Estava sentada na mesinha de canto do café da esquina, escondida atrás de uma planta enorme, quando vi no celular a cena que eu tanto esperava: o meu namorado e a ex-namorada dele, os dois de…

Estava sentada na mesinha de canto do café da esquina, escondida atrás de uma planta enorme, quando vi no celular a cena que eu tanto esperava: o meu namorado e a ex-namorada dele, os dois de...

Estava sentada na mesinha de canto do café da esquina, escondida atrás de uma planta enorme, quando vi no celular a cena que eu tanto esperava. Do outro lado da rua, o meu namorado e a ex-namorada dele da faculdade estavam os dois de roupa íntima, se coçando como dois loucos no meio da sala do apartamento dele, vermelhos que nem camarão. E o melhor de tudo era que eles não faziam a menor ideia de que era eu por trás daquilo tudo. Mas antes de você me julgar, deixa eu voltar um pouco e te contar como a história começou.

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Meu nome é Marina, tenho 26 anos e sou professora de educação infantil. Trabalho de manhã numa escola pública aqui na minha querida cidade de Piracicaba. Depois de passar a manhã inteira cuidando de criança de cinco anos, a última coisa que eu precisava era aturar um marmanjo birrento de vinte e oito. Conheci o Rodrigo num curso de desenvolvimento pessoal de fim de semana, daqueles que a gente faz achando que vai sair uma pessoa nova e sai do mesmo jeito que entrou.

Ele era simpático, atencioso, e na época eu não sabia que ele tinha acabado de sair de um relacionamento longo com uma tal de Fabiana. A gente se aproximou, começou a sair, e eu fui me apaixonando aos poucos. Ele me tratava bem, me levava pra jantar, falava comigo todos os dias. Eu achava que tinha encontrado o homem certo.

Mas aí eu fui conhecer os amigos dele. O Rodrigo trabalhava num banco, e o melhor amigo dele, o Leonardo, trabalhava no mesmo lugar. Aquele Leonardo era o típico filhinho de mamãe safado, que só passava num concurso daquele porque o pai tinha contato com o diretor. E adivinha?

Ele era o ex-namorado da Fabiana. Isso mesmo, o Rodrigo tinha começado a namorar com a Fabiana depois do Leonardo, e os dois viviam se estranhando por causa dessa rivalidade boba. No começo, eu tentava fazer vista grossa. Afinal, não era culpa do Rodrigo que o coleguinha dele fosse um idiota.

Mas o Leonardo fazia questão de infernizar a minha vida. Toda noite o Rodrigo chegava do trabalho exausto e reclamava, mas sempre do Leonardo. Hoje o cretino do Leonardo me fez refazer um relatório. Hoje o filho da polícia do Leonardo ficou com a mesa mais perto do ar-condicionado.

Hoje o Leonardo falou mal do meu trabalho na frente do chefe. Eu ouvia tudo calada, acenava a cabeça, mas a raiva que eu sentia daquele homem crescia mais e mais. Até que um dia, o Rodrigo chegou radiante em casa, me contando que ia sair uma vaga boa na agência central. Era uma transferência com aumento de salário e posição melhor.

Ele estava confiante que ia conseguir. O problema era que o Leonardo estava na mesma disputa. E quando o chefe do setor, que era palma da mão do pai do Leonardo, decidiu pela transferência do Leonardo, eu não aguentei. Um dia, o Rodrigo chegou com o rabo entre as pernas, contando que o Leonardo tinha passado a perna nele de novo.

Eu não aguentei a minha raiva. Eu já não aguentava mais ouvir o nome daquele homem na minha casa. De todas as conversas, aquela tinha sido a gota d’água. Então fui ao supermercado, comprei uma caixa de pó de pimenta bem forte e coloquei no armário.

No dia seguinte, aproveitei que o Rodrigo saiu para trabalhar e fui até o apartamento dele. Ele tinha me dado uma cópia da chave porque eu sempre ia lá dar uma ajeitada e deixar as coisas organizadas quando ele saía de viagem a trabalho. Entrei, e fiquei horas ali dentro, rindo sozinha enquanto tramava tudo. Abri a gaveta de cuecas e espalhei uma pitada generosa de pó de pimenta em cada peça.

Vesti os ternos dele, passando o pó dentro das mangas e no forro das camisas sociais. Espalhei no edredom do quarto, que eu tinha acabado de comprar. Salpiquei nas roupas de cama e ainda borrifei um pouco no colchão. Passei um pano úmido no armário para tirar o excesso, deixei tudo no lugar, e sai, com a chave na mão.

Sábado chegou e era o dia que a Fabiana iria aparecer. Eu sabia onde ela morava, tinha visto o perfil no Instagram seguindo uns amigos comuns. Fiquei de plantão na própria câmera de segurança do prédio do Rodrigo, que ele instalou para vigiar umas reformas. Eu tinha acesso a senha de tudo no aparelho do Rodrigo.

Quase caí da cadeira de tanto rir. E quando ela apareceu, me diverti ainda mais. Ela estava com um vestido curto e uma pequena bolsa de viagem, e entrou no prédio. Do outro lado da rua, eu vi o Leonardo chegar e entrar também.

E foi ali que eu armei o plano final. Escrevi para o Rodrigo, mandando mensagens em nome da Fabiana, marcando de se encontrar com ele. Ele respondeu numa empolgação que dava até dó. Depois, num momento de pura inspiração, peguei o número do blog do chefe do Rodrigo, um barraco dos infernos.

Então mandei uma mensagem, me passando pela Fabiana, dizendo que precisava devolver um presente para o Rodrigo. Sabia que ele iria querer abrir a porta. Vi pela câmera os dois entrando no quarto. Ele achava que ia encontrar a Fabiana, mas quem apareceu foi o Leonardo, do nada.

A Fabiana, ou melhor, a batata, ficou branca que nem um papel. O Rodrigo, maluco da vida, já ia gritando, mas a batata começou a rir como se fosse a melhor piada do ano. E enquanto ela ria, eu vi o Rodrigo começando a se coçar. Aos poucos, comecei a rir sozinha.

O pó da pimenta estava fazendo efeito. Ele pegou no pescoço dele, nos braços, nas costas, e a batata, coitada, também. Logo os dois estavam pulando, gritando, se coçando loucamente no meio da sala. Eu podia ver tudo pelo celular e quase chorei de tanto rir.

Mas eu queria mais. Então peguei o telemóvel e liguei para a porta de um dos vizinhos que eu sabia que chamaria. Depois fiquei lá com os olhos grudados na tela, como quem assiste a uma partida de futebol. O Leonardo, coçando as pernas, no desespero, conseguiu puxar um carrinho pela sala.

Eu sabia que ele tinha pensado que era alergia de alguma coisa. Mas quando ele viu o pacote de pó de pimenta que eu tinha esquecido na estante, ele ficou vermelho de raiva. Ele gritou um nome e correu para o quarto, mas a batata estava debaixo do edredom, se esfregando no colchão. Ele puxou o edredom, mas ela não soltava.

Começaram a gritar um com o outro ali mesmo. A batata, com as mãos na cintura, começou a chorar e a gritar. Disse que sempre gostou mais do Rodrigo, que a culpa era dele por ter ciúme doente, que só queria mostrar pro idiota do Leonardo como era perder a mulher que ama. De que adianta ter dinheiro e família influente se você nem consegue manter a sua noiva por perto?

Você é um filhinho de mamãe, que foi traído pela noiva quatro meses antes do casamento, pelo ex-namorado de quem você roubou a noiva. Foi quando a batata saiu do quarto, com as mãos na cabeça, se coçando inteirinha, e deu um tapa no rosto do Rodrigo. Ele ficou tão pasmo que não esboçou reação. Ela gritou que aquilo era uma vergonha, e no meio da confusão, a porta abriu.

Eu vi na câmera. O Rodrigo e a batata se olharam, apavorados, e tentaram se esconder. Mas era tarde demais. O Leonardo, com o olhar mais gelado do mundo, parou na porta, viu a cena, e sem falar nada, saiu de fininho, descendo a escada.

Eu ri, mas foi uma risada quase seca. O Rodrigo respirou aliviado, achando que tinha escapado. Mas em segundos, ele voltou. Voltou com o celular na mão, apontou para os dois deitados na cama, e começou a gritar que aquela conversa estava gravada.

A batata começou a chorar e a espernear, mas ele não queria nem saber. Ele mandou a batata sair. Ela, chorando muito, se levantou do sofá, se coçando, foi pro quarto, catou as roupas jogadas pelo chão, enfiou numa bolsa, vestiu a roupa por cima da langerie, e voltou pra sala ainda se coçando. Ela olhou pro Rodrigo uma última vez, mas ele estava com o rosto enterrado nas mãos, se coçando por baixo da camisa.

A batata abriu a porta e saiu. Eu vi ela descendo as escadas, soluçando, a bolsa na mão, com o semblante desolado. Eu fechei o aplicativo, vi a batata saindo do prédio chorando, segurando a mala. Senti um alívio enorme, mas confesso que no fundo me arrependi um pouco.

Mas aí lembrei do Rodrigo, do Leonardo, e fiquei ali de cappuccino na mão, pensando que tudo que passou ali foi merecido. O Rodrigo, com a batata fora do apartamento, largou as roupas no sofá e começou a se coçar desesperado, agora num ritmo frenético. Ele ficou ali, pulando de pé em pé, furioso. Mas o pior ainda estava por vir.

Uns dias depois, a campainha tocou. Era a polícia. O vizinho tinha achado estranho o alvoroço e chamou os oficiais. Eu vi tudo pela câmera.

O Rodrigo, todo se coçando, foi atender. Os policiais perguntaram se estava tudo bem, que tinha dado um barulho de briga. Ele, todo sem graça, vermelho de calor, disse que tinha caído do sofá. O policial, desconfiado, perguntou se ele tinha certeza.

Quando o policial estava saindo, ele olhou para trás e gritou: “Ei, moço, o senhor tá com essas marcas aí tem um tempo? Parece que tá com uma alergia da pior! ” O Rodrigo, desesperado, tentou explicar que era o pó de pimenta. E o policial, com a mão no queixo, disse: “Ah, pimenta?

Bom, cuidado que isso pode causar queimaduras graves. ” Foi a deixa que o Rodrigo esperava. Ele agradeceu, fechou a porta e encostou a testa na madeira, respirando fundo. Mas a raiva dele passou.

Na segunda-feira, eu fui trabalhar como se nada tivesse acontecido. Na terça, fui ao banco resolver uma burocracia e vi o setor do Rodrigo. Ele estava meio arredio, mas não me deu confiança. Uns dias depois, o Leonardo me ligou.

Fiquei surpresa. Ele não era de falar comigo, mas queria me agradecer, dizendo que finalmente tinha visto o Rodrigo como ele era de verdade. Achei muita cara de pau da parte dele, mas deixei quieto. Só que ele queria marcar de ir lá em casa.

Eu recusei, falei que estava ocupada. Ele ficou insistindo, dizendo que tinha umas amigas que dariam um up no meu visual. No fim, aceitei para ver o que ele ia aprontar. Uns três meses depois do flagra, encontro com uma moça no mercado da minha rua.

Ela tinha um rosto que eu nunca esqueci. Era a batata, trabalhando como caixa. Ela me viu, me reconheceu e abriu um sorriso sem graça. Se espreguiçando no caixa, ela disse, cheia de si: “Olha, tudo bem?

Obrigada pelo empurrãozinho. Acabei terminando com o Rodrigo e voltando a minha liberdade. E diz o Leonardo? Nada.

” Eu não sabia se dava risada ou se ficava brava. Olhei pra cara dela, que não tinha nem coragem de me olhar por muito tempo. Ela baixou a cabeça e começou a passar as compras. Quando ela me devolveu o troco, eu vi que a mão dela ainda tremia.

Eu saí do mercado com a minha sacola, sem dizer uma palavra. De vez em quando, ainda encontro o Rodrigo pela rua. Ele sempre desvia o olhar, me olha de canto, como quem quer pedir desculpas, mas nunca chega perto. O pior de tudo é que eu descobri que a culpa de tudo fui eu, mas a grande ironia é que o Leonardo saiu ganhando.

Ele foi promovido e está num cargo de chefia agora. E não, não voltei com ele. Prefiro ficar sozinha do que me sujar com alguém daquela laia. Eu precisava ser maluca assim para me envolver.

Às vezes me olho no espelho e penso que a frieza foi necessária. Hoje, quando olho para trás, não sinto arrependimento. Sinto-me como quem tirou um peso das costas. Aprendi que a gente não pode controlar a vida dos outros, mas pode escolher o nosso próprio caminho.

Foi uma lição amarga, com gosto de pimenta. No final, a vida levou o Rodrigo para longe e me deixou em paz, mesmo que por um caminho tortuoso. Aprendi a reconhecer os fakes da vida e a entender que o tempo passa e a gente amadurece. E se me perguntarem se eu faria de novo?

Talvez só um pouquinho pior. Mas acho que o Rodrigo mereceu, por ter me feito de otária por tanto tempo. E aquele sábado gelado de inverno virou lenda naquele café de esquina.