, eu não sei. Ela disse: ‘A Celina teve uma filha que morreu à nascença.
Ela não gosta de falar nisso. Não lhe toques nesse assunto’. ”
“E tu acreditaste nela. ”
“Eu não tinha razões para duvidar.
”
“Deus do céu, Osvaldo. O que é que mais é que ela te disse? ”
Ele respirou fundo. “Suficiente para eu saber que não devia contratar-te para tratar dos meus impostos.
”
Foi aí que percebi o jogo. A Géssica. A mulher no vídeo era a Géssica. “Ela andou a vigiar-me”, murmurei.
“Ela sabe que eu tenho… ela sabia que íamos casar. ”
“Ela disse que vinha a minha casa. ”
“Ela apareceu-te?
”
“Não. Apareceu ao Evandro. Disse que era a tua irmã géia. O Evandro acreditou nela.
Levou-me a uma reunião com o Heitor e ela estava lá, com os papéis. ”
“Que papéis? ”
“Os papéis que assinaste. ”
“Não assinei nada.
”
“Disseste ao Evandro que assinaste. ”
“O Evandro é um mentiroso. ”
Ele olhou para mim. “Ele não é.
”
“Então porque é que ele me acusou de ter dito coisas sobre aquilo que eu supostamente tinha assinado? ”
“Eu não disse que ele acusou. Eu disse que ele trouxe os papéis. Tu assinaste os papéis.
”
“Eu não assinei nada, Osvaldo. Tu estás a tentar… queres que eu diga que assinei para que não descobras? ”
“Não.
Quero que me digas o que é que está nos papéis. ”
“Eu não vi os papéis. ”
“O Heitor deu-tos. ”
“Não me deu nada.
”
“Então porque é que estava na tua casa? ”
“Para te dar a proposta. ”
“Que proposta? ”
“A proposta do Evandro sobre o financiamento.
”
“Não é o que o Heitor diz. ”
“O que é que o Heitor te disse que eu fiz? ”
Ele hesitou. “Ele disse que concordaste em usar o teu saldo para apoiar o projeto.
”
“Eu não concordei. ”
“Isso não é o que ele diz. ”
“Bem, ele não sabe. ”
Sentei-me.
Deixei as mãos pousadas no colo, uma em cima da outra. “Quem é a Géssica, Osvaldo? ”
“Eu já te disse que não sei. ”
“Então diz-me como é que ela te apareceu.
”
Ele bebeu um gole. “Eu conheci-a numa festa de fim de ano, antes do Natal. Ela puxou conversa, disse que te conhecia. Chamou-se Géssica.
Perguntou-me porque é que estavas a casar comigo. ”
“E o que é que respondeste? ”
“Que eras uma mulher adulta. Que fazias as tuas escolhas.
”
“E ela? ”
“Ela riu-se e disse: ‘Isso diz-me que não conheces a Celina. ’ Eu levei a sério. Voltei para casa e verifiquei a conta.
”
“E? ”
“Ela tinha mexido. ” O tom de voz dele endureceu. “Descobri que havia dinheiro a sair da conta a cada dois meses.
”
“O quê? ”
“A Géssica. Trinta e cinco mil reais por mês. Com assinaturas que eu não tinha feito.
”
Senti o estômago a gelar. “Quando é que isto começou? ”
“Pouco depois do nosso casamento. ”
“Osvaldo, eu nunca levantei trinta e cinco mil da minha conta.
”
“Eu não disse que levantaste. Disse que havia transferências a sair. ”
“Para onde? ”
“Para a holding.
”
Senti o mundo a encolher. “Então foi por isso que o Evandro apareceu com os papéis”, murmurei. “Não foi por tua causa. Foi por causa dela.
”
“Que ‘ela’? ”
“A Géssica. Ela está a controlar isto. ”
“Isto o quê?
”
“Os teus artistas. Ela não quer que tu descubras a verdade. ”
Ele recostou-se. “Qual verdade?
”
“A verdade sobre o contrato que assinámos. ”
“Nós não assinámos contrato nenhum. ”
“Não? ” Encostei-me à secretária.
“Então porque é que me deste esta? ” Abri a pasta e tirei um documento. “É o contrato de prestação de contas da minha conta conjunta com contigo. O contrato diz que eu concordo em usar os meus fundos para apoiar o projeto.
”
Ele olhou para a assinatura. “Isto não é a minha assinatura. ”
“Não é? ”
“O meu “O” é grande, não é pequeno.
”
“Oh, Osvaldo. ”
Ele levantou os olhos. A fúria estava a transformar-se em medo. “Isto é uma fraude.
Isto é um documento forjado. ”
“Eu sei. ”
“Quem fez isto? ”
“Quem é que o Evandro contratou?
”
Ele endureceu. “Isto não tem nada a ver com o Evandro. ”
“Então porque é que ele estava na minha casa, às oito da manhã, três dias depois do nosso casamento? ”
“Para te dar o contrato.
”
“Qual contrato? ”
“O contrato que te transforma em garantia do empréstimo. ”
Ele fez uma pausa. “O quê?
”
“Ah, para. Tu sabes bem o que é. ”
“Não, não sei. ”
“O Heitor disse que assinaste os papéis do projeto.
”
“Eu não assinei nada. ”
“Então porque é que ele acha que assinaste? ”
“Porque o Evandro lhe disse. ”
“E porque é que o Evandro haveria de…?
”
Parámos os dois ao mesmo tempo. “O Evandro está a trabalhar com o Heitor”, disse ele devagar. “Ou o Evandro está a trabalhar com a Géssica. ”
“A Géssica é a amante do Evandro.
”
Dei um passo em frente. “Desde quando? ”
“Desde sempre. Ela é…
ela é a contabilista dele. ”
“Contabilista? ”
“Ela sai com ele nos negócios. É a tua gémea ou não é?
”
A minha cabeça andava à roda. “Ela não é minha gémea. Não tenho irmã. ”
“Então quem é?
”
“Não sei. Mas sei que está prestes a conseguir o que quer. ”
“O quê? ”
“O controlo da minha casa.
”
Chamei o advogado no dia seguinte. O Marcos Ferreira, o representante do banco, apareceu ao meio-dia com uma pasta nova. “Celina”, cumprimentou. “Recebeste alguma notícia de um requerimento de suspensão?
”
“Do quê? ”
“O Osvaldo pediu uma liminar contra o assunto. ”
“O quê? ”
“A holding.
Os teus fundos. Ele alega que tu assinaste um contrato que te tornava fiadora. ”
“Eu não assinei nada. ”
“Então não te preocupes.
Vais adorar o júri. ”
“Marcos. ”
“Estou a brincar. Muitos casos resolvem-se antes de chegar a tribunal.
”
“Então o que é que me recomendas? ”
“Contratar um perito em grafologia. ”
“Tenho um relatório de que a minha assinatura é consistente. ”
“Uma voz independente.
”
“A Géssica. ”
Ele congelou. “O que é que sabes sobre ela? ”
“Sei que existe.
”
“O Artigo 15 da Lei do Divórcio diz que qualquer cônjuge que esconda um ativo do outro é processado. Eu sei onde as contas estão. ”
“Não me digas. ”
Li o documento.
“Uma conta conjunta de que não me lembro. ”
“O que é que isso te diz, a sério? ”
“Diz-me que o Evandro andou a mexer. O Evandro voltou a ligar.
Ao jantar, telefonei novamente ao meu advogado. Ele atendeu ao meio-dia. “Diz-me que tens novidades. ”
“Já tratei.
”
“O quê? ”
“Os nossos processos de divórcio já passaram disso, Celina. Eu contratei um perito. ”
“Quando?
”
“O quê, queres esperar que eu vos deixe a cair em cima de mim? Tratei-o. Tenho uma pilha de relatórios para ti quando quiseres. ”
Sentei-me à mesa e sorri.
Uma semana depois, o Evandro recebeu uma carta do advogado dele. Era uma folha única, com três parágrafos, assinada por um juiz. “Entendido o depoimento da testemunha pericial quanto à natureza das assinaturas e dos registos bancários, indefiro o requerimento de arresto e determino o levantamento das taxas anómalas determinadas. O douto tribunal determina a partilha dos valores que o contraente omitiu.
A denominação destes autos é iguais a esteiras de rua, e o juiz de direito assina na ordem. ”
Não. ASSINATURA:
Não. Isso não faz sentido.
Terminei o vinho. “O que é que a carta diz? ”, perguntou a Marta. “Diz que fui enganada.
”
“Bem, obviamente. ”
“Porque é que haverias de querer casar comigo, Marta? ”
“Porque és a única pessoa que alguma vez me fez rir depois do meu divórcio. ”
Deixei escapar um riso.
“Porque precisamos uma da outra para isto. Tu és o cérebro. Eu sou a legitimidade. E depois de ouvir o que o Osvaldo estava tramado doeu, mas não me surpreendeu.
”
“O que é que ele estava a tentar fazer? ”
“Estava a tentar pôr as minhas mãos no saldo da conta. ”
“Ele estava a tentar mandar em ti? ”
“Não.
Estava a tentar proteger-te de ti própria. ”
“Que disparate. ”
“Não é. Eu estava a fugir dele.
Ele estava a tentar fazer-me uma prova de que eu não sabia gerir o dinheiro. O Evandro entrou e soube-o. ”
“E agora? ”
Agora vamos descobrir quem assinou as transferências.
Ela estava parada à minha porta quando cheguei a casa, mais tarde nessa noite. A Géssica. “Olá, irmã. ”
Tirei as chaves.
“Não tenho irmãs. ”
“És muito direta, Celina. Sempre foste. Sempre tão confiante.
Faz parte do que eu mais admiro no Tomás. ”
“Não digas o nome dele. Como é que sabes o nome dele, seu vil? ”
Ela deu de ombros.
“Foi fácil. Vinte anos de impostos da treta no processo dele. Levantava a cabeça e ali estavas tu. Certa vez apareceste numa conferência de imprensa do empreendimento.
”
“O que é que queres? ”
“Quero o sossego que já devia ser meu. ”
“Que sossego? ”
“Herda-se.
O casarão da vovó. Sabes, quero um bocadinho. ”
“O quê? ”
“A vovó deixou-lhe uma casa.
Se as primas tivessem feito exame de ADN como a vovó queria, tudo era meu. ”
“A vovó não te deixou nada porque não eras prima. ”
“Não, não era. ” Ela sorriu.
“E tu não farias a prova. ”
Segurei as rédeas. “O que é que queres, Géssica? Dinheiro?
”
“Dinheiro? Querida, tenho o teu dinheiro. O que quero é aquilo que tu tens: a certeza. ”
“A certeza de quê?
”
Ela aproximou-se. “A certeza de que és a Celina Lemos e o Tomás amava-te e tu não trazias nada de podre. ”
Dei-lhe um estalo. Não a atingi, mas ela baixou-se e o meu anel apanhou-lhe na face.
Ela riu. “Pronto, está feito. ”
“Está feito o quê? ”
“A agressão.
Chamei a polícia. ”
O toque da campainha. “É melhor abrires”, disse ela. “É o teu novo melhor amigo.
”
Abri a porta. Dina estava lá, com uma pilha de autocolantes. “Deixa-me adivinhar”, disse eu. “Tens um mandado de captura.
”
“Agrediste-a na presença de uma testemunha? ”
“Ela veio à minha casa. ”
“Celina, ei-la dentro de casa. ”
“Não estava.
Estava no alpendre. ”
“Bem, agora ela está a chorar e a ameaçar ir aos tribunais. ”
“Dina, estou farta. Ela forjou documentos.
Ela é que está a esconder as provas. ”
“Vais ter de explicar isso. ”
“Vou explicar com um registo. ”
“Registo de quê?
”
“De chamada. ”
Puxei do telefone e mostrei-lhe. “Sabe o que é que ela fez? Entrou no sistema e reclassificou o relatório da assinatura.
A perícia dizia que era inconsistente. ”
“E? ”
“E o Doutor João fez um registo com a data. ”
Dina esperou.
Eu esperei. “Celina. ”
“Vinte minutos antes da agressão, o registo dá o quê? ”
“Não sei.
”
“Dá outra assinatura. ”
“Celina. ”
“Diz que o Tomás andava a receber dinheiro de uma conta fonte. ”
“Conta fonte?
”
“O Tomás tinha dívidas ao jogo? ”
Dina recostou-se. “Qual é a pergunta? ”
A Géssica tinha parado de chorar.
Eu disse: “Sabes, Dina. Esta semana andei a fazer contas. O Tomás emprestou vinte mil ao Evandro até fevereiro. O Osvaldo andava a viver acima das possibilidades.
A Géssica é amante do Evandro. Ele burlou o projecto dele, meteu-o na posição de fiador e depois convenceu-me a casar com ele. Mas nunca descobri quem é que ele é. Por isso vou descobrir.
E quando descobrir, vou foder-vos a todos com tanto dinheiro que vão precisar de um avião para o transportar. ”
A Géssica tinha ficado branca. “Celina”, Dina. “Foi ele, não foi?
O teu querido Evandro. Ele forjou a assinatura dele, não foi? Ele forjou a assinatura. ”
Ela não respondeu.
“A Géssica não foi a tua amante. Tu nunca tiveste amantes, pois tínha? ” Disse eu. “Tu eras o cúmplice homem do Evandro.
”
A sua testa estava suada. “Vais ter de me explicar isso”, virou-se Dina. “Explico. ” Respirei fundo.
“A Géssica não existe. O Evandro inventou-a para se cobrir. Ele usou-a para te aproximar de ti, Osvaldo. Ele usou-a para te afastar de mim.
E depois usou-a para forjar a minha assinatura. ”
“Isso é uma acusação séria. ”
“É a verdade. Faz a prova.
”
Ela não fez. Os jornais da manhã trataram disso. No sofá da minha sala, com uma caneca de café ao lado do telemóvel, li o boletim anterior ao discurso do meu advogado:
“Divórcio de magnata imobiliário expõe anel de falsificação. Vinte minutos depois, a Dina ligou-me.
“Leste? ”
“Estou a lê-lo. ”
“A Géssica apareceu na esquadra da polícia. ”
“Fez alguma coisa.
”
“Entregou-se. Disse que o Evandro a ameaçou. Pediu um acordo. ”
“O que é que ela conseguiu?
”
“Trinta e seis meses, liberdade condicional. ”
“Trinta e seis meses. Por tudo isto. ”
“Sabes que mais?
Ela fez-se passar por ti durante meia década. Temos sorte de ela ter sido presa. ”
“Como é que sabes que ela se passou por mim? ”
“A testemunha diz que a mulher que esta noite alegou ser tua irmã é aquela que esteve na reunião com o Osvaldo.
Quer dizer, tem de ser a Géssica. ”
Não. A Géssica pode ter andado na rua durante meia década. Mas a mulher que a noite teve uma reunião com o Osvaldo?
Era a mesma que gestou o bebé dele. Ela meteu-me a mão no bolso, tirou o visor do nariz e meteu-o. “Obrigado pelo café”, disse. Passaram três semanas.
O Osvaldo ainda não tinha respondido à minha acusação. O Evandro tinha sido afastado da mesa. E o contrato com o banco que me tinha enchido com aquilo estava de novo em cima da mesa. “Há novidades?
”, perguntou a Marta ao pequeno almoço. “Ele aceitou os termos. ”
“A sério? ”
“Disseram que o banco concordou com uma parte da entrega.
”
“Quanto? ”
“Sessenta por cento. ”
Ela assobiou. “E a Géssica?
”
“Diz que testemunha o envolvimento do Evandro na falsificação de documentos. ”
“E qual é a tua palavra? ”
“Foi muito além da idade. ”
“Ela tem trinta e quatro anos.
”
“Não, quero dizer, diz que descobriu a burla tarde demais. ”
“Acreditam nela? ”
“Duvido. Mas tem provas.
”
A Marta apoiou os cotovelos na mesa. “E sobre ti? ”
“O quê? ” Ela apontou o guardanapo para o meu peito.
“A ti. Sobre ti. O que é que vai ser? ”
Olhei para o meu bloco de notas.
Plano A: vender a casa. Plano B: mudar de cidade. Plano C: viver o resto dos meus dias na praia a ver o mar. Plano D: sentar-me e descobrir porque é que preciso de passar os meus dias em mar aberto.
“Acho que vou ficar com a casa”, disse eu, por fim. “A casa é tua? ”
“Às tantas, é a única que tenho. ”
Ela apertou-me o pulso por baixo da mesa.
Três meses depois do divórcio, apanhei-o. Foi numa conferência em Lisboa. A Géssica estava num painel sobre direito imobiliário. Eu estava no fundo da sala.
“Lá está a minha irmã predileta. ”
“Não tenho irmãs. ”
“Também tenho saudades tuas. ”
“Porque é que me procuraste, Géssica?
”
“Porque queria ver com os meus próprios olhos. ”
“O quê? ”
Ela encolheu os ombros. “Se estavas destruída.
”
“E estou? ”
“Estás de pé. Portanto… não.
”
“Porque é que fizeste isto, Géssica? ”
“Porque podia. ”
Era a resposta mais estranha que alguma vez ouvi. “Sabes que mais?
”, continuei. “Achava que eras má. Mas acho que és apenas pequena. ”
“Pequena?
”
“Pequena. ” Abri a mala e tirei o envelope. “Isto é um depósito. ”
“Não quero saber.
”
“É teu. É os rendimentos do contrato de gestão de contas a que nunca devias ter tido acesso. Pus lá o teu nome. ”
“Porquê?
”
“Porque eu não passei uma década sentada no dinheiro do meu marido morto para o ouvires chamar pequena e não conseguires comprar uma bebida com ele. ”
Ela sorriu. “Pronto. ”
Não sei o que ela me fez a seguir, porque me virei e saí.
O Osvaldo casou-se com a enfermeira dele três meses depois. Soube por um amigo em comum que a Géssica tinha visitado. O Evandro foi a tribunal, mas acabou absolvido por falta de provas. A pena foi suspensa.
Quando me cruzava com ele nas ruas ou pela cidade, ele olhava para o outro lado. O contato não foi a reconciliação. Não foi o encerramento. Foi porque eu tinha uma irmã e ela também tinha uma irmã.
Ela tinha uma irmã mais nova que foi dada para adoção à nascença. E a Géssica passou toda a vida à procura dela. Mas eu não estava no processo dela. Eu fiquei com a casa.
Fiquei com a mobília do quintal e as recordações que ele não podia tirar. Na primavera, Gloria e eu fomos a um dos jantares da Evandro. Ele descobrira a notícia da minha sobrinha. “É por isso que continuo a dizer-te, Celina”, disse Evandro, com o copo de tinto na mão.
“Tens de superar isto. Vocês as duas têm de se reconciliar. ”
“Não há nada para reconciliar. ”
“Então porque é que a Géssica continua a mandar-te malas?
”
“Porque ela está grata. ”
“Gratidão? ”
“Ela é a minha advogada, Evandro. Trata dos assuntos do meu património.
Eu não tenho herdeiros, não tenho testamento e não tenho parentes. Ela preencheu o espaço. ”
“Não tens a certeza. ”
“Tenho.
E é uma combinação. ”
Olhei para a porta. Foi nesse momento que ela entrou. Estava mais magra.
O cabelo mais curto. O vestido preto. Sentou-se na ponta da cadeira. “Estava a falar de ti”, disse eu.
“Eu sei. ” Ela tirou um cigarro da mala. “Este sítio é onde se encontram os fumadores. ”
“Não.
”
“Não? ”
“É um jantar de bebida. Fica. ”
Ela sentou-se e li o panfleto.
A Géssica tinha acabado a faculdade. Trinta e quatro anos. O que eu não sabia era que ela tinha tido aulas à noite, enquanto estava presa. Deixei-a ler o folheto.
“Isto teu? ”
“Tendo em conta o tempo que passámos juntas, queria que tivesses isto. ”
Ela abriu-o. A Géssica olhou para o nome e depois para mim.
“Aceitaste o meu nome? ”
“Acho que sim. ”
“O quê? ”
“Tens trinta e poucos anos, Géssica.
Não fizeste nada de mal. Viveste uma vida inteira de palhaçada. ”
“Assinei os teus papéis falsos. ”
“Sei.
Mas eu tinha-te roubado a maldita vida. ”
Li o documento. “Assinas na linha, querida. ”
“É um processo para mudar de identificação.
”
“É a tua identidade. Eu devolvi-ta. ”
Ela olhou para o papel e depois para mim. Os olhos dela encheram-se de lágrimas muito antes de a caneta tocar no papel.
“Porquê? ”
“Porque há uma coisa que aprendi depois de setenta e uma primaveras. ”
A verdade era essa. Eu não estava a ser generosa.
Eu estava exausta. “Já chega”, disse eu. “Esta merda é minha. Comprei-a.
Comprei-a com a minha vida e tu passaste tanto tempo a tentar tirar-ma que te esqueceste de ter uma. ”
Os olhos dela encheram-se de lágrimas. “Pensei que eras a pessoa mais egoísta que alguma vez conheci. ”
“Eu sei.
Não. ”
“Porque é que fizeste isto? ”
“Porque tu és a minha única família, Gabriela. ” O nome dela era Gabriela.
Ela leu. “Celina. ”
“Sim? ”
“Obrigada.
”
Há um anos que me lembro dos termos do processo. Custou-me vinte e seis anos, mas ela pagou-me o que me devia com juros. Já não era dívida. Era móvel.
Não tinhamos nada em comum, exceto o sangue. Mas era o suficiente para começar. Na primavera seguinte ao julgamento, a convite dela, fui a uma festa de beneficência da Géssica. Encontrei-a junto às portas abertas.
“Parabéns pelo aniversário”, disse. “Era mesmo para ser apenas uma pequena coisa. ”
“Chamam-te a isto uma pequena coisa? ”
“O teu vestido está velho”, disse ela.
“Adoro. ”
Rimo-nos. O Osvaldo passou com uma pessoa nova ao lado. A Géssica segurou-me no pulso.
“O que é que ele quer? ”
“Provavelmente, nada. ”
Ele dirigiu-se às duas. “Celina”, acenou.
“Géssica. ”
“Osvaldo. ”
“Pareces muito bem. ”
“Tenho andado a comer, sorrio, tudo com conta.
”
“E isto é? ”
“A minha irmã. ” Ela estava a sorrir de novo. “Prazer.
”
“Já nos conhecemos. ”
Ele apertou-me a mão. “Espero que esteja tudo bem. ”
“Vou andando.
”
Ele foi-se embora e fiquei ali, a olhar para o vazio. “Ótima festa”, consegui dizer. “Eu sabia que havias de gostar. Tomei liberdades.
”
“Que liberdades? ”
“Anda daí. ” A Géssica puxou-me para o centro do jardim. “Quero apresentar-te uma pessoa que ando a sair.
”
Era uma mulher mais nova, com ombros fortes e um sorriso cauteloso. “Celina, esta é a minha namorada, Ana. ”
“Muito prazer. ”
“Prazer.
” Ela olhou para a Géssica. “É tudo o que dizem. ”
“Ela é assim durona? ”
“Pior.
”
A Géssica levantou o copo. “Pelo menos, há mais alguma coisa. ”
Eu ri para eles. “Está bem.
Está bem. Pelo quê? ”
“Por isto. Por ela.
Por que agora é a nossa vida. ”
Brindámos com o copo. A Ana continuava a olhar para mim. “O que é?
”
“Nada. É só… obrigado. É que ando a tentar persuadi-la a escrever um processo.
Ela disse que não escreve sobre ti. ”
“Escreve sobre ti. ”
A Géssica riu. “E é mesmo assim que eu gosto dela.
”
Um metalofone tocou ao fundo. “Ela preparou isto por mim”, explicou a Ana. “A música… a minha mãe costumava ouvi-la.
”
“Não sabia que eras próxima da tua mãe. ”
“Era. Ela faleceu. ”
“Sinto muito.
”
“Obrigada. ” A Géssica apertou-lhe o braço. “Isto é mais feliz do que tu mereces. ”
“Eu sei.
” A Ana sorriu. “Mas eu pretendo continuar muito tempo. ”
A Géssica abraçou-me. “Melhor presente de anos de sempre.
Ter-te na minha vida. ”
Foi aí que eu soube. Quando ela se afastou, eu soube qual era a coisa que eu mais queria. Não era o reembolso.
Eu já não precisava. Queria uma coisa simples. Ali estava eu, a caminho de me sentar à beira-mar com a minha irmã pequena, feliz só por ter estado à beira a tempo de a apanhar.
Era o presente de anos mais feliz que alguma vez tive.