Eu estava no reencontro da faculdade quando ela entrou no restaurante como se estivesse desfilando numa passarela. Vestido amarelo neon com transparência, decote até ao umbigo, cabelo curto e encaracolado tingido de vermelho vivo, preenchimento labial que deixou a boca do tamanho de uma salsicha e maquilhagem pesada. Parecia aquele emoji de palhaço do WhatsApp. Só faltava o nariz vermelho.

Vinte pessoas entreolharam-se confusas em silêncio. Mas deixem-me recuar um pouco, porque isto precisa de contexto, e de muito contexto. Chamo-me Renata. Quando entrei na faculdade de administração, tinha dezanove anos, um caderno novo e zero noção do que estava para vir.
No primeiro semestre conheci o Marcelo, e não vou mentir, ele não era daqueles que fazem as pessoas tropeçarem na calçada. Não era feio, mas também não era um deus grego. O Marcelo chamava a atenção de outra forma. Era gentil, engraçado, daquele tipo que chegava à sala e toda a gente abria um sorriso.
Ajudava com os trabalhos, emprestava os cadernos, lembrava-se do aniversário de toda a gente. Era o tipo mais fixe da turma e nem se esforçava para isso. Foi na mesma turma que conheci a Janaína. Ela aproximou-se de mim nas primeiras semanas, sentou-se ao meu lado, puxou conversa, convidou-me para almoçar.
Tornámo-nos amigas depressa, andávamos juntas, estudávamos juntas, saíamos com o grupo da sala. No início achei a Jana divertida, faladora, sempre com opinião sobre tudo. Mas aos poucos fui reparando em coisas estranhas. Uma vez comprei uma mochila nova.
Dois dias depois, a Jana apareceu com a mesma mochila, mesma cor, mesmo modelo. Comentei: “Olha, comprámos iguais. ” Ela encolheu os ombros. Eu já tinha aquela mochila há meses, muito antes de entrar em promoção.
Noutra ocasião troquei o meu caderno para aquele modelo inteligente com capa fofa e colorida. Na semana seguinte, caderno idêntico na mesa dela. Depois cortei o cabelo num estilo repicado à altura do ombro. Na segunda-feira, a Jana apareceu na faculdade com o cabelo repicado à altura do ombro.
Era fácil pensar: “Ah, ela gostou do meu estilo. ” E claro, eu não tinha exclusividade sobre nada. Qualquer pessoa podia comprar a mesma mochila, gostar do mesmo caderno, cortar o cabelo igual. Essa pessoa podia simplesmente ter o mesmo gosto que eu.
No segundo semestre, eu e o Marcelo começámos a namorar. Aconteceu naturalmente. Numa saída com o grupo da faculdade, ficámos a conversar num canto do bar enquanto os outros dançavam. Uma coisa levou à outra e beijámo-nos.
Quando contei à Jana, a reação dela foi interessante. “O Marcelo? A sério, Renata? Porquê?
Ele é fixe e tal, mas é muito feio. Aquele narigão dele, meu Deus. ” Ri, achando que era brincadeira, mas ela não estava a rir. A partir daí, sempre que o nome do Marcelo aparecia, a Jana arranjava forma de o diminuir.
“Pelo menos é engraçado. ” “É feio, mas dá-te presentes fixes. ” “Até que combinam. ”
Nessa mesma época, o André, um colega da turma, interessou-se pela Jana.
Rapaz tranquilo, estudioso, jeitoso. Ganhou coragem e convidou-a para sair à frente de toda a gente no intervalo. A Jana olhou-o de cima a baixo e soltou: “Ah, André, olha para ti. Achas mesmo que tens hipótese comigo?
” O André ia responder, mas ela não deixou. “Gente, pelo amor de Deus. ” Olhou para o grupo como se estivesse a pedir apoio. “André, tu és fixe, mas sejamos realistas.
Nunca vais conseguir sair com uma mulher como eu. Olha para mim e olha para ti. ” E deu aquela risadinha, aquela risadinha que não tem graça nenhuma, mas que dói. A Jana era bonita e sabia disso.
Achava-se a gata da sala e, para ser justa, não era mentira. Ela chamava a atenção. Mas beleza sem caráter é montra de loja falida, bonita por fora, vazia por dentro. O André engoliu em seco, ficou vermelho até às orelhas, enfiou as mãos nos bolsos e ficou a olhar para o chão.
Ninguém sabia o que dizer. Alguém mudou de assunto para salvar a situação, mas o estrago já estava feito. Puxei a Jana de lado e disse-lhe: “Vai com calma, Jana. Não precisavas de humilhar o André.
” Ela encolheu os ombros. “Fui sincera. Prefiro isso a iludir o coitado. ”
A faculdade foi passando.
A Jana ficou com uns rapazes, namorou um ou outro, mas sempre que o Marcelo estava por perto, o comportamento dela mudava. Ria de forma exagerada, tocava-lhe no braço, queria estar sempre por perto. Se ele contava uma história, ela ria como se fosse a coisa mais engraçada do mundo. No último ano, consegui um estágio incrível numa empresa grande, com hipóteses de efetivação.
A Jana pediu-me para a indicar para lá também. Não vi problema. Falei com o RH, indiquei-a, e a Jana entrou. Foi aí que comecei a ver o outro lado dela.
Sempre que eu estava a conversar com um superior, a Jana aparecia, falava por cima de mim, apresentava ideias que eu lhe tinha contado ao almoço como se fossem dela. Puxei-a para conversar. “Jana, aquela ideia do relatório era minha. Eu contei-ta ao almoço.
” Ela respondeu com voz de choro: “Ai, Renata, não foi por mal. Eu também já tinha tido essa ideia antes, mas não comentei contigo. Desculpa, amiga. ” E eu, que sou parva, deixei passar.
Mas deixei de lhe contar as minhas ideias. Coincidentemente, a Jana nunca mais apresentou nenhuma ideia aos superiores. Engraçado, não é? Na formatura, o Marcelo pediu-me em casamento.
Tínhamos vinte e três anos. Ele tirou uma caixinha do bolso, ajoelhou-se e pediu à frente de toda a gente. Aceitei a chorar. A Jana estava lá com um vestido quase idêntico ao meu, mesma cor, mesmo estilo.
Veio dar-me os parabéns e disse-me ao ouvido: “Nossa, amiga, isto foi um bocado brega, mas estou tão feliz por vocês. ”
Depois da formatura, fui efetivada na empresa. A Jana não. “Ah, que bom, amiga.
Ainda bem que não fui. Aquela empresa era muito chata e burocrática. ” Nos meses seguintes, eu e o Marcelo entrámos num ritmo de trabalho pesado. Eu empenhava-me na empresa, ficava até mais tarde quando era preciso.
O Marcelo também tinha conseguido um ótimo emprego. Tínhamos um plano: juntar dinheiro para dar entrada num apartamento e para o casamento. Cada cêntimo contava. Entretanto, a Janaína saltava de emprego em emprego.
Nenhum era bom o suficiente. O chefe era idiota, o salário era baixo, as colegas eram invejosas. Sempre a mesma história, sempre a culpa dos outros, sempre alguém a tentar puxar-lhe o tapete. Até que, oito meses depois de formadas, a Janaína ligou-me.
Estava desempregada. “Renata, consegues indicar-me para entrar na empresa outra vez? ” Fui falar diretamente com a Patrícia do RH. A Patrícia era minha amiga, almoçávamos juntas quase todos os dias.
Eu confiava nela. Ela ouviu o meu pedido e puxou-me de lado. “Renata, a Janaína não foi efetivada porque não entregava resultados, não seguia regras e deixava o ambiente hostil. Tivemos muitas queixas dela.
Infelizmente não se adequa ao perfil da empresa. ”
Para não magoar a Jana, disse-lhe que não estavam a contratar e que, se abrisse alguma oportunidade, eu avisava. Ela ficou em silêncio e mudou de assunto. A partir daquele dia, a energia mudou.
Ficou mais distante, mais ácida. “Que bom que te estás a dar bem na vida, Renata. Sempre tiveste sorte. ” Sorte?
Como se eu não tivesse trabalhado para chegar onde cheguei. Como se um emprego fosse um raspadinha: se aparecessem três imagens iguais, estava contratada. A Janaína acabou por conseguir emprego noutro sítio. E foi a partir desse momento que comecei a reparar que me copiava descaradamente.
Copiava as minhas fotos das redes sociais, publicava fotos com as mesmas roupas, mesmos acessórios, mesmas cores, mesmas poses. Eu publicava algo e no dia seguinte aparecia uma versão idêntica no perfil dela. Era como seguir o meu próprio Instagram em dose dupla. Até que, numa noite, num bar com o pessoal da faculdade, a Janaína se sentou perto do Marcelo, como sempre, e ficou a inclinar-se para lhe falar ao ouvido.
Quando ela se levantou, o Marcelo virou-se para mim. “Rê, acho que a Jana está a usar o mesmo perfume que tu. ” “O quê? A sério?
” “O perfume dela é igualzinho ao teu. Conheço este cheiro de olhos fechados. ” Enquanto a Janaína estava na casa de banho, o Marcelo inclinou-se e sussurrou: “Trocas de lugar comigo? Não aguento mais os assuntos dela, são tão chatos.
” Troquei. Quando a Janaína voltou e viu que eu estava sentada no lugar dele, viu-se na cara dela que ficou chateada. Sentou-se ao meu lado sem disfarçar o beicinho. E ali, com ela sentada perto de mim, senti o cheiro do perfume.
Era o meu, exatamente o mesmo. Olhei para o batom dela, mesma cor. Lembrei-me de uma conversa que tive com ela semanas antes, a Janaína a perguntar que perfume eu usava, que batom era aquele, de que marca era. Respondi a tudo sem pensar e ela comprou igual.
Fiquei a observá-la ali ao lado. O corte de cabelo igual ao meu, o perfume, o batom, as mesmas roupas. Mas não era só isso. Ela estava a copiar até o meu jeito de ser.
O modo como ria com a mão na boca, o modo como penteava o cabelo para o lado com os dedos, pequenas manias minhas que de repente eram manias dela também. Deu-me um arrepio. Não era mais uma amiga que admirava o meu estilo, era uma pessoa a tentar tornar-se uma cópia minha. O André também estava no bar.
Cumprimentou a Jana, que mal respondeu. Depois veio falar comigo e com o Marcelo. Tinha passado num bom concurso público. Auditor fiscal.
Disse que estava à espera da convocação. A Jana, que estava ao lado a ouvir, soltou: “Se é que vais ser chamado, não é? Essa coisa de concurso demora anos. Muitas vezes até cancelam sem chamar ninguém.
” O André deu um sorriso educado e não respondeu. A Jana não percebia nada de concursos. Só gostava de desdenhar o que os outros conquistavam com mérito. No dia seguinte ao bar, o meu telemóvel tocou.
Era a Fernanda, colega do grupo da faculdade. “Renata, não queria meter-me nisto, mas não consigo ficar calada. ” Quando alguém começa uma frase assim, preparem o coração. A Fernanda contou-me que, no bar, enquanto eu estava distraída a conversar com o Marcelo e o André, a Jana ficou a falar de mim para ela.
E não foi pouco. Disse que eu tinha roubado o emprego dela, que na época do estágio a tinha sabotado de propósito para ser efetivada no lugar dela, que, quando viu uma vaga aberta na empresa, me pediu para a indicar no RH, mas que eu não mexi uma palha, que tive o descaramento de dizer que não estavam a contratar, sendo que ela viu a vaga no site da empresa com os próprios olhos. Disse que eu roubei o Marcelo dela, porque anos antes ela estava interessada nele primeiro e eu sabia. E que, quando se conseguem as coisas de forma errada, as coisas nunca dão certo.
Que mais cedo ou mais tarde eu ia perder tudo o que lhe tinha tirado. Desligámos. Fiquei sentada na cama a pensar. Eu nunca soube que a Janaína estava interessada no Marcelo.
Pelo contrário, ela vivia a dizer que ele era feio demais para mim. Será que quem desdenha quer comprar? Mas se ela tinha tanto rancor de mim, porque fingia ser minha amiga? Porque ficava perto de mim todo aquele tempo?
Aí os sinais começaram a fazer sentido. A mochila igual, o caderno igual, o cabelo igual, o vestido da formatura, o perfume, o batom, as ideias roubadas no estágio, o jeito de rir, de pentear o cabelo. Tudo ali desde o primeiro semestre. Eu é que não quis ver.
O que ela sentia por mim não era amizade, nunca foi. Não era inveja branca, não era admiração. Era a forma mais pura de inveja, daquelas que corroem por dentro e transformam a pessoa num espelho partido. Tenta refletir, mas distorce tudo.
Naquela madrugada, tomei a minha decisão. Ia cortar a Jana da minha vida. Sem discussão, sem explicação. Ia afastar-me aos poucos.
Mas, pelo visto, a Jana não me ia deixar ir embora em paz, porque no dia seguinte, à tarde, a Patrícia do RH chamou-me para tomar um café na empresa e, pela cara dela, não era para falar de fofocas. Sentámo-nos numa mesa no canto da cafetaria. A Patrícia olhou para os lados, confirmou que ninguém estava perto e disse baixinho: “Renata, o que te vou contar agora é off the record, está bem? Estou a falar contigo como amiga, não como a mulher do RH.
Se alguém perguntar, esta conversa nunca aconteceu. ” Gelei. “O que foi? ” “Chegou um e-mail ao RH sobre ti, longo e pesado.
” Ela não me mostrou o e-mail, disse que não podia, mas contou-me o conteúdo, e cada frase era pior que a anterior. O e-mail dizia que eu estava a vazar informações confidenciais da empresa para uma concorrente, que roubava ideias dos colegas e as apresentava como minhas aos superiores e que eu estava a ter um caso com o meu gestor para ser efetivada, mesmo sendo noiva. Aquela última parte gelou-me. Na empresa quase ninguém sabia que eu era noiva.
O pedido tinha sido na formatura e eu fui efetivada logo a seguir. Toda a gente sabia que eu namorava, mas noiva? Ninguém do trabalho sabia. Eu não tinha contado a ninguém.
Nem precisei que a Patrícia me dissesse quem tinha mandado. Eu já sabia. “Por acaso foi a Janaína que mandou isto? ” A Patrícia confirmou com a cabeça.
“Essa moça não era tua amiga, Renata. Há um tempo tentaste indicá-la para uma vaga e agora, do nada, esta amiga da onça manda uma coisa destas contra ti. ” A Patrícia disse que não ia dar seguimento, que me conhecia e sabia que era mentira, mas avisou-me. “Ainda bem que este e-mail caiu nas minhas mãos.
Se fosse outro analista, encaminhava para o teu gestor e, mesmo sem dar em nada, a fofoca corria. Nesta empresa, boato vira verdade em dois dias. ”
Agradeci à Patrícia e saí da cafetaria com as pernas a tremer. Foi ali que alguma coisa mudou dentro de mim.
Não era mais desilusão, era raiva. Uma raiva fria, calculada, que não grita, que planeia. A Jana queria lixar-me no trabalho e roubar-me o noivo. Então está bem, eu ia ajudar.
Naquela noite contei tudo ao Marcelo. Ele ficou pensativo e disse: “Renata, a Jana parece que quer ser tu. Percebi isso desde a faculdade. Copia-te em tudo e agora quer o teu emprego e o teu noivo gostoso, inteligente e cheiroso.
” Só ele para me fazer rir numa altura destas. “Pois é. E acho que ela vai tentar conquistar-te. ” O Marcelo riu.
“Não, obrigado. ” “Estou a falar a sério, e eu quero dar-lhe uma lição. ” Contei-lhe o plano. O Marcelo ouviu, achou uma loucura e disse: “Ela nunca vai fazer isso.
Ninguém seria tão idiota a esse ponto. ” “Vamos apostar? ” “Vamos. ” “O que queres apostar?
” “Se ela fizer, levas-me a um jantar romântico. Restaurante bonito, vinho, sobremesa, tudo. ” O Marcelo riu. “Fechado.
E se ela não fizer, cozinhas para mim uma semana inteira. ” “Fechado. ”
A partir daí, não me afastei da Jana. Fiz o contrário.
Fiquei mais próxima. Aceitava convites, respondia às mensagens depressa, fingia que nada tinha mudado. E a Jana continuou a fazer perguntas subtis sobre o Marcelo, sobre o meu noivado. Eu respondia, mas apenas com mentiras.
Num almoço, puxei o assunto de propósito. “Ai, Jana, o Marcelo anda a irritar-me estes dias. ” Ela arregalou os olhos. Adorava quando eu me queixava dele.
“Porquê? O que aconteceu? ” “Ele anda com umas ideias. Disse que queria que eu cortasse o cabelo bem curto, fizesse permanente e pintasse de vermelho.
Imagina eu de cabelo curto, encaracolado e vermelho. Nem combina comigo. ” A Janaína ficou em silêncio, a prestar muita atenção. “E não fica por aí.
Ele queria que eu fizesse preenchimento labial, lábios bem carnudos, que usasse roupas mais coloridas. Disse que acha as cores neon alegres e que eu uso cores muito apagadas. Queria que eu usasse roupas mais sensuais, com transparência, e mais maquilhagem, mais batom vermelho, mais blush. ” Olhei para a Janaína.
Ela estava com o telemóvel na mão debaixo da mesa, a escrever. Estava a anotar. Por dentro, pensava: “Olha os disparates que estou a inventar. Que homem pede à mulher para cortar o cabelo, pintar de vermelho e usar roupa neon?
” E o pior, parecia que a Janaína estava a engolir cada palavra. Fui a casa do Marcelo e contei. “Ela anotou todas as dicas no telemóvel. ” O Marcelo arregalou os olhos.
“A sério que ela anotou? Estás a brincar? ” “Debaixo da mesa, estava a escrever, a pensar que eu não estava a ver. ” Ele riu e abraçou-me.
“Tu sabes que eu gosto é de ti do jeitinho que tu és, não sabes? ”
Nos dias seguintes, reparei que a Janaína deixou de publicar fotos dela. O Instagram, que antes era cheio de selfies a copiar-me, virou uma coleção de frases motivacionais. “Quem espera sempre alcança.
” “Chegou a minha vez de brilhar. ” “A melhor versão de mim está a chegar. ” “Grandes mudanças vêm para quem tem coragem. ” Mostrei ao Marcelo.
Ele riu. “Ela está a preparar-se. ”
Nessa mesma época, o pessoal da faculdade começou a organizar um reencontro. Um ano de formados.
Mandaram convite no grupo. A Janaína respondeu: “Vou sim. Não vejo a hora de reencontrar vocês. Preparem-se para conhecer a nova Jana.
” Li a mensagem e olhei para o Marcelo. “Ela está toda entusiasmada para ir ao reencontro. ” O Marcelo olhou para mim. “Achas que ela?
” “Tenho a certeza. ” O Marcelo abanou a cabeça a rir. “Quero ver isto com os meus próprios olhos. ” E ia ver.
Toda a gente ia ver. O reencontro foi num sábado à noite. Bar-restaurante bonito, mesa grande e reservada. Cerca de vinte pessoas da turma.
Eu e o Marcelo chegámos juntos, cumprimentámos toda a gente. O André estava lá, arranjado, bem de vida, agora já funcionário público. Pedimos bebidas, a conversa fluía e eu ficava a olhar para a porta de canto do olho. A Jana chegou por último e fez questão de fazer uma entrada chamativa.
Vestido amarelo neon com transparência, decote até ao umbigo, cabelo curto, encaracolado de permanente, vermelho vivo. Preenchimento labial que deixou a boca do tamanho de uma salsicha. Maquilhagem pesada. Batom vermelho.
Parecia aquele emoji de palhaço do WhatsApp. Só faltava o nariz vermelho. “E aí, malta? Cheguei.
” Silêncio de dois segundos. Depois cochichos, olhares de lado, sobrancelhas levantadas. A Fernanda cutucou-me por baixo da mesa. “O que é que lhe aconteceu?
” Tomei um gole da minha caipirinha e disse baixinho: “Ela acreditou em umas mentirinhas que eu contei. ”
As pessoas foram fingindo elogios. “Nossa, Jana, mudaste. ” “Estás diferente.
” Ninguém sabia o que dizer. O André olhou para ela, a tentar perceber o que tinha acontecido, cumprimentou com um aceno educado e desviou o olhar. A Janaína fez a volta a cumprimentar toda a gente, a achar-se a última bolacha do pacote. Amassava o cabelo fofo vermelho, desfilava entre as mesas, sorria como se estivesse numa capa de revista.
Sentou-se mesmo entre mim e o Marcelo, olhou para os dois e disse: “E aí, gostaram do meu visual novo? ” O Marcelo olhou para ela e disse: “Jana, o que aconteceu à tua boca? Levaste uma picada de abelha? ” Risada na mesa.
A Janaína ficou vermelha, mas disfarçou com uma risadinha forçada. “Engraçadinho. Fiz preenchimento labial. Adoro os meus lábios carnudos.
” Virou-se para a mesa toda. “Estou diferente, não estou? Resolvi reinventar-me. ”
A noite foi seguindo e a Janaína fazia o que sempre fez de melhor: falar de si mesma.
“Mudei muito. Vocês não fazem ideia do quanto investi em mim. Estou numa fase incrível. ” Ninguém perguntou, mas ela contava na mesma.
E, claro, não largava o Marcelo. Tocava-lhe no braço, ria alto de qualquer coisa que ele dizia, inclinava-se para falar perto. O Marcelo ficava a olhar para aqueles lábios inchados com cara de quem tinha medo que rebentassem a qualquer momento. Mal piscava.
Eu fiquei a observar o cabelo curto, encaracolado, vermelho, o preenchimento labial, a roupa neon com transparência, a maquilhagem pesada. Ela queria mesmo conquistar o meu noivo. Tinha feito absolutamente tudo o que eu inventei. Esperei por um momento em que a conversa da mesa fez uma pausa.
Olhei para a Janaína e disse com a voz mais calma do mundo: “Jana, posso fazer-te uma pergunta? ” “Claro, amiga. ” “Que coincidência teres mudado justamente tudo aquilo que eu comentei que o Marcelo queria que eu mudasse em mim. ” O sorriso dela morreu.
“O que é que estás a insinuar? ” “Não estou a insinuar nada. Só estou a confirmar que queres muito o meu noivo. ” A Janaína deu uma risada forçada e olhou para os lados.
“Renata, estás a viajar. O Marcelo é teu noivo. Porque é que eu ia querer conquistá-lo? Mudei porque quis.
Já estava a planear estas mudanças muito antes de me contares qualquer coisa. ” “Ah, que ótimo. Então porque eu menti sobre tudo. ”
A cara da Janaína naquele momento foi digna de meme.
Os olhos arregalaram. A boca abriu devagar e dava para ver o cérebro dela a tentar processar o que acabara de ouvir. “Como assim? Mentiste?
” “Menti para provar um ponto. Eu disse ao Marcelo que, se te contasse um monte de mentiras sobre o que ele gostava, tu ias fazer tudo. Ele não acreditou. Então fizemos uma aposta.
” A Janaína arregalou os olhos. “Fizeram uma aposta sobre mim? Que raio de amiga és tu? ” “Que raio de amiga sou eu?
Que raio de amiga és tu, Janaína? Tu contaste ao RH da minha empresa que eu estava a vazar informações, a roubar ideias e a ter um caso com o meu chefe para ser efetivada. ” A Janaína empalideceu. “Não fui eu que mandei esse e-mail.
” “Eu não disse que foi um e-mail. Acabaste de te entregar. ” Silêncio na mesa. A Janaína gaguejou: “Eu falei em e-mail, mas não sabia que era por e-mail.
Quis dizer que alguém deve ter contado ao RH. Sei lá como. ” Quanto mais falava, mais se enredava. As pessoas ao redor já trocavam olhares.
“E sobre andares a dizer por aí que eu roubei tudo o que era para ser teu, que mais cedo ou mais tarde ias apanhar tudo de volta, tipo o Marcelo. ” A Janaína ficou branca. Tentou virar o jogo. “Eu e o Marcelo tínhamos uma coisa muito antes de vocês ficarem juntos.
” “É mesmo? Porque o Marcelo disse que nunca existiu nada entre vocês. ” O Marcelo levantou a mão. “Confirmo.
Nunca existiu. ” A Janaína olhou para ele com cara de surpresa. “Marcelo, como assim nunca existiu? Tu emprestavas-me as tuas anotações, eras simpático comigo, fazias piadas, sorrias para mim.
Havia ali qualquer coisa e tu sabes disso. ” “Eu quase ri, Jana. O Marcelo emprestava anotações a toda a gente. Era simpático com toda a gente, fazia piadas com toda a gente.
Isso chama-se ser boa pessoa. Ou achas que ele estava a dar em cima da turma inteira? ” O Ricardo, do outro lado da mesa, gritou: “Se é assim, o Marcelo também era afim de mim. Emprestou-me o caderno de contabilidade o semestre inteiro.
” Risada geral. A Jana ficou vermelha de raiva. “Vocês podem rir, mas a Renata sempre me sabotou. Desde a faculdade.
Sabotou o meu estágio, fez a minha cama para eu não conseguir a vaga na empresa. Sempre morreu de inveja de mim. ” A Fernanda largou o copo na mesa. “Inveja de ti, Jana?
A Renata indicou-te para o estágio dela, falou com o RH por ti. E achas que ela te sabotou? Eu é que queria ter uma inimiga que me sabotasse assim. ” O Ricardo completou: “Jana, na faculdade não fazias quase nada dos trabalhos de grupo.
Nós carregávamos-te às costas e tu achavas que merecias a nota máxima. ” Outra colega, a Camila, soltou: “E ainda reclamavas que a nota era injusta. Sempre achaste que merecias mais do que te esforçavas para ter. ” Outro colega acrescentou: “E vivias a pedir aos outros para fazerem as coisas por ti.
Quando corria mal, culpavas quem tentou ajudar. Ninguém queria fazer trabalhos de grupo contigo, Jana. ”
A Janaína olhou em volta. Cada rosto era uma acusação.
Não tinha ninguém do lado dela. Ninguém. Aí tentou inverter o jogo. “Vocês não estão a ver o que aconteceu aqui?
A Renata armou-me uma ratoeira para eu mudar a minha aparência só para ganhar uma aposta com o Marcelo. Ela manipulou uma amiga por causa de uma aposta. ” A Fernanda, sem tirar o copo da boca: “Tu mudaste de visual para roubar o noivo dela, Jana. Acho que a péssima amiga aqui és tu.
” Murmúrios começaram na mesa. “É verdade. ” “Pesado. ” “Sempre desconfiei.
” “Que amigona, hein? ” Cabeças a concordar de um lado para o outro. A Janaína olhou em volta, incrédula. Todos contra ela.
Precisava de um aliado. Olhou para o André, o único que ainda não tinha dito nada. Foi até ele com os olhos marejados e voz trémula: “André, vais deixar que me tratem assim? ” O André ficou em silêncio, a olhar para ela.
“Vamos sair daqui, André. Vamos para outro lugar. Não mereço esta humilhação. ” O André levantou as sobrancelhas.
“Vamos sair daqui? Janaína, tu humilhaste-me à frente da sala inteira quando te convidei para sair. Disseste que eu nunca ia conseguir sair com uma mulher como tu. Nunca me cumprimentaste como deve ser, nunca conversaste a sério comigo.
E agora queres que te defenda e vá embora contigo? ” A Janaína suavizou a voz. “André, isso foi no passado. Eu era imatura.
Agora vejo o homem íntegro que és. Dá-me uma oportunidade. ” O André pousou a cerveja na mesa devagar. “Sabes, Janaína, tu tinhas razão naquele dia na faculdade.
Eu realmente nunca sairia com uma mulher como tu. Falsa, invejosa, que tenta destruir a vida dos outros e ainda se faz de vítima. Eu mereço coisa muito melhor. ” Olhou para o lado e sorriu.
“Inclusive, estou a sair com a Fernanda. ” A Fernanda levantou a mão com um sorrisinho tímido e fez um aceno. A mesa inteira fez aquele “ui” coletivo. Alguém soltou um “uau” baixinho.
A Janaína pegou na mala e levantou-se da cadeira. Apontou o dedo para a mesa toda. “Vocês são um bando de idiotas invejosos. Podem ficar aí a rir, porque eu não preciso de nenhum de vocês.
” Foi a andar em direção à porta, mas não parava de olhar para trás, a xingar. “Renata, és uma amiga da onça. Marcelo, és um cobarde. E vocês todos são farinha do mesmo saco.
” Tão ocupada a xingar que não viu o empregado a vir na direção contrária com uma bandeja cheia de cervejas. Chocou-se de frente. A bandeja voou. As canecas de cerveja entornaram-se sobre ela.
Vestido encharcado, cabelo a pingar, salto a escorregar no chão molhado. Alguém da mesa: “Nossa, que desperdício de cerveja. ” A Janaína saiu do restaurante toda melada, deixando um rasto de cerveja e vergonha pelo chão. A porta fechou e a mesa explodiu.
Não de maldade, de alívio. Como se toda a gente tivesse segurado aquilo durante anos. O Ricardo contou: “Gente, uma vez ela pediu-me para fazer a parte dela no trabalho de estatística e, quando o professor deu nota baixa, disse que foi culpa minha porque eu não soube explicar a parte dela. ” A Camila disse: “Uma vez pegou no meu resumo de direito empresarial, copiou-o inteiro e entregou-o antes de mim.
O professor achou que eu é que tinha copiado dela. ” Um atrás do outro, toda a gente tinha uma história com a Janaína. Era como se tivessem aberto uma represa. Cada um com o seu caso, cada um com a sua experiência de ter sido usado, copiado ou culpado por algo que ela fez.
O André abanou a cabeça: “E eu que achava que era o único que ela tinha tratado mal. ” O Marcelo levantou o copo. “Pelo visto, ela era democrática. Lixava toda a gente por igual.
” Risada geral. A noite seguiu leve, como se a Janaína tivesse levado o peso embora com ela. Na manhã seguinte, a Janaína mandou uma única mensagem no grupo da faculdade: “Perdedores. ” E saiu.
Ninguém respondeu. Ninguém sentiu falta. Pelo Instagram, dava para acompanhar as mudanças. Ela reverteu o cabelo, tirou o vermelho, deixou crescer, desfez o preenchimento labial.
Voltou a publicar, mas agora era tudo sobre traição de amigos, gente falsa, inveja e injustiça. Stories com frases de autoajuda, publicações sobre recomeços. Sem comentários, sem gostos, a não ser da mãe dela. Seis meses passaram.
Eu e o Marcelo casámo-nos. Cerimónia simples, bonita, só as pessoas que amávamos de verdade. A Fernanda e o André foram padrinhos, amigos próximos da faculdade. A Patrícia do RH também estava lá.
Pessoa de verdade, que torcia por nós de verdade. Na festa, o André puxou o assunto comigo e com o Marcelo. Estava com a Fernanda, os dois juntos, felizes, mas a cara dele estava séria. “Renata, acreditas que tive de bloquear a Janaína?
” “Bloquear porquê? ” “Ela começou a perseguir-me. Aparecia nos mesmos sítios que eu, no restaurante onde almoçava no trabalho, no bar que frequentava. Mandava mensagens a perguntar se eu queria sair.
Eu ignorava. Ela insistia. ” A Fernanda completou: “E não é só isso. Ela começou a copiar-me.
Está com o mesmo corte de cabelo, mesma cor, mesmo estilo de roupa, igualzinha a mim. ” Olhei para o Marcelo. O Marcelo olhou para mim. Não precisámos de dizer nada.
O André continuou: “E sabes o que ela disse um dia? Que a Fernanda sabia que nós tínhamos uma coisa e que me roubou dela. ” A história repetia-se, só trocava os nomes. Abanei a cabeça.
Não dava para sentir raiva. Dava pena. A Fernanda olhou para o André. “Sabes o que vou fazer?
Vou raspar a cabeça. Quero ver se ela raspa também. ” Toda a gente riu. Eu disse: “Nem precisas de raspar a sério.
Faz uma foto com inteligência artificial, sem cabelo, e publica no Instagram. Aposto que em menos de uma semana ela raspa. ” Rimos, brindámos e a vida seguiu. Uma semana depois, a Fernanda mandou-me: “Eu não acredito.
” E um print do Instagram de uma selfie da Janaína de cabeça rapada com a legenda: “Sem medo de ser eu mesma. ” Olhei para o print, olhei para o Marcelo e rimos até chorar. A Janaína nunca aprendeu. Nunca ia aprender, porque o problema dela era que passava a vida inteira a cobiçar a vida dos outros.
A relva do vizinho parece sempre mais verde, mas só para quem não rega a sua.