O bloco amarelo deslizou pela mesa e parou ao lado do meu prato, no exato momento em que eu pegava o purê. Levantei o garfo no ar. “Is”, Eloía começou, com a voz calma demais, “vou precisar pedir demissão em breve. Duas semanas devem ser suficientes.

”
Olhei para a página. No topo, em letra de forma arrumada, estava escrito: “Agenda semanal de Isis”. Embaixo, uma lista. Segunda: mercado e farmácia.
Terça: lavanderia e limpeza. Quarta: consultas médicas. Quinta: cozinhar refeições para congelar. Sexta: recados e contas.
Li duas vezes para ter certeza de que estava vendo direito. Depois olhei para Eloía. “Demissão de quê? ”
Ela me deu aquele olhar.
O mesmo que usava quando a garçonete esquecia o limão num chá. Ninguém falou. Vicente empurrou a comida no prato. Rogério tomou um gole de chá gelado.
Priscila, do outro lado da mesa, de repente achou os feijões verdes muito interessantes. Naquele momento, fez-se um silêncio que durou mais do que deveria. E eu entendi. Aquilo não era uma ideia de última hora.
Eles tinham conversado. Talvez não todos, mas o Vicente sabia. Ele sempre sabia antes de mim. Baixei o garfo.
“Você quer que eu peça demissão do meu emprego? ”
Eloía suspirou. Aquele suspiro de quem está cansada de explicar o óbvio. “Seu sogro se foi, Isis.
Estou sozinha nesta casa agora. Não dá para eu fazer tudo sozinha. ”
Meu sogro Augusto tinha morrido sete semanas antes. Ele passara uns bons anos em silêncio, na cadeira dele, vendo o movimento da casa.
Depois veio o declínio, os cuidados, o tempo. Ele foi um bom homem. Quieto, com um humor seco, desses que pega a gente desprevenida. Ele dizia pouco, mas quando dizia, era a coisa mais inteligente que se ouvia na sala.
Eu gostava dele. Eu sentia falta dele. E eu sabia que Eloía sentia falta dele. Mas o luto não explicava o papel amarelo ao lado do meu prato.
Toquei no papel com a ponta do dedo. “Isso é cinco dias por semana. Ou seja, eu não estaria mais aqui de segunda a sexta. ”
Vicente finalmente me olhou.
“Mãe só precisa de ajuda, Isis. ”
Virei para ele. “Ajuda. ”
Ele se mexeu na cadeira.
“Ela está sozinha agora. Alguém tem que assumir. ”
“Alguém tem que assumir. ”
A repetição saiu mais dura do que eu queria.
Olhei para cada um deles. “Nós precisamos descobrir alguma coisa. O que vocês acham? Quem pode assumir?
”
Ali estava. A pergunta que estava queimando na minha garganta desde que o papel apareceu. Porque naquela mesa todo mundo já sabia quem era o “alguém”. Alguém tinha acabado de ser decidido.
Alguém era eu. Olhei para o Rogério. Cinquenta e seis, saudável, morava a quarenta minutos dali. “Você dirige para o trabalho?
” perguntei. “Estou na estrada metade da semana”, ele respondeu. Olhei para a Priscila. Ela deu de ombros antes mesmo de eu abrir a boca.
“Eu tenho os filhos. ”
Os filhos tinham catorze e dezessete. Um deles já dirigia. Virei para o Vicente.
Ele nem deixou eu perguntar. “Você sabe como é a minha agenda”, disse, com os olhos no prato. Eu ri. Uma risada curta, sem graça.
“Curioso. Eu também tenho uma agenda. ”
Eloía se recostou na cadeira. “Sim, Isis.
Nós sabemos que você trabalha. ”
O jeito que ela disse “trabalha” fez parecer que eu vendia velas perfumadas na feira uma vez por mês. “Eu não ‘trabalho’, Eloía. Eu gerencio compras para uma rede de hospitais.
Contratos, emergências, escala de fornecedores. Eu tenho reuniões. ”
“Eu sei o que você faz”, Vicente cortou. “Você sabe?
Porque até agora, todo mundo na mesa explicou o porquê do tempo de vocês importar. E aparentemente o meu tempo está sentado aqui esperando para ser reatribuído. ”
A boca de Eloía se apertou. “Você está levando para o pessoal.
”
“Eu sei que estou levando para o pessoal. É por isso que estou levando para o pessoal. ”
O jantar terminou num silêncio pesado. Vicente mal falou comigo até chegarmos em casa.
Ele dirigia em silêncio, os nós dos dedos brancos no volante. Eu olhei pela janela do passageiro, esperando que ele dissesse alguma coisa. Qualquer coisa. O que era pior: ele falar ou ele não falar?
Quando chegamos em casa, ele subiu direto para o quarto. Eu fiquei na cozinha, com uma xícara de chá que ficou esfriando na bancada. Ele só desceu quando ouviu o barulho da xícara sendo lavada. “Você não vai dizer nada?
” perguntei. Ele encostou no batente da porta. Ali, no silêncio da cozinha, a raiva finalmente subiu pela minha garganta. “Eu cuidei do seu pai por quase um ano, Vicente.
Eu troquei fraldas, preparei comida, levei a médico, fiquei acordada até mais tarde do que você para garantir que ele não ficasse sozinho. E eu fiz isso porque eu estava aqui. Onde você estava? ”
Ele abriu a boca, mas eu continuei.
“Eu prometi ao seu pai, antes de ele morrer, que a sua mãe nunca teria que depender de estranhos. E estou cumprindo a minha promessa. Mas eu não virei um serviço de atendimento domiciliar gratuito só porque o resto de vocês decidiu que as vidas de vocês são menos flexíveis do que a minha. ”
Toda a raiva que eu sentia transbordou naquelas palavras.
Vicente ficou parado me olhando. Quando ele finalmente falou, sua voz não tinha mais a dureza de antes. Era uma voz cansada. “Eu sei.
Eu vou ver se consigo reajustar minha agenda. Mas vou precisar do seu apoio. ”
Aquilo foi mais do que ele tinha me dado na mesa. Foi mais do que qualquer pedido de desculpas.
E, de alguma forma, fez uma ponta de esperança surgir no meu peito. Talvez a gente pudesse consertar isso. Eu ainda não sabia que o pior ainda estava por vir. Na manhã seguinte, uma terça-feira, eu deveria estar indo trabalhar.
Em vez disso, sentei no meu carro no estacionamento do escritório, com um café esfriando no suporte de copos. Olhei através da parede de vidro do prédio. Pessoas passavam com pastas, rindo umas com as outras, fazendo coisas normais de terça-feira. Pedidos de compra, cotações, reuniões bobas de equipe.
E eu, ali, quieta, marcando uma consulta no meu celular. Para uma terapeuta de casais. O escritório da Daniela ficava no quarto andar de um prédio de tijolos perto do centro. Ela era pequena, com um cabelo castanho preso num coque apertado, e não sorria quando entrava.
Sentei no sofá de tecido áspero, com uma caneca de chá que ninguém perguntou se eu queria. Eu falei. Ela escutou. Quando terminei, ela olhou para mim por cima dos óculos.
“Você quer salvar o casamento? ”
“Eu quero passar menos tempo administrando a casa do meu marido”, respondi. “Essa é uma resposta que atrapalha ou ajuda. ”
Respirei fundo.
“Eu quero salvar o casamento. Mas não quero salvá-lo sozinha. ”
Quando voltei para o trabalho naquela tarde, liguei para o meu corretor. Eu sabia que mal tínhamos terminado de pagar o salão de casamento do mês passado, mas eu precisava saber.
Qual seria o valor de uma avaliação de saúde minha, por minha conta, em vez de pelo plano. Ele me deu um número. Balancei a cabeça, anotei ao lado do teclado. Quando cheguei em casa, Vicente já tinha chegado.
Ele estava na cozinha, com os ombros tensos, olhando para um papel na bancada. “Isis”, disse ele, “temos que conversar. ”
Sentei na cadeira da cozinha, o corpo tenso. “O que aconteceu?
”
“Recebi uma ligação do contador do meu pai. Ele deixou uma dívida. Não uma dívida grande, mas… suficiente.
E a mãe, ela já assinou uma procuração para mim. ”
Fechei os olhos por um instante. “Quanto? ”
Ele me disse o valor.
Balancei a cabeça, fazendo contas de cabeça. “Okay. A gente dá conta. A gente corta alguns gastos.
A gente paga. ”
Ele olhou para o teto, mas não disse nada. E era aquele silêncio que me assustava. Não era o silêncio da raiva.
Era o silêncio de quem já tinha decidido alguma coisa e não sabia como dizer. “Vicente, vai me dizer o que você está pensando. ”
Ele finalmente me olhou. “Por que a gente não volta para o apartamento antigo?
Só por um tempo. Enquanto resolve a situação da mãe. ”
Eu sabia que aquilo ia acontecer. Eu tinha esperado por aquilo desde a noite do jantar.
Mas, mesmo assim, quando ouvi, foi como levar um soco no estômago. “O apartamento antigo. Que tem um quarto. Que a gente já passou cinco anos tentando sair.
”
“Eu sei. Mas é temporário. ”
“Temporário. Como o mês passado.
Como o próximo ano. Quando a gente vai voltar para a nossa vida? ”
Vicente apertou os olhos. “Isis, o que você quer que eu faça?
Ela é minha mãe. Ela está soando cada vez mais sozinha. Ela está ficando mais fraca. E eu não posso simplesmente deixá-la sozinha.
”
“Eu não estou pedindo para você deixar a sua mãe sozinha. Eu estou pedindo para a gente ter uma vida. ”
“Por que você está fazendo disso um ‘nós’ contra ‘elas’? ”
“Porque eu casei com você, Vicente.
Não com a sua mãe. E eu preciso que você se lembre disso. ”
Ficamos ali, um de cada lado da bancada, com um abismo entre a gente. Naquela noite, fui dormir cedo, não sem antes colocar o despertador para tocar meia hora antes do meu horário habitual.
Uma semana depois, eu estava fazendo ovos mexidos na cozinha quando o telefone tocou. “Alô? ”
“Isis, é a Eloía. ”
Meus ombros tensos relaxaram um pouco.
Eloía, a minha sogra, me ligava para pedir conselhos sobre o jantar de domingo. “Oi, Eloía. Tudo bem? ”
“Isis”, ela disse, com uma voz trêmula que não era normal.
“Eu estava olhando a minha agenda. Domingo é o aniversário da minha mãe, da minha irmã. Eu sempre planejava com a sua sogra. Mas eu não tenho mais a pessoa que me ligava.
Eu só… eu não sei mais o que fazer. ”
Segurei o telefone com mais força. “Eu sei, Eloía.
Eu sei. A gente vai descobrir. ”
“Eu sei que a geriatra deu os horários de consulta. Eu estava pensando em ir na semana que vem.
”
“Claro. Eu te acompanho. A gente vai. ”
E quando desliguei, fiquei olhando para a parede.
Eloía estava naquela casa sozinha, com três celulares e uma rotina de consultas que exigiam duas mãos para carregar. E não importava o quanto eu quisesse culpar a morte do meu sogro por ter me transformado no braço direito dela, eu sabia que a gente não ia resolver aquilo sozinha. No jantar de aniversário de Eloía, o peru ficou no centro da mesa, dourado e brilhando. Vicente e Rogério brincaram na cozinha com a temperatura do forno, e a casa, depois de meses sem ele, parecia mais cheia.
As risadas voltaram, os pratos de plástico vieram, o bolo com velas 49 e uma vela solitária foi apagado entre gritos. No fim da noite, quando eu estava guardando os restos, Eloía sentou ao meu lado no sofá. “Isis”, ela disse, sem me olhar. “Eu sei que eu não fui justa com você.
”
Olhei para ela. “Nós estamos em um caminho, Eloía. Não precisa. ”
“Eu sei”, ela insistiu, com os olhos marejados.
“Mas eu preciso dizer. Eu sei que você tinha o seu trabalho. E eu… eu coloquei você nessa situação.
Eu não tive culpa de querer a ajuda. Mas eu tive culpa de esperar que você fizesse isso sozinha. ”
Respirei fundo. “A gente está trabalhando nisso.
A gente está indo à terapia. ”
“Eu sei. O Vicente me contou. ”
Quando ela esticou a mão e apertou a minha, eu não me afastei.
E naquele momento, percebi o quanto eu precisava daquilo. Algumas semanas depois do aniversário dela, Vicente estava fuçando na gaveta de bugigangas da cozinha à procura de uma lanterna. Eu estava lendo no sofá quando ele ergueu um recibo. “Isis.
O que é isso? ”
Peguei o papel. Era a fatura da avaliação médica que eu tinha feito por minha conta. “É…
é um exame de rotina. ”
Ele franziu a testa. “Um exame de rotina que não passou pelo plano? ”
“Não importa, Vicente.
É só um check-up. ”
“Isis, por que você faria um check-up fora do plano? Você está doente? ”
Meu coração disparou.
“Não estou doente. Está tudo bem. Foi só… eu queria ter certeza de que estava tudo bem.
”
Ele olhou para mim por um longo tempo. Aqueles olhos que eu tinha visto mudarem no ano passado. Ele pousou o recibo na bancada. “Isis.
Vamos ser honestos um com o outro, sim? Não é sobre o check-up. É sobre a gente. ”
Engoli em seco.
“O que você quer dizer? ”
“Eu quero dizer que eu estou ficando cansado de te procurar e sentir que estou procurando uma pessoa que não está mais aqui. Você está em toda parte: na casa da minha mãe, resolvendo as contas dela, no banco, na farmácia. E quando eu chego em casa, você está cansada.
E eu estou cansado. ”
A verdade doeu mais do que qualquer grito. “Eu estou tentando segurar as pontas, Vicente. ”
“Eu sei que está.
Mas eu não quero que a gente segure as pontas. Eu quero que a gente viva. E eu não sei se a gente ainda sabe como. ”
Na manhã seguinte, enquanto ele tomava banho, peguei o telefone e liguei para uma advogada.
Marquei uma consulta para a semana seguinte. Não para pedir o divórcio. Mas para entender o que eu precisava, na letra fria da lei, caso a gente decidisse por esse caminho. Eu não sabia se queria salvar o casamento ainda.
Mas eu sabia que queria ter escolha. Cheguei no estacionamento da advogada e fiquei sentada no carro até o último minuto. Quando entrei no escritório, uma mulher alta com um blazer escuro me cumprimentou. Ela analisou meu caso em menos de vinte minutos.
“Vocês têm financiamento imobiliário, certo? ”
“Tem. E um carro pago. ”
“E o apartamento antigo que ele mencionou?
”
Balancei a cabeça. “A gente alugou por um tempo. Acabou a locação. ”
“Então, se a separação acontecer, a partilha é simples.
Exceto por uma coisa. ”
Ela puxou um papel. “Isso aqui é uma declaração de pensão alimentícia. Seu marido pediu que eu preparasse um documento pedindo o pagamento de uma pensão para a sua mãe.
”
Meu corpo inteiro fechou na hora. “Como assim? Ele nunca falou sobre isso comigo. ”
“Ele me pediu para redigir em sigilo.
Ele disse que não queria te sobrecarregar. ”
A raiva que me atingiu não foi contra a advogada. Foi contra o Vicente. “Ele não pode decidir isso sozinho.
Eu não vou pagar mais pelo capricho da minha sogra. Eu não sou caixa eletrônico dele. ”
“Então, você ainda não se separou. A questão é que vocês precisam decidir o que é mais importante: o dinheiro ou a relação.
”
Saí dali com a cópia da declaração amassada dentro da bolsa. Naquela noite, Vicente chegou em casa e me viu sentada na mesa da cozinha com o documento na frente. “O que é isso, Isis? ”
“Isso, Vicente, é você decidindo pelas minhas costas que eu devo sustentar a sua mãe.
”
Ele ficou pálido. “Isis, espera, eu posso explicar. ”
“Pode explicar o quê? Que você acha que eu não tenho nada melhor para fazer do que cuidar da sua família enquanto você atua como meu chefe?
Eu não vou assinar isso. ”
“As coisas mudaram, Isis. Ela está piorando. ”
“E eu estou melhor?
Eu me matei de trabalhar para a gente ter uma coisa nossa, e você me dá um presente com cheque para a sua mãe. ”
Ele deu um passo em minha direção. Dessa vez, não recuei. “Eu quero a separação, Vicente.
Não é para ontem, mas é para agora. Eu vou procurar um lugar para ficar. Você vai morar com a sua mãe se quiser. Mas eu não vou viver mais nessa casa como se eu fosse uma funcionária de vocês.
”
“Isis, por favor. ”
“Por favor, eu vou. Você já fez a sua escolha. Engraçado, né?
Eu sempre pensei que o divórcio fosse sobre o fim de um amor. Mas para mim, foi a primeira vez na minha vida que escolhi ficar tipo uma mulher que pensa na própria alma. ”
Atravessei a sala, peguei minha bolsa e fui embora. Meu carro doeu quando a porta bateu.
Mas a liberdade doeu mais. As semanas seguintes foram uma estrada empoeirada. Fiz minha mudança da casa para um pequeno apartamento mobilhado, perto do trabalho. Vicente e eu vendemos a casa, dividimos os móveis.
Ele se mudou para a casa da sua mãe para “administrar a casa” até vermos o que aconteceria. Naquele meio-tempo, Eloía começou a fazer fisioterapia e uma enfermeira ia à casa em dias alternados. Um dia, Eloía sentou ao meu lado na casa nova e falou. “Eu falei com o Vicente.
”
Olhei para ela. “Ele está muito perdido. Ele está com medo de te perder de vez. ”
“O que você respondeu?
”
“Eu respondi que ele já tinha perdido a única mulher que o aturara. ”
Daneei a rir, uma risada dura. “Isis, de verdade. Ele sempre te amou.
Ele só não sabe demonstrar. Ele aprendeu com o pai dele. O pai dele não sabia amar porque o pai dele não foi amado da forma certa. ”
Não falei nada na hora.
Eloía suspirou. “Eu não vou ser justa com você de novo. Você foi pega no meio de uma guerra que não era dela. E eu não vou te deixar afundar.
Eu já perdi demais: perdi o Augusto, perdi a minha saúde, quase perdi a minha cabeça. E se eu puder evitar, não vou perder a minha nora. ”
Olhei para ela, com os olhos arranhando. “Obrigada, Eloía.
”
“Vai lá. Ainda dá tempo. ”
No casamento de Rogério, trinta minutos depois do sol nascer, eu estava de pé no gramado nos fundos da casa dele, vendo ele e a Priscila trocarem votos. O café da manhã foi servido na varanda, com bolo de cenoura e camisas abotoadas no lugar do smoking.
Vicente estava lá, um pouco distante, observando. Ele estava de terno, e eu estava de vestido simples. Nossos olhos se encontraram por cima das taças de champanhe. Ele veio até mim.
“Está bonita hoje, Isis. ”
“Obrigada. Você também. ”
Ficamos em silêncio por uns minutos.
“A gente fez a coisa certa? ”
Olhei para as mãos dele. “Eu acho que a gente fez a única coisa que dava para fazer. A gente tentou.
Muito. A gente brigou. A gente foi à terapia. A gente tentou de tudo.
Mas a gente não podia continuar fingindo que a casa era mais importante do que a gente. ”
Ele assentiu devagar. “Eu sinto a sua falta. ”
“Eu também sinto.
Mas a gente tirou uma coisa boa de tudo isso: eu não esqueci de mim. ”
Ele me olhou, confuso. “Você é corajosa, Isis. Sempre foi.
Você continua sendo. É a coisa que eu mais admirava em você. ”
Quando o casal se beijou, todos aplaudiram. Saí pelo portão, abri a porta do meu carro.
Antes de entrar, olhei para o meu antigo sogro, o Augusto, sentado alguns metros adiante, no terraço, mascando um talo de grama. Ele ergueu dois dedos, num aceno de quem abandonou o campo há muito tempo, mas ainda torce pelo time. Entrei no carro e fechei a porta. O motor ligou.
E pela primeira vez em anos, não estava seguindo ninguém. Estava indo para casa.