Estava encostada à parede da casa de banho da escola, a meio do expediente, a chorar a rir. Não era histeria, era pura satisfação. No ecrã do telemóvel via tudo: ela a sair da minha casa de banho…

Estava encostada à parede da casa de banho da escola, a meio do expediente, a chorar a rir. Não era histeria, era pura satisfação. No ecrã do telemóvel via tudo: ela a sair da minha casa de banho...

Eu estava trancada na casa de banho da escola, a meio do expediente, a olhar para o ecrã do telemóvel. Não era uma rede social, não era um site de fofocas. Era a câmara de segurança da minha própria casa. E no ecrã vi uma mulher a sair da minha casa de banho aos gritos, a gritar de uma maneira que nunca tinha visto ninguém a gritar.

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O meu marido apareceu no ecrã sem perceber nada, e eu ali, na casa de banho da escola, com o telemóvel na mão, a chorar. Mas não de tristeza. A chorar a rir. Mas deixem-me recuar um pouco e contar como tudo começou, porque ninguém planeia este tipo de confusão por acaso.

Chamo-me Laura, tenho trinta anos e sou professora de educação infantil numa escola no interior de São Paulo. Passo o dia inteiro no meio de crianças de cinco anos. Limpo narizes, ato ténis, separo brigas por causa de lápis de cera, explico pela milésima vez que plasticina não é comida. É um trabalho que exige muita paciência, e eu tenho de sobra.

Aliás, deve ser por isso que aguentei ser casada com uma criança de vinte e nove anos durante tanto tempo. A criança em questão chama-se Mário. Conheci-o por amigos em comum. Ele apareceu numa festa, ficámos a conversar a noite inteira e eu gostei do seu jeito.

Simples, engraçado, um bocado distraído. Daqueles tipos que não sabem mentir porque a cara entrega tudo. Ou, pelo menos, era o que eu pensava. O Mário é promotor de vendas de uma distribuidora de alimentos.

O trabalho dele é sair de manhã cedo com a carrinha da empresa e passar o dia a visitar supermercados, padarias e lojas da região. Repõe produtos nas prateleiras, tira pedidos, confere o stock, passa o dia inteiro na rua e chega a casa no fim da tarde cansado, suado e com fome. Dois anos depois, decidimos viver juntos. Sem casamento, sem festa, sem aliança.

Juntámos as escovas de dentes e foi isso. Encontrámos uma casinha de aluguer simples e bonita. Mas na hora de assinar o contrato, o dono do imóvel pediu comprovativo de rendimento. Eu tinha acabado de entrar numa escola particular, estava há menos de duas semanas, ainda em período experimental.

O corretor disse que não servia. Então o aluguer ficou só no nome do Mário, que já tinha mais de três anos de contrato na distribuidora. Ele assinou, e dividíamos o aluguer e as despesas a meias. O Mário trabalhava na distribuidora há algum tempo quando mudaram a rota dele.

Ganhou uma colega nova para trabalhar com ele nas visitas externas. O nome dela era Michele. “A Michele é super simpática”, disse ele num dia qualquer, estendido no sofá depois do trabalho. “Damo-nos bem, o serviço rende mais em dupla.

” Eu nem pensei nisso. Colega de trabalho, normal. Num fim de semana fizemos um churrasco em casa e o Mário convidou alguns colegas da distribuidora. Vieram quatro colegas homens e veio a Michele com o marido.

O marido chamava-se Jonas, um tipo tímido e muito calado. Chegou à festa, cumprimentou toda a gente com gentileza e sentou-se num canto. Ficou a festa inteira no telemóvel ou a olhar para o vazio. Tentei puxar conversa duas vezes, e ele respondia com frases de no máximo duas palavras.

“Legal. ” “Tudo bem. ” “Hã. ”

A Michele, por outro lado, era o oposto.

Chegou faladora, a elogiar, a sorrir. Abraçou-me como se fôssemos amigas de infância. “Ai, Laura, que casa linda, tudo tão arrumadinho. Que capricho que tu tens.

” Elogiou a sala, elogiou a cozinha, elogiou as plantinhas da varanda, sentou-se ao meu lado e não se desgrudou. Quando provou a maionese, fez aquela cara de quem encontrou Deus. “Essa é a melhor maionese que já comi na minha vida. Pelo amor de Deus, dá-me essa receita.

” Eu dei. Claro que dei. E a receita não tinha nada de especial, apenas o básico. Batata, cenoura, vagem, ovo, picles, uva-passa, maçã verde, milho, ervilha, cheiro-verde, chimichurri e maionese.

Só isso. Aí ela olhou para o meu cabelo, e juro que os olhos dela brilharam. “Laura, menina, o teu cabelo é maravilhoso. Que brilho é esse?

O que é que usas? ” Eu tenho um fraco pelo meu cabelo. É escuro, comprido, com muito brilho. Parece anúncio de champô.

Não é obra de salão caro, é obra de um champô específico para cabelos escuros que compro a cada dois ou três meses. Não é barato, custa o equivalente a dez champôs normais. Por isso, uso só duas vezes por semana para poupar. E mesmo assim o resultado é absurdo.

O meu cabelo é o meu orgulho. Contei-lhe tudo. A marca, o preço, que era para cabelos escuros, que usava com moderação porque o frasco custava caro. Ela arregalou os olhos.

“Ai, eu queria ter um cabelo assim. O meu é tão opaco, tão sem vida. Que inveja. ” E olha, ela até tinha um cabelo bonito, escuro e liso como o meu, só que mais comprido.

Mas era um cabelo a pedir socorro, ressecado, sem brilho, com as pontas destruídas. Parecia que lavava com sabonete de barra. E o marido dela ali no canto, quieto. Até que a Michele resolveu incluí-lo na conversa do jeito dela.

“Diz alguma coisa, Jonas. Parece que trouxe um poste para o churrasco. ” Toda a gente riu, menos o Jonas, que deu um sorriso amarelo e voltou a olhar para o telemóvel. A Michele não parou.

“Ele é assim mesmo, gente. Parece que engoliu a língua. Não sei como me casei com este homem. Os opostos atraem-se, não é?

” Senti pena do Jonas, mas deixei passar. Afinal, era marido dela. Se ele não se importava, quem era eu para me meter? Os churrascos tornaram-se frequentes.

Todos os meses o pessoal da distribuidora aparecia lá em casa, e a Michele era presença garantida, sempre a primeira a chegar e a última a ir embora. E sempre com o Jonas a tiracolo, quieto no cantinho, a ser gozado pela mulher diante de toda a gente. A Michele pedia-me a receita de tudo. Antepasto de beringela, brigadeiro de colher, frango desfiado.

Tudo o que eu fazia, ela queria saber como. “Laura, que delícia. Ensina-me. ” E eu ensinava, porque era isso que as amigas faziam, não é?

Pelo menos era o que eu pensava que éramos. Num desses churrascos, reparei que o cabelo da Michele estava diferente, mais sedoso, mais hidratado. As pontas que antes pareciam palha estavam recuperadas. Elogiei na hora.

“Michele, o teu cabelo está ótimo. O que é que fizeste? ” Ela sorriu, toda orgulhosa. “Comprei aquele champô que me indicaste.

Amei, Laura. O meu cabelo nunca ficou assim antes. ” Fiquei feliz por ela. O cabelo estava realmente maravilhoso.

Falávamos por WhatsApp no dia a dia. Ela mandava memes, eu mandava áudios, ela comentava coisas da empresa. Nada profundo, nada íntimo. Conversa de amigas, normal.

Até que comecei a reparar em coisas estranhas em casa. Tinha comprado um frasco novo do meu champô caro. Não fazia nem duas semanas. E quando fui usar, olhei para o frasco e já estava a meio.

Impossível. Eu usava uma quantidade pequena por lavagem. Esse frasco durava pelo menos dois meses. “Mário, estás a usar o meu champô preto?

” Ele estava estendido no sofá, a olhar para o telemóvel. “Claro que não, Laura. Eu nem tenho cabelo. ” Fazia sentido.

O Mário rapava a cabeça a cada duas semanas. O champô dele durava quase um ano. Às vezes nem usava champô, lavava a cabeça com sabonete e saía feliz da vida. Então não, não era ele.

Resolvi tirar a prova. Antes de sair para a escola, usei o champô normalmente e depois fiz uma marca discreta com caneta no frasco, na linha exata do nível. Se estava a ficar maluca, pelo menos ia ter a certeza. Voltei do trabalho no fim da tarde, fui direta à casa de banho e olhei para o frasco.

O nível estava uns três centímetros abaixo da marca. Visivelmente. Mas eu tinha estado na escola o dia inteiro, e o Mário tinha estado na rua a trabalhar o dia inteiro. Então, quem é que estava a usar o meu champô?

Comecei a reparar noutras coisas. A toalha do Mário. Todas as vezes que chegava do trabalho, a toalha dele estava húmida, mesmo molhada, como se tivesse sido usada há pouco tempo. Mas nós tomávamos banho de manhã, os dois, mais ou menos à mesma hora.

A minha toalha, quando chegava à tarde, já estava seca. A dele, não. “Mário, porque é que a tua toalha está sempre molhada quando chego? ” Ele nem tirou os olhos da televisão.

“Sei lá, Laura. Devo molhar mais a toalha do que tu. Ou demora mais a secar. Vai ver, é o tecido.

” O tecido. As toalhas eram do mesmo conjunto. Mesmo tecido, mesmo tamanho, compradas no mesmo dia. Mas, segundo o Mário, a dele tinha uma deficiência de secagem que a minha não tinha.

Achei a explicação ridícula, mas não disse nada. E aí veio o telemóvel. O Mário nunca foi de ficar colado ao telefone. Era daqueles que esquecia o telemóvel a carregar na cozinha e só ia buscá-lo duas horas depois.

Às vezes ligava para o número dele de dentro de casa para ele encontrar o aparelho pelo toque. Mas de dois meses para cá, o homem parecia ter colado o telemóvel à mão com supercola. Entrava na casa de banho com o telemóvel, ia buscar água de madrugada e levava o telemóvel junto. E quando chegava uma notificação, virava o corpo inteiro para o lado oposto ao meu para responder, feito criança a esconder uma prova com nota baixa.

Às vezes passava por ele e via-o a sorrir para o ecrã. Aquele sorrisinho, daqueles que não são para algo que viu e achou engraçado, são para uma pessoa. Quando eu me aproximava, ele mudava de ecrã rapidamente e fingia que estava a ver os resultados do futebol. Champô a desaparecer, toalha molhada, telemóvel escondido.

As peças estavam a montar-se sozinhas na minha cabeça, e eu não queria ver a imagem que se formava. Mas eu sou professora de educação infantil. Passo o dia a observar crianças. Sei quando uma criança está a mentir ou a esconder alguma coisa.

E o Mário estava com a mesma cara do aluno que jura que não comeu a plasticina, mas está com a boca verde. Numa sexta-feira, fiz o jantar favorito dele. Lasanha com molho branco. Comprei um vinho que sabia que ele gostava.

O Mário comeu, bebeu, repetiu o vinho, tomou mais uma taça, depois outra, bebeu quase a garrafa inteira. Ficou naquele estado entre feliz e sonolento. Sentou-se no sofá para ver o jogo e em vinte minutos estava a ressonar, de boca aberta, a babar no braço do sofá. Esperei mais uns dez minutos.

Fui até ao sofá, peguei na mão dele com cuidado, encostei o dedo indicador no sensor do telemóvel. Desbloqueou. Abri o WhatsApp. Não precisei de procurar muito.

A conversa estava ali no topo. O nome do contacto era “Me”, e o mundo desabou. Mensagens de todo o tipo. Fotos, nudes, áudios.

Ele pedia, ela mandava, ele marcava o dia, ela topava. “Amanhã, dez horas, a gente vem para casa. Depois tomas um banho lá e usas o champô dela, que eu sei que gostas. ” Combinado.

Noutra conversa, ela a tentar recuar. “Mário, acho melhor pararmos com isto. Se alguém descobrir, vai dar problemas. ” “Ninguém vai descobrir, podes ficar tranquila.

” Desci mais na conversa. Encontrei uma mensagem dele. Ela perguntara-lhe sobre o champô. “Precisas de usar menos, senão ela vai perceber.

” E a resposta dela? “Compra um igual para mim, então. Assim a Laura não percebe que está a desaparecer. ” “És maluca.

Eu não pago nem dez reais num champô para mim. Imagina um champô de cento e cinquenta para os outros. ”

Pronto. Estava tudo ali.

O champô a desaparecer, a toalha molhada, tudo. A Michele vinha à minha casa no horário de trabalho, ia para a cama com ele e depois tomava banho na minha casa de banho com o meu champô. E saía de lá cheirosa, com o cabelo a brilhar, a agradecer a dica do champô na minha cara nos churrascos, enquanto eu sorria e elogiava. Quis gritar.

Quis acordar o Mário à porrada. Quis ligar à Michele e insultá-la até cansar. Quis chorar. Quis vomitar tudo ao mesmo tempo.

Mas não fiz nada disso, porque naquele momento uma calma estranha tomou conta de mim. Aquele tipo de calmaria antes do temporal, sabem? Quando o vento para, os passarinhos somem e o céu fica com aquela cor esquisita. Era isso.

Eu estava naquela cor esquisita. E quem me conhece sabe que quando eu fico quieta assim, é porque o estrago vai ser grande. Coloquei o telemóvel de volta na mão do Mário, que nem se mexeu. Fui para o quarto, deitei-me e fiquei a pensar a noite inteira.

Não dormi um minuto, mas também não chorei. Estava ocupada demais a planear. No dia seguinte, agi como se nada tivesse acontecido. “Bom dia, amor.

” “Tem café na mesa? ” “Bom trabalho. ” Beijo na porta. A atriz que existe dentro de toda a mulher traída acordou naquele dia, e eu merecia um Óscar.

Na hora do almoço, em vez de ir para o refeitório, saí da escola e fui até uma galeria a duas quadras. Havia uma lojinha de eletrónicos no fundo que vendia de tudo. Comprei um kit com três mini câmaras. Transmitiam em tempo real para a aplicação no telemóvel.

O vendedor ainda perguntou se era para vigiar o animal de estimação. Eu sorri e disse que sim. Era para vigiar um cão e uma cadela. À saída da galeria, passei numa farmácia e comprei umas coisas.

Guardei tudo na mala e voltei para a escola. No fim da tarde, cheguei a casa, esperei o Mário adormecer e instalei as câmaras. Uma na sala, com o ângulo para a porta de entrada e o corredor. Uma no corredor, a apanhar a porta do quarto.

E uma perto da casa de banho, a apanhar a entrada. Testei no telemóvel. Imagem perfeita, com data e hora no canto do ecrã. Mas o meu plano não era só esse.

Lembram-se de que passei na farmácia? Comprei um champô barato, da mesma cor do meu caro, mas que custava um décimo do preço. E comprei um frasco de violeta genciana. Para quem não sabe, violeta genciana é aquele líquido roxo-escuro que se usa para o sapinho dos bebés, fungos, essas coisas.

Custa barato, três reais. Mas o poder de destruição dessa coisa é absurdo. Basta pingar num pano branco e o roxo não sai nunca mais. Na pele fica dias.

No cabelo, semanas. Quanto mais esfregas para tirar, mais espalha. É o demo em forma líquida. Eu trabalho com crianças pequenas, já vi violeta genciana em ação.

Já vi mãe chegar com o filho com a boca roxa de sapinho, o miúdo a parecer que chupou uma caneta roxa. Eu sabia exatamente o estrago que aquilo fazia. Fui à casa de banho, peguei num frasco vazio do meu champô caro que tinha guardado. Adicionei o champô barato escuro que tinha comprado na farmácia e despejei o pote inteiro de violeta genciana.

Misturei bem. O champô já era escuro. A violeta genciana é escura. A mistura ficou praticamente da mesma cor.

Impossível notar a diferença. Mesmo que a pessoa colocasse na mão, parecia champô normal. Só que na hora de espalhar no cabelo e na pele, o roxo ia agarrar como tatuagem. Coloquei o frasco no lugar, arrumei tudo na casa de banho como estava e fui dormir com a consciência tranquila.

No dia seguinte, acordei antes do despertador. Fiz café, pus a mesa, tudo normal. Quando o Mário saiu, deu-me aquele beijinho automático na testa e disse: “Até logo, amor. ” Com aquele sorriso falso que eu agora reconhecia de longe.

Olhei para ele e senti uma satisfação que quase me assustou. Ele ia ter um dia inesquecível e não fazia a menor ideia. Fui para a escola e tentei dar aula normalmente. Às dez e vinte da manhã, o meu telemóvel vibrou no bolso.

Notificação de movimento. O coração disparou. Olhei para os meus alunos, olhei para a auxiliar de sala e disse o mais naturalmente que consegui. “Flávia, toma conta da turma um minutinho.

É uma emergência de família. ” Ela acenou que sim, e eu saí da sala a andar depressa. Entrei na casa de banho da escola, tranquei a porta e abri a aplicação com a mão a tremer. O coração estava a mil.

Estava ansiosa, como criança à espera do Pai Natal, só que o presente seria bem melhor. Quando a imagem carregou, lá estavam os dois na minha sala, a beijar-se. A Michele com a mala atirada ao chão, o Mário com a mão na cintura dela. Assistir àquilo doeu?

Claro que doeu. Aquele era o homem que dormia ao meu lado todas as noites, a quem eu fazia café todas as manhãs, de quem cuidava quando ficava constipado. E aquela era a mulher que se sentava à minha mesa, comia a minha comida, abraçava-me nos churrascos e me chamava de amiga. Ver os dois juntos na minha casa, na minha sala, doeu como um murro no estômago.

Os dois levantaram-se e foram para o quarto. Três minutos depois. Sim, três minutos depois, a Michele já estava a sair do quarto e a ir para a casa de banho. Três minutos.

Eu já sabia que o Mário não era nenhum maratonista do amor, mas quem trai o marido por um homem que não durava nem o tempo de um macarrão instantâneo ficar pronto? Acho que o verdadeiro interesse da Michele não era o Mário. Era o meu champô. O banho da Michele durou mais tempo do que o encontro.

Dez minutos depois, um grito. Um grito agudo, estridente, que eu jurava que ia partir a câmara. A porta da casa de banho escancarou-se e saiu a Michele. Roxa.

Completamente roxa. Cabelo a escorrer tinta roxa. Rosto roxo, testa roxa, orelhas roxas, pescoço roxo, ombros roxos, mãos roxas. A toalha enrolada no corpo, que antes era bege, agora parecia ter sido mergulhada em sumo de uva.

Ela gritava, esfregava o rosto com as mãos, o que só espalhava mais. Parecia um minion roxo. Aquele bichinho do “Mauzão” que sai a correr e a grunhir sem rumo. Só que pior, porque o minion pelo menos é engraçadinho.

“Mário! Mário, o que é que me aconteceu? ” O Mário correu para a casa de banho assustado. Quando viu a Michele, arregalou os olhos e deu um passo para trás.

“Que raio é que te aconteceu? ” “Não sei, Mário. Acho que foi o champô. Tem alguma coisa no champô?

” “Para de andar pela casa. Estás a manchar o chão inteiro de roxo. Volta para a casa de banho. ” “Não volto para aquela casa de banho.

Foi lá que fiquei assim. ” “Michele, pelo amor de Deus, olha para o rejunte. Está tudo roxo. A Laura vai perguntar o que aconteceu, e o que é que eu vou dizer?

Entra debaixo do chuveiro e esfrega-te. Uma hora sai. ” Ele estava mais preocupado com as manchas na casa do que com a mulher roxa à frente dele. Prioridades.

A câmara só apanhava a porta da casa de banho, por isso já não via os dois, mas ouvia tudo. “Esfrega mais forte, Michele. ” “Estou a esfregar. Só espalha mais.

” “Usa o sabonete. ” “Já usei. Não sai. ” “Mário, calma.

” “Vai sair. Calma. ” “Olha para a minha cara. Pareço uma uva.

” Silêncio por uns segundos. Depois a Michele, com a voz a chorar: “Tenho quase a certeza de que a Laura descobriu sobre nós. ” “Michele, para com isso. Estás a viajar.

Se a Laura tivesse descoberto, tinha falado comigo na hora. Tu conheces ela? Não ia ficar calada. ” “Então explica-me porque é que o champô dela me deixou roxa.

” “Sei lá, deve ter estragado. Venceu. ” “Sei lá. ” “Champô não vence e deixa a pessoa roxa.

Mário, não sejas burro. ” Mais silêncio. Depois a Michele a chorar: “Estou a passar mal. A minha pele está a arder.

Preciso de ir a um médico agora. ” “Está bem, está bem. Vamos. Veste o uniforme rápido.

” “Não posso sair assim. Olha para a minha cara. ” “E queres fazer o quê? Queres pôr uma máscara?

” “Qualquer coisa, Mário. Não vou sair à rua a parecer uma beringela. ”

Ouvi gavetas a abrir, portas de armário a bater. E quando os dois passaram pela câmara da sala, quase caí no chão da casa de banho da escola.

A Michele estava a usar a balaclava preta do Mário, da época em que ele tinha mota. Aquela touca ninja que cobre o rosto inteiro e só deixa os olhos de fora. Só que à volta dos olhos estava roxo. Então parecia aquele bicho roxo do McDonald’s, só que em versão assaltante de banco.

E eu, encostada à parede da casa de banho da escola, com a mão a tapar a boca, a chorar a rir. A rir de chorar. A rir de ficar sem ar. A rir de doer a barriga.

A auxiliar bateu na porta a perguntar se eu estava bem. Só consegui dizer entre gargalhadas: “Estou ótima, Flávia. Melhor impossível. ”

Salvei o vídeo inteiro, do princípio ao fim, com data, hora e tudo.

Aquilo era ouro. Agora tinha tudo o que precisava. A gravação dos dois a entrar na minha casa no horário de trabalho. E a cereja no topo do bolo: um vídeo de uma mulher a sair da casa de banho a parecer uma fruta roxa.

No intervalo, ainda com a barriga a doer de tanto rir, liguei para a distribuidora. Pedi para falar com alguém dos recursos humanos. A atendente transferiu-me direto para a coordenadora. “Boa tarde.

Aqui é a Fernanda, coordenadora de RH. Em que posso ajudar? ” “Boa tarde, Fernanda. O meu nome é Laura.

Sou companheira do Mário. ” “Mário? Que Mário? ” A piada estava pronta, mas não sou assim tão infantil.

“O Mário, aquele que finge que trabalha como promotor de vendas e fica a vadiar com a colega Michele dentro da minha casa. ” Silêncio do outro lado. “A senhora pode explicar-me melhor? ” “Instalei câmaras na minha casa.

Os seus dois funcionários, Mário Luiz da Silva e Michele Josefa dos Santos, passam um tempo juntos no meu sofá, na minha cama e na minha casa de banho, no horário em que deviam estar a visitar clientes. Mas melhor do que explicar, posso mostrar. Tenho os vídeos. Posso enviá-los pelo WhatsApp?

” “Passe-me o seu número que eu ligo-lhe. ”

Cinco minutos depois, estava a enviar o vídeo fresquinho, com data e hora. Os dois a entrar na minha casa de manhã, a beijar-se na sala, a ir para o quarto, a Michele a sair roxa da casa de banho, o Mário com as mãos manchadas. Enviei tudo.

A Fernanda visualizou. Demorou uns minutos, provavelmente a ver. Depois respondeu com uma única mensagem: “Obrigada, Laura. Pode deixar comigo.

”

Dever quase cumprido. Só faltava mais uma peça. Jonas. Eu não tinha o número dele.

Nos churrascos mal trocávamos duas palavras. Imagina telefone. Mas tinha a Michele no Instagram. Pesquisei e encontrei o perfil do Jonas em menos de um minuto.

Foto de paisagem. Perfil fechado. Dezasseis seguidores. A cara do Jonas em formato de rede social.

Enviei uma mensagem direta junto com o vídeo: “Jonas, desculpa por te enviar isto assim, mas mereces saber o que a tua esposa faz quando diz que está a trabalhar. ” Visualizado. Nenhuma resposta. Mas visualizado.

Voltei para a sala de aula, dei o resto das aulas em piloto automático e, quando o sinal tocou, fui para casa com uma calma que não sentia há semanas. Não era calma de quem desistiu. Era calma de quem terminou o serviço. Cheguei a casa e fui direta ao quarto.

Peguei na mala, abri o guarda-roupa e comecei a separar as minhas coisas. Roupa por roupa, gaveta por gaveta. Dobrei tudo com o mesmo capricho de sempre. As minhas panelas, os meus temperos, os meus livros.

Tudo o que era meu foi para dentro de caixas e sacos. Estava a sair daquela casa para sempre. Da casa onde ele trouxe outra mulher para dormir na minha cama e tomar banho com o meu champô. Estava a fechar o último saco no quarto quando ouvi a porta da frente bater com tanta força que a parede tremeu.

Passos pesados pela sala. Fui até à porta do quarto e fiquei ali encostada ao batente, a observar. O Mário estava no meio da sala, a olhar à volta, à procura. Sabia que havia câmara, só não sabia onde.

Girou para a estante, olhou entre as molduras e encontrou a câmara, pequenina, disfarçada entre as fotos. Arrancou-a, atirou-a ao chão e pisou-a. Virou-se para mim a apontar o dedo. “Tu fizeste-me ser despedido.

Eu e a Michele. Por justa causa, Laura. Justa causa. ” “Eu fiz-vos ser despedidos?

Eu estava na escola a dar aula a crianças de cinco anos. Quem estava a farrear em horário de serviço eram vocês. ” “Tu foste aos RH, tu mandaste os vídeos. ” “Mentira.

Eu não fui aos RH. Só liguei e depois enviei os vídeos pelo WhatsApp. Achei que iam gostar de saber como os funcionários deles trabalham durante o expediente. ”

O Mário andava de um lado para o outro, a passar a mão roxa na cabeça rapada.

“Tu tens noção do que eu passei hoje? Por causa de uma partida sem noção tua, tive de levar a Michele ao hospital. Trinta e cinco graus lá fora, e ela de balaclava. O segurança do hospital barrou-nos à porta, mandou-a tirar aquilo para entrar.

Ela não queria. Ele insistiu, disse que não entrava ninguém de rosto coberto. Ela tirou na sala de espera. Uma criança que estava ao colo da mãe começou a chorar de medo.

Outra apontou e gritou: ‘Mamãe, olha uma bruxa! ’ Toda a gente na receção parou para olhar. Quando finalmente ela foi atendida, sabes o que o médico disse? Ele riu.

Olhou para a Michele, olhou para mim e riu. Disse que era violeta genciana. Perguntou se estávamos a fazer uma partida de faculdade. ”

Eu quase cuspi o café de tanto rir.

A imagem do médico a rir na cara dos dois foi a melhor coisa que ouvi na vida. “Nossa, que pena que perdi essa cena. Teria sido hilariante. ” “Isto não é engraçado, Laura.

” “Para mim está a ser muito. ” “A Michele surtou, chorou, gritou. Toda a gente na receção a apontar, a tirar fotos. Parecíamos uma atração de circo.

” Ele parou de andar e apontou para mim de novo. “E quando saímos do hospital, a achar que o dia não podia piorar, o meu telemóvel tocou. Era a distribuidora. Mandaram eu e a Michele irmos diretos ao RH.

A Michele pôs a balaclava de novo. Entrámos na distribuidora e o corredor inteiro parou. Toda a gente a olhar. Um colega idiota perguntou quem é que a Michele ia assaltar.

Ela andava de cabeça baixa, eu atrás, a querer desaparecer. Chegámos ao RH. A Fernanda estava com o gerente. A Fernanda olhou para a Michele e mandou-a tirar a balaclava.

O gerente arregalou os olhos. A Fernanda nem piscou. Ligou a televisão da sala de reuniões e deu play no vídeo. Toda a gente ali viu-nos a entrar em casa, a beijar-nos na sala, a ir para o quarto.

Dava para ouvir tudo. Três minutos depois, a Michele já estava a sair e a ir para a casa de banho. Deu para ver o olhar que a Fernanda e o gerente trocaram. Os dois a tentar segurar o riso.

Três minutos, Laura. Eles viram que foram três minutos. Tu podias ter cortado essa parte do vídeo. ” Depois o gerente pigarreou e avançou o vídeo.

Apareceu a Michele a gritar e a sair da casa de banho roxa. O gerente olhou para a Michele no ecrã, olhou para a Michele na cadeira, ainda roxa, e confirmou que o vídeo era de hoje. Não havia nada a contestar. Depois pegaram nos relatórios de visita daquele dia e viram que tínhamos faltado.

Fomos despedidos os dois. Justa causa. Sem direito a nada. O Mário largou-se na cadeira da cozinha e esfregou o rosto com as mãos ainda manchadas de roxo.

“E agora, Laura? Perdi o emprego. Não vou receber subsídio de desemprego. Não vou receber o fundo de garantia.

Não vou receber nada. Tudo porquê? Porque tu foste vingativa. Podias ter falado comigo.

Podíamos ter resolvido as coisas como adultos. Foi só um caso bobo. Não foi nada real. Destruíste a minha vida, Laura.

”

Eu ia responder, mas não deu tempo. Alguém começou a martelar na porta da frente. “Mário, seu filho da mãe, abre esta porta que eu vou-te arrebentar, seu desgraçado! ” O Mário ficou branco.

Do vermelho da raiva passou ao branco do medo em dois segundos. Olhou para a porta, olhou para mim. “É o Jonas. ”

Para quem era caladinho e tímido, o homem que mal falava duas frases nos churrascos estava com uma potência vocal impressionante.

Parecia outra pessoa. Ou melhor, parecia a pessoa que a Michele nunca o deixou ser. “É o Jonas”, repeti. “Esqueci-me de avisar.

Também lhe enviei os vídeos. ” O Mário olhou para a porta, olhou para mim e deu três passos para trás. “Laura, diz que eu não estou. Pelo amor de Deus.

” “Dizer que não estás? Mas eu é que lhe mandei mensagem a avisar que chegaste. ”

Fui até à porta calmamente. O Mário veio atrás de mim, desesperado.

“Laura, não abras essa porta. Não abras. ” Abri. O Jonas entrou em casa e deu uma bofetada na cara do Mário que estalou na sala inteira.

O Mário cambaleou, endireitou-se e saiu a correr porta fora. O Jonas foi atrás. Os dois começaram a dar voltas à volta do carro estacionado em frente de casa. O Mário para um lado, o Jonas para o outro.

O Mário mudava de direção, o Jonas mudava junto. Parecia uma cena de filme cómico. Só faltava a música. A dona Neide abriu a janela em menos de dez segundos.

“Geraldo, corre cá ver a briga! ” O Geraldo apareceu sem camisa, com uma lata de cerveja na mão, feito camarote de carnaval. A Cirlene saiu para a varanda com o prato do jantar e sentou-se na cadeira de plástico como se fosse a novela das nove. O seu Ademir, da casa da esquina, veio andando devagar com as mãos para trás e parou no passeio.

Depois de umas cinco voltas ao carro, o Mário parou e encarou o Jonas. “Queres saber, Jonas? Sim, eu peguei na Michele mesmo. E sabes porquê?

Porque és um frouxo. Ela é que veio a correr atrás de mim porque tu és um chato. Ela disse que precisava de um homem a sério. ” A Michele, que estava no passeio de balaclava a tentar esconder-se, arrancou a balaclava e explodiu.

“Mentiroso! O teu mentiroso desgraçado! ” Um vizinho cutucou a esposa. “Gente, porque é que essa mulher está roxa?

” A Michele nem ouviu. Estava fora de si. “Ele está a mentir, Jonas. Eu nunca fui atrás dele.

Este cretino chantageou-me. Ele apanhou-me a roubar o champô da Laura na casa de banho deles e, em vez de ficar calado, disse que só não contava a ela se eu me entregasse. ” Olhou em volta. A rua inteira a olhar para ela.

A dona Neide com a boca aberta. A Cirlene com o garfo parado no ar. O seu Ademir a abanar a cabeça. O Mário não a deixou continuar.

“Se entregasses o quê, Michele? Fala. Conta ao teu marido o resto. ” A Michele virou-se para o Mário com os olhos cheios de ódio.

“Eu fiz o que me pediste, seu nojento. Mas não te armes. Até parece que eu ia trocar o meu marido por um homem que dura só três minutos. ”

Silêncio na rua.

Até o Geraldo baixou a lata. A dona Neide gritou da janela: “Três minutos! ” O Mário ficou vermelho. O Jonas olhou para o Mário, virou-se para a Michele.

“Deixa-me ver se percebi. Traíste-me por causa de um champô. Estavas a roubar champô na casa dos outros e, quando ele te apanhou, em vez de parares, devolveres, pedires desculpa, achaste melhor dar-te a ele para continuares a lavar o cabelo? ” A Michele chorava.

“Jonas, não foi assim. Estás a distorcer as coisas. ” “Então foi como? Explica-me como é que isto melhora a situação, Michele.

Trocaste o nosso casamento por causa de um champô. Que champô bom é esse, que aceitarias submeter-te a isto? Traías-me com este infeliz para saíres de lá com o cabelo bonito? ”

O Jonas virou-se para a Michele, olhou para ela de cima a baixo.

Roxa, descabelada, a chorar. “Sabes, Michele? Passaste a vida inteira a chamar-me poste, mudo, chato, diante de toda a gente. Humilhavas-me nos churrascos, como se eu fosse um enfeite que arrastavas para lá e para cá.

E eu aturava. Aturava tudo porque te amava. Achava que era o teu jeito e que, no fundo, gostavas de mim. Mas isto, isto não tem volta, Michele.

”

A Michele, desesperada, virou-se para mim com os olhos cheios de lágrimas, roxa, a tremer. “Laura, desculpa-me, por favor. Sei que errei, mas nunca quis magoar-te. Gostava de ti, a sério.

Eras a única amiga que eu tinha. Só queria usar aquele champô. Não tinha dinheiro para o comprar. E quando ele me apanhou, entrei em pânico e aceitei.

Mas nunca deixei de te considerar minha amiga. ”

Olhei para ela. Olhei bem. Roxa, descabelada, a chorar, a implorar.

E por um segundo quase senti pena. “Quase, Michele. Era só teres pedido. Só isso.

Chegavas a mim e dizias: ‘Laura, não tenho dinheiro para comprar aquele champô. Posso usar o teu de vez em quando? ’ E eu diria: ‘Sim. ’ Porque era isso que as amigas faziam.

Mas preferiste roubar. E quando foste apanhada, preferiste ir para a cama com o meu marido do que contar-me a verdade. Então não me venhas com essa história de amizade. ”

A Michele não respondeu.

Só chorou mais. O Jonas abanou a cabeça devagar. “Não quero voltar a ver-te, Michele. Nem pintada de ouro, quanto mais de roxo.

” Virou as costas e foi-se embora. A Michele correu atrás dele, aos gritos: “Jonas! Jonas! Escuta-me, por favor!

Errei, mas amo-te, Jonas! ” O Jonas entrou no carro e fechou a porta. Ligou o motor. A Michele batia no vidro com as mãos roxas, a deixar marcas na janela.

Ele deu marcha atrás e foi-se. A Michele ficou parada no meio da rua, sozinha, roxa, a ver o carro desaparecer na esquina. A dona Neide fechou a janela e disse para o Geraldo: “Isto está a parecer aquele programa do João Kléber, em que as pessoas fazem revelações bombásticas. ”

O Mário levantou-se do chão, com a camisa rasgada, o lábio inchado, as mãos roxas.

Veio na minha direção. “Laura, precisamos de conversar. ” Não respondi. Entrei em casa, fui ao quarto e comecei a carregar os sacos para o carro.

Uma viagem. Duas. Três. O Mário vinha atrás, feito cão perdido.

“Laura, por favor, para. Vamos conversar. Errei. Sei que errei.

” Continuei a carregar. Panelas, temperos, livros. Tudo o que era meu. “Laura, não podes ir embora.

Estou desempregado por tua causa. Não vou receber nada. Como é que vou pagar o aluguer sozinho? ” Coloquei o último saco na mala do carro.

Fechei. Olhei para ele. “Não sei. E já não é da minha conta, Mário.

” Entrei no carro, liguei o motor e fui-me embora. Pelo espelho retrovisor, vi o Mário parado no passeio, a chorar. Fui direta a casa da minha mãe. Cheguei, descarreguei as coisas, sentei-me na cozinha dela e contei tudo.

Desde o champô a desaparecer até à Michele roxa a sair da casa de banho de balaclava. A minha mãe ouviu calada, a beber café. Quando terminei, pousou a chávena na mesa e disse: “Violeta genciana. Eu também teria posto um creme depilatório.

Aí, além de roxa, saía careca. ”

O Jonas pediu a separação na mesma semana. O tipo tímido que a Michele humilhava nos churrascos, que ela chamava de poste, de mudo, que fazia de palhaço diante de toda a gente, finalmente mostrou que tinha voz. E quando abriu a boca, foi para dizer: “Acabou.

”

A Michele ficou sem marido, sem emprego e presa em casa durante pelo menos um mês, até o grosso do roxo sair da pele. Mas não saiu tudo. A violeta genciana, quando fica tempo demais, mancha de forma permanente. Ficaram umas marcas arroxeadas nas dobras do corpo e atrás das orelhas, que nunca mais saíram.

Toda a vez que alguém perguntava o que era aquilo, ela tinha de inventar uma desculpa. Mas toda a gente já sabia a verdade. A história correu tão depressa que até saiu no jornalzinho da cidade. Sem nomes, claro.

Mas com a manchete: “Mulher trai o marido para hidratar o cabelo com champô caro. ” Não precisava de nomes. A cidade inteira sabia quem era. O Mário ficou sem emprego, sem mulher, com o aluguer para pagar sozinho e com um novo apelido na vizinhança.

Porque a dona Neide não perdoa. Espalhou a história aos quatro ventos, e em menos de uma semana toda a gente sabia dos três minutos. O apelido pegou rápido. “Miojo.

” Porque até o macarrão instantâneo demorava mais a ficar pronto. Toda a vez que passava na rua, alguém gritava: “Então, Miojo? Já conseguiste passar dos três minutos? Cadê a Tinky Winky?

”

E eu? Eu continuo em casa da minha mãe, a reorganizar a vida. Continuo na escola, continuo com as crianças, continuo com a minha paciência de santa. De vez em quando alguém me pergunta pelo Mário, e eu respondo sempre o mesmo: “Mário?

Que Mário? ” E fico a olhar, à espera só para ver se a pessoa tem coragem de completar a piada. Até hoje, ninguém teve.