Estava eu na reunião da associação do bairro, a planear a festa junina, quando uma mulher sugeriu montar uma barraca do beijo. O marido dela, sentado ao lado, largou logo: — Boa ideia. Desde que não seja a minha mulher. Toda a gente riu.

Eu, lá do fundo, não resisti: — É melhor que não seja mesmo. Imagina o surto de DST que vai dar na cidade. Fez-se um silêncio tão grande naquela sala que se ouvia o grilo a cantar. Mas antes de continuar, deixa-me voltar um pouco atrás e contar como chegámos até aqui.
Chamo-me Kelinda. Sim, Kelinda. Os meus pais foram bem criativos. A minha mãe gostava muito do nome Kelly, mas achava Kelly comum demais, então decidiu inovar.
E pronto. Tenho 23 anos e trabalho como caixa do supermercado aqui na minha cidadezinha, no interior de Minas Gerais, com trinta mil habitantes. Daquelas cidades em que tropeças no passeio e, quando chegas a casa, a tua mãe já sabe qual joelho ralaste. E eu, como caixa de um dos maiores mercados da cidade, vivia no epicentro de tudo.
Toda a gente passava pelo meu caixa. O presidente da câmara, o padre, a professora, o homem da borracharia, a dona de casa, o reformado. Cada um com o seu carrinho, o seu saco e a sua fofoca para largar. O caixa do mercado é o confessionário expresso do povo.
A pessoa entra para comprar uma coisinha e sai a ter contado que a vizinha está grávida do cunhado. E eu ali, a passar as compras, a ouvir tudo com cara de paisagem e a dar um sorrisinho quando era preciso. O dono do mercado é o Jefferson. É um chefe tranquilo, sério no trabalho, mas justo.
Sempre me tratou bem. Deixava-me sair mais cedo quando precisava, nunca reclamou quando eu ficava mais dois minutos a conversar com as clientes. Eu faço croché desde os quinze anos. Aprendi com a minha avó.
Tapetes, toalhas de mesa, sousplats, caminhos de mesa. Fazia de tudo. O Jefferson comprava as minhas peças e vendia no mercado, o que me ajudava a complementar o rendimento. Moro com os meus pais, gente simples e de igreja.
A minha mãe cozinha todos os dias e o meu pai vê o telejornal todas as noites. Rotina de quem é feliz sem precisar de muito. São religiosos, não fanaticamente, mas consistentemente. Todos os domingos na igreja, todas as refeições com agradecimento.
E eu fui criada assim, na fé, na honestidade e com a convicção inabalável de que certas coisas só acontecem depois do casamento. Se é que me entendem. Agora deixa-me apresentar o Wenzo. Sim, Wenzo mesmo.
Ele contou-me que a mãe era fã da Cláudia Raia e adorou o nome do filho dela, mas pensou: vou dar um toque especial. Meteu um W no início e dois E para ser diferente. O Enzo morava na rua de cima. Eu era apaixonada por ele desde os doze anos, daquele jeito de adolescente, sabes?
Escrevia o nome dele no caderno com coraçãozinhos à volta. O Enzo era um ano mais velho e estudámos na mesma escola. Ele sabia que eu existia, mas não fazia questão nenhuma de me cumprimentar. Depois tirei o aparelho dos dentes, o cabelo resolveu colaborar, o corpo foi tomando forma de mulher e, de repente, o Enzo começou a puxar conversa.
Dez anos a ignorar-me e, de repente, queria saber o que eu ia fazer no fim de semana. Começámos a namorar e, para mim, foi a realização de um sonho de infância. O menino para quem eu desenhava coraçãozinhos no caderno agora mandava-me bom dia e boa noite todos os dias. Os meus pais gostavam do Wenzo.
Os pais dele eram conhecidos do meu pai, gente honesta e trabalhadora. O meu pai dizia sempre que, para saber o caráter de um homem, bastava olhar para a família, e a família dele era de boa índole. O Enzo trabalhava como servente de pedreiro. Ganhava pouco, mas era dinheiro honesto.
E, como eu disse, certas coisas só depois do casamento. Eu tinha o sonho de me casar pura. Era a minha decisão e eu estava firme nela. No início, o Enzo tentava umas mãos mais afoitas aqui e ali, mas eu mandava sempre parar e ele respeitava.
Mal nos beijávamos. O nosso namoro era na sala de casa, com a minha mãe a passar de quinze em quinze minutos a fingir que ia buscar água, e de vez em quando saíamos para comer fora. Namoro à moda antiga. Com oito meses de namoro, ele pediu-me em casamento.
Rápido, eu sei. Mas quando esperas por uma pessoa desde os doze anos, oito meses de namoro parecem uma eternidade. Aceitei na hora. Comecei a planear o casamento.
Nada luxuoso. O meu sonho era simples: um bolo grande, um vestido bonito e uma festa com a família e os amigos no salão da igreja. Só queria que fosse bonito e que as pessoas que eu amo estivessem lá. Mas até um casamento simples custa dinheiro.
Vestido custa, bolo custa, salgadinhos custam. E caixa de mercado e servente de pedreiro não são exatamente profissões que te fazem nadar em dinheiro. Foi aí que tive a ideia da rifa. Rifa de cinco reais cada número.
Prémio: um conjunto de tapetes de croché feitos por mim. Toda a gente do bairro já tinha alguma peça minha em casa. Comecei a vender de porta em porta e o Jefferson deixou-me vender no mercado também. Quase todos os clientes que passavam pelo meu caixa levavam uma rifinha.
O dinheiro foi entrando aos poucos. Cinco aqui, cinco ali. E o dinheiro eu entregava ao Wenzo para guardar. Eu não tinha conta no banco, mas o Enzo tinha e vivia a dizer que, no banco, o dinheiro pelo menos rendia alguma coisa.
Então ficou responsável por depositar e cuidar do nosso dinheiro. Eu confiava nele. Um dia, uma cliente pagou a rifa com uma nota de cinco reais que tinha um desenho de um bilau feito com caneta esferográfica azul e, ao lado, escrito: para dar sorte. Olhei para aquela nota e disse: vamos ver se dá sorte mesmo.
Rimos. Guardei-a junto com as outras e, no final do dia, entreguei tudo ao Enzo. Uns meses antes, um casal novo tinha chegado ao bairro: o Ubirajara, à volta dos cinquenta anos, camionista. E a mulher dele, a Jucislane, mais nova, devia ter uns trinta.
Era bonita, simpática e sorridente. Toda a gente lhe chamava Juju. Vieram de outra cidade. E vocês conhecem o jeito mineiro de ser, não é?
Recebemo-los de braços abertos. A vizinha levou bolo, outra levou queijo, a minha mãe mandou um pote de doce de leite. Numa semana, a Juju já conhecia o bairro inteiro. O Ubirajara vivia a viajar, era camionista, ficava dias fora, às vezes semanas.
E a Juju ficava em casa sozinha. Um dia, a minha amiga chegou ao mercado e largou no meu ouvido: — Kelinda, vi o Enzo a entrar em casa da Juju e do Ubirajara agora à tarde. Peguei logo no telemóvel e mandei mensagem: amor, o que foste fazer em casa da Juju e do Ubirajara? O Wenzo respondeu: estou a fazer uns serviços, uma parede que precisa de reparação.
Fazia sentido. Ele era servente de pedreiro, fazia biscates o tempo todo. Aceitei e segui a minha vida. Dias depois, na minha folga, andei de casa em casa a vender rifas.
Toquei à campainha em casa da Juju. Ela abriu a porta com aquele sorrisão. Mostrei-lhe a cartela, ela quis comprar. Foi buscar o dinheiro e voltou com uma nota de cinco reais.
Peguei na nota, olhei e senti um aperto no peito. Tinha aquele desenho, o bilau desenhado com a mensagem para dar sorte. Forcei um sorriso, agradeci, guardei a nota e fui embora. Mas a minha cabeça não parava.
Como é que aquela nota veio parar ali? Seria a mesma nota? Será que havia um desenhista de bilaus por aí a vandalizar todas as notas de cinco reais da cidade? Ou será que o Wenzo depositou no banco e, por coincidência, a Juju sacou justamente aquela nota?
Quais eram as chances? Cheguei a casa, tranquei-me no quarto e sentei na cama a segurar a nota, a olhar para o desenho que agora parecia rir-se da minha cara. Li de novo: para dar sorte. Seria um sinal divino enviado através de um desenho num papel de cinco reais?
A partir daquele dia, comecei a prestar atenção. Não disse nada, não acusei ninguém, mas os meus olhos abriram-se. Percebi que o Wenzo já não insistia para ficarmos sozinhos. Aquela ansiedade de noivo, aquela vontade que ele vivia a demonstrar antes, desapareceu.
Começou a arranjar desculpas para não vir namorar no sofá lá de casa: que estava cansado, que tinha acordado cedo, que no dia seguinte tinha trabalho pesado. Reparei também que estava sempre a fazer serviços em casa da Juju. Toda a semana havia qualquer coisa nova e, ao mesmo tempo, vivia a queixar-se de que o trabalho estava fraco, que estava a entrar pouco dinheiro. Mas se ele estava a fazer tanta obra em casa da Juju, porque é que não estava a ganhar dinheiro?
Um dia resolvi perguntar. Pedi-lhe para me mostrar o extrato bancário. Queria ver quanto tínhamos conseguido juntar. O Enzo coçou a cabeça e largou: — Então, amor, esqueci-me da senha do banco e a aplicação bloqueou o meu acesso.
Preciso de ir ao banco resolver, mas não tenho tido tempo. Engoli aquela justificativa. Quis acreditar. Precisei de acreditar.
Porque, se o que a minha mente gritava fosse verdade, significava que o homem que eu amava desde os doze anos me estava a fazer de parva. E eu não estava pronta para aceitar isso. Um dia, enquanto passava as compras de uma cliente no caixa, apareceu a dona Filomena. Dona Fifi para os mais íntimos.
Toda a cidade pequena tem uma dona Fifi. Aquela senhora que sabe de tudo, vê tudo, ouve tudo e conta tudo. Morava mesmo em frente a casa da Juju e do Ubirajara. A dona Fifi pôs as comprinhas no balcão e, enquanto eu passava os artigos, ela inclinou-se e falou baixinho: — Kelinda, posso contar-te uma coisa que tenho reparado?
— Pode, dona Fifi. — Aquela casa da Juju tem movimento demais para uma dona de casa casada. Parei o código de barras no ar. Como assim, dona Fifi?
— Menina, eu fico na minha janela e vejo tudo. Entram homens naquela casa o dia inteiro, de manhã, à tarde, às vezes dois, três homens diferentes no mesmo dia, e sempre quando o Ubirajara está a viajar. Engoli em seco. Continuei a passar as compras como se nada tivesse acontecido, mas a minha cabeça fervilhava.
— E a senhora conhece esses homens? — Alguns sim, outros não, mas o teu noivo já apareceu lá várias vezes. — Mas, dona Fifi, será que esses homens não estão a fazer obras? O meu noivo está a prestar serviços à Juju, umas reparações na casa.
A dona Fifi fez aquela cara de quem tem pena de explicar o óbvio. — Minha filha, nenhum desses homens entra naquela casa com saco de ferramentas. A dona Fifi pagou as compras, sorriu, agradeceu e saiu a andar como quem não tinha dito nada de mais. Ainda parou na porta para comentar que ia chover à tarde, e eu fiquei ali parada no caixa com o mundo a desmoronar enquanto ela se preocupava com a previsão do tempo.
Quando cheguei a casa naquela noite, fiquei deitada na cama, a olhar para o nada, a juntar as peças. A amiga que viu o Wenzo a entrar em casa da Juju. O serviço que nunca mais acabava. A nota de cinco reais com o bilau.
O extrato bancário que ele não mostrava. As desculpas para não vir namorar no sofá da minha casa. E a dona Fifi a dizer que entrava homem o dia inteiro naquela casa. Cada coisa sozinha podia ter explicação.
Mas tudo junto? Não. Qualquer coisa estava a acontecer. No meu dia de folga, fui a casa da dona Fifi.
Bati à porta. Ela abriu com o sorriso de quem já esperava a visita. Pedi-lhe que me contasse mais do que via naquela casa. Ela puxou-me para dentro, fez um café, sentou-se na cadeira da cozinha e começou: — Menina, eu moro nesta rua há trinta anos.
Conheço o barulho de cada carro, o passo de cada pessoa. Quando a Juju e o Ubirajara chegaram, pensei que eram um casal normal. Mas ao fim de umas semanas, comecei a perceber que, sempre que o Ubirajara saía em viagem, apareciam homens. Sempre homens, nunca mulheres.
Entram sem saco, sem mala, sem ferramentas. Não é visita de serviço, não é visita de amigo, e não ficam muito tempo. Meia hora, quarenta minutos, e vão embora. — E o meu noivo, o Wenzo?
— Esse aparece bastante, umas duas, três vezes por semana, quase sempre à tarde. Respirei fundo. Dona Fifi olhou para mim com aqueles olhos de quem já viu muita coisa na vida e disse: — Minha filha, eu não quero meter-me na tua vida, mas vejo-te todos os dias no mercado a vender rifas, toda feliz a planear o casamento. E dói-me ver o que vejo naquela casa, sabendo que estás iludida.
Agradeci o café e ia a sair quando ela me chamou de volta. — Kelinda, espera. O meu filho instalou umas câmaras de segurança aqui em casa. Há uma que apanha o lado da casa da Juju.
Eu nem sei mexer nessa coisa, mas parece que fica tudo gravado no telemóvel. O meu coração disparou. A dona Fifi entregou-me o telemóvel e disse: — Fica à vontade, filha. Eu não sei mexer nessa porcaria mesmo.
Abri a aplicação das câmaras e estava tudo lá. No dia anterior, o Wenzo a entrar em casa da Juju, e a sair uns quarenta minutos depois com o cabelo molhado. No mesmo dia, mais tarde, outro homem a entrar e a sair uns trinta minutos depois, também com o cabelo molhado. Dois dias antes, dois homens em horários diferentes.
Três dias antes, o Wenzo de novo, todo sorridente, e outros homens que fui reconhecendo. Maridos, pais de família, homens que eu via todos os dias no mercado com as esposas. A minha mão tremia a segurar o telemóvel. Queria gritar, queria ir lá abaixo e arrombar a porta daquela casa, mas não ia fazer nada disso.
Respirei, engoli o choro e pensei: se eu for lá agora, vai ser a minha palavra contra a dela. Ela vai dizer que os homens estão a prestar serviços, o Enzo vai confirmar e eu fico marcada como noiva ciumenta e barraqueira. Antes de ir embora, peguei no meu telemóvel e fui gravando o ecrã da aplicação da câmara. Cada parte que mostrava os homens a entrar e a sair de casa da Juju.
Voltei ao mercado no dia seguinte com outra cabeça. Já não era a Kelinda simpática do caixa, era a Kelinda investigadora. E o caixa do mercado seria a minha sala de interrogatórios. Comecei a puxar conversa com as esposas dos homens que reconheci nos vídeos.
Nada direto, nada acusatório, apenas a sondar. — Então, dona Suevelyn, o seu marido ainda trabalha em casa? — Ah, não, Kelinda. Agora está numa empresa.
É mais seguro. Para outra perguntei: — O Genivaldo continua como canalizador autónomo? — Não, agora está na obra do centro comercial. Trabalha o dia inteiro lá, nem tem tempo para almoçar.
Chega morto a casa. Fui juntando as peças. Aqueles homens não estavam a fazer serviços em casa da Juju. Estavam a ir lá para outra coisa.
Escolhi duas esposas com quem tinha mais intimidade. Chamo-lhes Fulana e Ciclana, porque não preciso de expor as coitadas mais do que já foram. Chamei cada uma em separado, num canto reservado, e disse: — Preciso de te mostrar uma coisa, mas preciso que fiques calma. Mostrei os vídeos.
O marido da Fulana a entrar em casa da Juju numa quarta-feira às dez da manhã. O marido da Ciclana a entrar numa sexta às três da tarde. A Fulana ficou branca, sentou-se na cadeira e ficou a olhar para o telemóvel sem dizer nada durante uns dois minutos, a processar o que tinha acabado de ver. A Ciclana começou a tremer, os olhos encheram-se de água, tapou a boca com a mão e disse baixinho: — Eu sabia.
Eu sabia que havia qualquer coisa errada. Nós três decidimos que íamos expor a Juju. Mas como? Discussão na rua?
Espalhar fofocas pelo bairro? A Fulana comentou que no sábado haveria a reunião da associação do bairro para organizar a festa junina. É verdade. Com tanta coisa na cabeça, nem me tinha lembrado.
Iria toda a gente, porque depois serviam lanches, refrigerantes e virava uma confraternização de bairro. Nós três olhámos umas para as outras. Não foi preciso dizer nada. Combinámos ficar quietas até lá e agir normalmente.
Os dias até sábado passaram devagar, quase a parar. Apesar de o Enzo morar na rua de cima, não nos víamos todos os dias, só aos fins de semana. E muitos deles ele cancelava, dizendo que estava cansado. Agora eu percebia o porquê do cansaço.
Mandei mensagem a combinar encontrá-lo na reunião da associação. A reunião era um evento para todos, ninguém faltava. O Enzo confirmou. E finalmente o sábado chegou.
O salão da igreja já estava cheio quando cheguei, como sempre, porque todas as reuniões e eventos do bairro eram ali. Não havia outro sítio. Cadeiras de plástico espalhadas, mesa com jarro de sumo e biscoitos de polvilho, ventilador de teto a fazer aquele barulho de hélice de avião. O pessoal foi chegando e acomodando-se.
Os meus pais sentaram-se lá na frente, perto da mesa da direção. Os pais do Enzo do outro lado. A dona Fifi no cantinho dela, quieta, com cara de quem veio assistir a uma novela ao vivo. A Fulana e a Ciclana chegaram com os maridos, a sorrir, como se fosse um sábado normal.
O Wenzo chegou e sentou-se ao meu lado, deu-me um beijo no rosto e disse: — Oi, amor. Sorri. — Oi. Por dentro, tinha as mãos geladas.
O combinado era esperar a reunião terminar e confrontar a Juju na hora dos comes e bebes, quando toda a gente estivesse relaxada. A reunião começou. O presidente da associação abriu com a festa junina. Datas, horários, quem cuidava do quê.
Barraca de comida, pescaria, correio elegante. O povo ia dando sugestões, levantando a mão, opinando. Tudo normal. Até que a Juju levantou a mão.
— E se fizéssemos uma barraca do beijo? Algumas pessoas riram, outras acharam boa ideia. O Ubirajara, sentado ao lado dela, largou com um sorriso: — Boa ideia, desde que não seja a minha mulher. Toda a gente riu de novo.
A Juju bateu-lhe de leve no braço, a fingir vergonha. que cena bonita. O casal unido, o camionista brincalhão e a esposa dona de casa simpática. Olhei para a Fulana.
A Fulana olhou para mim com aquela cara de vê a audácia desta. E nessa hora, todos os preceitos que os meus pais me ensinaram desde criança deram uma pausa. Respirei fundo e soltei lá do fundo do salão: — É melhor que não seja mesmo. Imagina o surto de DST que vai dar na cidade.
O silêncio foi tão grande que se ouvia o grilo a cantar. O ventilador de teto parecia o único que ainda respirava. O Enzo, sentado ao meu lado, virou a cabeça tão depressa que quase deslocou o pescoço. Nunca o tinha visto a olhar para mim daquele jeito, assustado, branco.
— Kelinda, o que estás a fazer? — sussurrou. Não olhei para ele. Os meus olhos estavam fixos na Juju.
A Juju levantou-se, caminhou na minha direção, parou à minha frente e apontou o dedo. — O que é que quiseste dizer com isso? Estás a insinuar que eu tenho doenças? Quem pensas tu que és para me acusares disso, garota?
Levantei-me devagar, olhei-a nos olhos e falei firme: — Eu sei que recebes vários homens lá em casa enquanto o Ubirajara está a viajar. O salão inteiro prendeu a respiração. O Wenzo ficou ainda mais branco. O meu pai inclinou-se para a minha mãe e sussurrou qualquer coisa.
Vi a minha mãe arregalar os olhos e olhar na minha direção. A Juju cruzou os braços e soltou uma risada forçada. — Mas donde tiraste isso? Tens provas?
Porque acusação sem provas é calúnia. Levantei o telemóvel no ar. — Tenho. Queres que mostre a toda a gente?
O rosto da Juju mudou. A arrogância deu lugar ao desespero. Avançou para cima de mim, a tentar apanhar o telemóvel da minha mão. Puxei o braço para trás.
A Fulana levantou-se e pôs-se à frente dela. O Ubirajara, do outro lado do salão, levantou a voz: — Juju, se não tens nada a esconder, porque é que estás a tentar apanhar o telemóvel da menina? Silêncio de novo. Caminhei até ao Ubirajara e mostrei-lhe os vídeos.
Ele pegou no telemóvel e foi vendo. A cada vídeo, o rosto dele mudava. Ia reconhecendo os homens. Começou a falar em voz alta, a apontar: — Genivaldo!
— olhou para o meio do salão. — O que é que foste fazer à minha casa? O Genivaldo baixou a cabeça. A esposa olhou para ele à procura de respostas.
— Marcos também. — O Ubirajara passou para o vídeo seguinte. — Marcos, eu emprestei-te dinheiro no mês passado, seu desgraçado. O Marcos não tirou os olhos do chão.
— Até tu, Melquiades. O Ubirajara devolveu o telemóvel e esfregou o rosto com as duas mãos. O salão virou um tribunal. Gritos, choro, insultos.
Mulheres a apontar para os maridos, maridos a tentar explicar-se. A Juju parada perto da parede, sem ter para onde correr. O Ubirajara virou-se para ela com os olhos vermelhos: — Juju, o que é que esses homens estavam a fazer na minha casa enquanto eu estava na estrada a trabalhar? A Juju ficou calada por uns segundos, toda a gente à espera.
Cruzou os braços e disse: — Ué, foram fazer uns serviços lá na casa, reparações, consertos, essas coisas. O Ubirajara olhou para ela. — Que serviços, Juju? A casa está igual a sempre.
E o Melquiades é jardineiro. A gente nem tem jardim. Foi lá fazer o quê? Aparar a tua relva?
A Juju soltou uma risada de deboche e fez a coisa mais inesperada. Abriu um sorriso e disse: — Eu estava a trabalhar, meu amor, a ganhar dinheiro. Achas que os quinhentos reais por mês que me davas eram suficientes? Eu queria comprar as minhas roupas, as minhas bolsas, as minhas coisas.
Com quinhentos reais não compro um sapato decente. Então fui ganhar dinheiro do meu jeito. O salão explodiu. As mulheres aos gritos, os maridos a querer desaparecer.
O Ubirajara a tremer de raiva. — Tu não mudaste nada — disse ele, com a voz quebrada. — Eu tirei-te daquela vida. — Tiraste-me daquela vida e puseste-me a viver como dona de casa no meio do nada.
Muito obrigada, meu herói. Sempre foste um idiota. Eu gostava da minha vida. Achaste que eu ia ficar a limpar a casa e a cozinhar enquanto tu guiavais o camião?
— O coitado do Ubirajara estava destruído, mas o pior ainda estava para vir. — Sabes que mais? — continuou a Juju. — O que é que pensas, seu velho babaca?
Eu já tenho outra pessoa. Vou embora com o Josevaldo. Todos olharam para o Josevaldo. Era motorista de autocarro, ali quietinho no canto, a achar que tinha escapado da lista.
A esposa dele, que até ali se ria e ciciava com a vizinha a aproveitar o barraco alheio, parou de rir na hora. O Josevaldo engasgou, ficou vermelho, olhou para a esposa, olhou para a Juju, olhou para a esposa de novo. — Eu nunca disse isso. É mentira dela.
A esposa do Josevaldo não quis saber de explicações. Levantou-se e encheu-o de bofetadas ali mesmo, à frente de toda a gente. O Josevaldo levantou-se, a proteger-se com os braços, a repetir — é mentira dela, é mentira dela — enquanto a esposa o empurrava para fora do salão. Ainda se ouviram os sopapos e os gritos dela lá fora.
A Juju ficou parada, a olhar para a porta. O Josevaldo era o plano B, e o plano B acabava de sair a correr, a levar bofetadas da esposa. O Ubirajara mandou: — Tu sais da minha casa hoje. A Juju recompôs-se depressa e cruzou os braços.
— Não saio. Tenho direito a metade daquela casa. O Ubirajara riu. Uma risada cansada de quem já não aguenta mais.
— Então fala com o dono, porque menti-te. Eu não comprei a casa. É alugada. A cara da Juju naquele momento foi a melhor coisa que vi na vida.
Toda a arrogância, todo o deboche, toda a pose desmoronou em dois segundos. — Seu pobre, seu desonesto — gritou ela. As mulheres do bairro começaram a insultá-la, a chamar-lhe nomes que imagino que adivinhem. Ela ainda tentou defender-se: — Não percebo porque é que estão a insultar-me a mim e não aos vossos maridos.
Eles é que são os errados. O Ubirajara, com a voz pesada, falou para o salão inteiro ouvir: — Peço desculpas a todos. Eu tirei esta mulher da zona. Mudei de cidade para ela ter uma vida nova.
Ela continuou a fazer cá o mesmo que fazia lá. Silêncio pesado. — Ela saiu da zona, mas a zona nunca saiu dela — completou. A Juju olhou à volta.
Não havia um rosto amigo naquele salão. Ninguém estava do lado dela. Pegou na mala, caminhou até à porta e, antes de sair, largou: — Esta cidade é um tédio. Vou-me embora desta merda.
E foi. O Wenzo, que até então estivera quietinho ao meu lado, puxou-me pelo braço e sussurrou: — Vamos embora daqui, Kelinda. Olhei para ele. Olhei bem.
Aquele era o menino cujo nome eu escrevia no caderno com coraçãozinhos à volta. O homem para quem eu tinha guardado o que tinha de mais precioso. E ele achava que ia sair dali ileso. — Eu sei que tu também ias lá, Enzo.
Estás nos vídeos. O rosto dele desmoronou. Abriu a boca, fechou, abriu de novo e, quando finalmente conseguiu falar, começou atropelado: — Kelinda, escuta. Eu amo-te.
És a mulher que quero como esposa. Mas entende, eu sou homem. Tenho necessidades. Não aguentava mais esperar.
— Não aguentavas mais esperar, Enzo? Faltavam apenas alguns meses. Eu estava a juntar dinheiro para o nosso casamento. — É, eu sei, mas estava a demorar demais.
Querias juntar muito dinheiro para uma festa ridícula que não era necessária. A gente podia casar no cartório e depois almoçar fora com a família. Coisa simples. — E o que é que fizeste com o meu dinheiro, Wenzo?
Cadê o dinheiro que te dei para depositares? Ele ficou quieto uns segundos, engoliu em seco. — Eu… eu tive de usar.
Havia umas contas atrasadas, mas ia devolver-te tudo. — Contas atrasadas? E como é que pagavas os servicinhos à Juju, a rebocar a parede da casa dela? O Wenzo não respondeu.
Não precisou. E, do nada, um sopapo na cabeça dele. O Wenzo levou a mão à nuca e virou-se. Era o pai dele, com a mãe ao lado a chorar.
— Seu vagabundo — o pai estava vermelho. — Foi assim que te criei, para roubares dinheiro à noiva e gastares com mulher da vida? A mãe puxou-o pela orelha como se ele tivesse dez anos. — Tenho vergonha de ti, Wenzo.
Vergonha. Os meus pais chegaram logo atrás. O meu pai sério, calado. A minha mãe com os olhos cheios de água.
O pai do Enzo olhou para o meu pai, tirou o boné e disse: — Desculpa, Jo Wellington, desculpa a minha família. Não criei o meu filho para isto. Vamos devolver cada centavo que ele pegou da tua filha. Cada centavo.
O meu pai apertou-lhe a mão: — Eu sei que não tens culpa, Crayon. O Wenzo olhava para baixo, vermelho de vergonha. Depois levantou os olhos e olhou para mim com aquela cara de cão abandonado, aquela cara que antes me derretia e me fazia perdoar tudo. Não dessa vez.
Tirei o anel de noivado do dedo e atirei-lho à cara. — Vai para o inferno, seu idiota. A minha mãe veio até mim. Não disse nada.
Apenas me abraçou. E ali, finalmente, chorei. A reunião acabou ali. Ninguém mais falou de festa junina, de barraca de comida, de correio elegante.
O presidente da associação tentou retomar a ordem de trabalhos, mas desistiu ao ver que metade das cadeiras já estava vazia e a outra metade de pé, aos gritos. O salão da igreja virou campo de batalha. Cada casal saiu de um jeito. Havia esposas a arrastar os maridos pelo braço para resolverem em casa.
Havia maridos a jurar que era mentira, que nunca tinham posto os pés naquela casa, que a câmara estava errada. Havia esposas a chorar, esposas a insultar, maridos a pedir desculpas de mãos postas e maridos calados, a caminhar atrás da esposa como o cão que sabe que fez asneira. Lá fora, o Josevaldo ainda apanhava descompostura da esposa, encostado ao poste. O Genivaldo saiu quase a correr com a mulher atrás, aos gritos: — Vais-me pagar, Genivaldo!
O Melquiades sentado no passeio, sozinho, com a cara nas mãos. A dona Fifi saiu por último, calminha, ajeitou a mala no ombro, olhou para mim e piscou-me o olho. Como quem diz: a noite foi muito divertida. No dia seguinte, a rua da Juju estava vazia.
Casa fechada, cortinas corridas, nenhum movimento. A dona Fifi, que obviamente já estava na janela às seis da manhã, contou-me depois que viu o Ubirajara a sair de madrugada, a pôr as malas no camião. Foi embora sem olhar para trás. A Juju saiu umas horas depois com duas malas, entrou num carro e foi.
Nenhum dos dois se despediu de ninguém. Nenhum deixou recado. Sumiram da cidade como tinham aparecido. Chegaram há um ano, viraram o bairro de pernas para o ar e foram embora, a deixar o estrago para nós limparmos.
O bairro ficou em polvorosa nas semanas seguintes. Os casais entraram em crise. Havia marido a dormir no sofá, marido a dormir em casa da mãe, marido a dormir no carro. As mulheres dividiam-se entre as que queriam perdoar e as que queriam matar.
O salão de beleza da cidade nunca atendeu tanta mulher a querer mudar o visual depois de descobrir uma traição. Cortavam o cabelo, pintavam de loiro, faziam as unhas. Vingança estética. O Josevaldo e a esposa continuaram casados.
Ele jurava a pés juntos que a Juju tinha inventado aquela história, que nunca prometera ir embora com ela. A esposa fingiu que acreditou, mas toda a gente sabia que nunca mais confiou por completo. Até hoje, quando o Josevaldo chega cinco minutos atrasado a casa, tem de apresentar um relatório completo do percurso. Alguns dias depois da reunião, o Wenzo apareceu no mercado, veio ao meu caixa com aquela cara de arrependido e começou: — Kelinda, preciso de falar contigo.
Eu sei que errei, fui fraco, mas amo-te. Podemos tentar de novo. Casa comigo no cartório, sem festa, sem nada. Só eu e tu.
Olhei para ele: — Wenzo, eu estou a trabalhar. Devias fazer o mesmo e pagar ao teu pai aquilo que ele me devolveu. Vai embora. — Mas, Kelinda, tu estavas de cabeça quente naquele dia.
Já passaram uns dias. Já arrefeceste. Vamos conversar com calma. — Eu não quero conversar contigo.
Vai embora. Ele não foi. Ficou parado à frente do caixa, a segurar a fila, a insistir. Os clientes atrás dele começavam a ficar impacientes.
Foi quando o Jefferson apareceu, saiu do escritório, caminhou até ao caixa e falou firme: — Estás a incomodar a minha funcionária e os meus clientes. Vai embora ou chamo a polícia. O Wenzo olhou para o Jefferson, olhou para mim e foi embora de cabeça baixa. Depois disso, tentou ainda procurar-me umas duas vezes.
Mandou mensagem, apareceu à porta de casa. O meu pai pô-lo a andar. Nunca mais apareceu. Continuou a morar no bairro, continuou servente de pedreiro, mas nenhuma moça da cidade que soubesse da história queria algo com ele.
O menino bonito da rua de cima virou o parvo que gastou o dinheiro da noiva a pagar a garota de programa. Claro que fiquei triste por um tempo. Não é fácil descobrir que o sonho da nossa vida era um pesadelo disfarçado. A vida foi seguindo.
O mercado, os clientes, o croché. A dona Fifi continuava a ir todos os dias comprar as suas coisinhas e a atualizar-me sobre as fofocas do bairro. Agora que a Juju tinha ido embora, estava sem o entretenimento principal e teve de voltar às caminhadas para descobrir novas fofocas. Três meses depois, chegou a festa junina.
Na semana seguinte àquela confusão, marcaram outra reunião para organizar a festa. Dessa vez com bem menos gente. Muita gente não teve coragem de aparecer. Faltou voluntário para quase tudo.
O Jefferson, que até então nunca se envolvera em eventos do bairro, ofereceu-se para ajudar. No dia da festa, eu estava na barraca de pastel e o Jefferson estava lá comigo, a fritar pastéis, a atender o povo, a dar os trocos. E ali, naquele cenário de festa junina, com cheiro de pastel e som de forró ao fundo, vi um Jefferson que não conhecia. Ria, contava piadas, brincava com as crianças que passavam.
Completamente diferente do chefe sério e reservado que eu via no mercado todos os dias. Num intervalo, virou-se para mim e perguntou: — Kelinda, queres dar uma volta na festa comigo? Olhei para ele e sorri. — Quero.
Saímos a andar pela festa. Jogámos argolas, comemos espetinhos, bebemos quentão. Ele ganhou um ursinho na barraca de tiro e deu-mo. Adorei.
Fazia tempo que não me divertia assim. Parámos na barraca da maçã do amor. O Jefferson comprou duas e entregou-me uma. Peguei na maçã e fiquei a olhar para ele.
Ele olhou para mim. E naquele momento, no meio da festa junina, com forró a tocar e cheiro de pipoca no ar, senti que qualquer coisa tinha mudado. Foi quando reparei no Wenzo parado ali perto, a olhar para nós. Ficou parado, sem saber o que fazer.
A dona Fifi, que passava naquele exato momento, olhou para o Enzo, olhou para nós e largou com aquela voz debochada: — Perdeste, playboy — e saiu a andar, a rir sozinha. O Wenzo foi embora de cabeça baixa, sem dizer nada. Semanas depois, o Jefferson declarou-se. Disse que gostava de mim há muito tempo, mas que nunca ia dizer nada enquanto eu estivesse com o Enzo.
Antes de qualquer coisa, foi a minha casa falar com o meu pai. Pediu permissão para me namorar. O meu pai olhou para ele, olhou para a minha mãe. O Jefferson tinha 35 anos e eu 23.
Doze anos de diferença. O meu pai pensou, pensou e disse: — Se a minha filha está feliz, eu estou feliz. A minha mãe serviu café com bolo de fubá. Estava aprovado.
E eu continuava caixa do mercado. Não era por namorar o chefe que tinha virado dona também. Sabe, passei a vida inteira a querer tanto o Enzo que, quando finalmente o consegui, não prestei atenção a nada. Não vi os sinais, não vi as mentiras, não vi o que estava à minha frente.
É que, quando desejamos uma coisa durante demasiado tempo, apaixonamo-nos pelo desejo e não pela pessoa. Hoje, com o Jefferson, entendi a diferença. O que sentia pelo Wenzo era um sonho de criança. O que sinto pelo Jefferson é amor de mulher.
E nunca tinha sentido isso antes. A minha avó, a mesma que me ensinou croché, costumava dizer: às vezes a vida tira-nos aquilo que pedimos para nos dar aquilo que merecemos. E foi a mais pura verdade. Ah, e a nota de cinco reais com o bilau desenhado ainda está comigo.
Guardo-a na gaveta da mesinha de cabeceira. Não como dinheiro, como amuleto, porque foi aquela nota que me abriu os olhos. A vida mandou-me um sinal e mandou-o da forma mais inusitada possível: através do desenho de um bilau numa nota de cinco reais.
Quem disse que alguém lá em cima não tem sentido de humor?