Estava eu num restaurante a celebrar o meu vigésimo nono aniversário com os meus amigos quando o salão inteiro parou. A música romântica, daquelas de filme brega, começou a tocar. O homem que eu amava estava de joelhos à minha frente, a pedir-me em casamento, com uma pequena caixa de veludo preto na mão. Quando eu disse sim, a caixa abriu-se.

O estalido foi alto. De dentro, um jato de pó branco disparou diretamente para a minha cara. O silêncio chocado do salão foi rasgado pela gargalhada escandalosa dele, que apontava o dedo na minha direção, a gritar: «Ah! Caíste na partida!
» E pela risada histérica da minha melhor amiga. Mas deixem-me recuar um pouco e contar como chegámos àquele dia, e o que eu fiz para me vingar deles. O meu nome é Cristina, mas todos me chamam Cris. Tenho vinte e nove anos e, durante seis longos anos da minha vida, namorei o Leandro.
Seis anos. Eu e o Leandro conhecemo-nos numa festa da faculdade. Naquela altura, aos vinte e três anos, ele era o tipo engraçado do grupo, o que contava piadas, imitava os professores e fazia toda a gente rir. Tinha um sorriso bonito e uma maneira de falar sobre o futuro que me fascinava.
O problema é que o tempo passou para mim, mas para o Leandro o relógio ficou parado nos vinte anos. Eu formei-me, arranjei emprego num banco digital e fui promovida a gestora de contas. A minha vida engrenou. No início, o Leandro até acompanhava o ritmo.
Tinha um emprego normal, trabalhava como analista júnior numa agência de marketing. Fomos morar juntos quando completámos quatro anos de namoro. O meu pai tinha acabado de me doar um apartamento num bairro perto do meu trabalho. Pequeno, mas confortável.
O Leandro entrou apenas com as malas e a presença. Na minha cabeça, estávamos a dar o primeiro passo para construir a nossa família. Um ano depois, um colega de faculdade dele, o Enzo, um rapaz a quem o Leandro vivia a chamar tapado, viralizou na internet. Começou a fazer vídeos de humor, ganhou milhares de seguidores, fechou patrocínios e comprou um apartamento novo e um carro do ano.
O Leandro surtou de inveja. Passava os fins de semana inteiros a resmungar: «Cris, se aquele tapado do Enzo consegue ficar rico a gravar vídeos parvos, eu também consigo. Eu sou muito mais inteligente e engraçado do que ele. »
Foi nessa onda que, numa terça-feira qualquer, ele chegou a casa com uma caixa de cartão nas mãos, a dizer que tinha pedido demissão da agência.
Sentou-se no sofá, bateu no peito e anunciou: «Amor, decidi que vou ser youtuber a tempo inteiro. A onda agora é canal de humor e partidas na rua. Num instante vamos estar a ganhar muito dinheiro. » Eu quis acreditar.
Juro que quis. E foi aí que a ladeira abaixo começou. O Leandro passou a andar na rua o dia inteiro a importunar pessoas aleatórias com o Maurício. Ah, o Maurício, o fiel escudeiro, outro trintão, amigo do Leandro, que passava o dia a filmar as asneiras que ele fazia e, ao fim da tarde, estava no meu sofá a comer a minha comida de graça.
O conteúdo do canal era o puro sumo da vergonha alheia: atirar água a desconhecidos na paragem, passar amido de milho com uma esponja na cara das pessoas e fugir a correr, colar moedas ou telemóveis no chão para se rir de quem tentava apanhá-los. Achavam que eram o auge do humor nacional. Eu achava que era questão de tempo até um dos dois levar um soco ou ser preso. Às vezes, quando ele me obrigava a ver as edições que acabava de montar no computador da sala, eu tentava dar-lhe um toque de realidade.
«Leandro, isto não tem piada nenhuma. Este tipo de humor já morreu. » Era o suficiente para ele dar um show. Fechava a cara, batia com a tela do portátil e começava o drama: «Cris, pensei que a minha namorada fosse a primeira a incentivar-me.
Se não queres apoiar o meu sonho, ao menos não me deites balde de água fria. » A culpa era sempre minha ou do algoritmo do YouTube, que boicotava o talento dele porque os vídeos não passavam das trinta visualizações. Os únicos inscritos fiéis eram a família dele, uma amiga minha e um monte de contas falsas que ele e o Maurício criavam. Foi a partir daí que a divisão das contas foi por água abaixo.
«Cris, no mês que vem o canal monetiza e eu recupero o tempo perdido. Segura as pontas. » Outras vezes pedia: «Cris, preciso de uma câmara melhor para gravar com qualidade. Posso comprar no teu cartão?
Juro que pago a fatura. » E, como calculam, eu ajudava e ele nunca pagava. Eu deixava passar. Pensava que ele estava frustrado, que era uma fase e que em breve voltaria a arranjar um emprego normal.
O que eu não percebi é que a falta de visualizações o estava a deixar desesperado para tentar qualquer coisa que desse engajamento. Qualquer coisa mesmo. A única pessoa com quem eu desabafava era a Natália. Uma amiga da faculdade que, ironicamente, adorava as partidas do canal do Leandro.
Uma semana antes do meu aniversário, chamei-a para um café. Eu estava no meu limite. Durante quase quarenta minutos, despejei tudo: as contas atrasadas, a vergonha de ver aquele homem com quem planeava formar uma família a importunar idosos na rua por um like, a exaustão de chegar do banco e encontrar ele e o Maurício a jogar videojogos na minha sala. Enquanto eu falava, os olhos da Natália não se desgrudavam de mim.
Olhando para trás, sei exatamente o que aquele brilho excessivo significava. Mas naquela tarde, cega pela falta de sono e pela angústia, vi apenas atenção. Vi uma amiga a acolher-me. Ela terminou o café com uma calma estudada, pousou a chávena no pires sem fazer barulho, esticou a mão por cima da mesa e apertou a minha.
Abriu um sorriso afetuoso. «Cris, calma. Não podes cobrar tanto dele. O homem tem o seu próprio tempo para amadurecer.
Se pressionares agora, a relação vai desgastar-se e vais deitar fora seis anos de tudo o que construíram. O Leandro ama-te, sua boba. Só precisas de ter um pouco mais de paciência e apoiá-lo. Já já o canal dele começa a fazer sucesso e tudo vai melhorar.
»
Saí daquela cafeteria a sentir-me a pior pessoa do mundo. O discurso manso da Natália tinha cumprido o objetivo: convencer-me de que a culpa da crise era minha, da minha intolerância, da minha falta de apoio. Os dias seguintes arrastaram-se. Até que numa quinta-feira o meu telemóvel tocou.
«Amiga, já pensei em tudo para te animar. O teu aniversário é sábado e vamos fazer uma coisa bem fixe. Já te aviso para te ires preparando. » Eu suspirei.
«Nati, agradeço, mas não estou com cabeça para comemorar. Não tenho vontade nenhuma. » Ela cortou-me: «Não aceito um não como resposta. Não vou deixar a minha amiga passar o aniversário a chorar no sofá.
Vamos sair. Sábado às sete em ponto passo aí para te buscar. » Falou com tanta convicção que eu não tive forças para rebater. «Tá bem, Nati, às sete da noite.
»
Naquela mesma noite, enquanto preparava o jantar e o Leandro editava mais um vídeo desastroso na sala, comentei por alto os meus planos para o fim de semana. «A Natália ligou-me hoje. Não me deixou ficar em casa no sábado. Vai passar aqui às sete para irmos jantar.
» Esperei alguma reação, uma sugestão de que ele fosse comigo. Mas o Leandro nem tirou os olhos do ecrã. «Beleza, amor. Sábado eu e o Maurício vamos passar o dia na rua.
Temos ideias de gravação para tentar. » O sangue subiu-me ao rosto. «Gravação, Leandro? É o meu aniversário.
Não podes, sei lá, dar um tempo desses vídeos por um único dia e ir comigo? » Ele bufou, encostou as costas à cadeira e revirou os olhos. «Cris, não comeces. Sábado é o melhor dia para filmar na rua.
O centro fica cheio, temos mais reações. O canal está estagnado e precisamos de conteúdo forte. Tens de entender que isto é o meu trabalho. » Eu ri-me, uma risada seca.
«O teu trabalho não paga nem a conta da luz. Estou a segurar esta casa sozinha há meses. Será que não mereço ao menos um dia de prioridade? » «Lá vens tu jogar os boletos na minha cara.
Já te disse que quando a monetização engrenar devolvo cada centavo. Vai sair com a Natália. Vai curtir o teu dia. » Levantou-se, pegou nas chaves e bateu com a porta, deixando-me sozinha na cozinha.
A sexta-feira serviu apenas para confirmar o abismo em que a nossa convivência se tinha tornado. Cheguei a casa perto das oito da noite, exausta. A primeira coisa que vi foi o Maurício esparramado no meu sofá, com os sapatos imundos em cima da mesinha. O Leandro estava na cozinha a comer o resto do strogonoff direto da panela que eu tinha feito na noite anterior.
Quando me viu, deu-me um beijo rápido no topo da cabeça e foi para a sala. «Ah, Cris, esqueci-me de passar no mercado e o strogonoff acabou. Acho que ainda há pão de forma. Faz um sanduíche para ti se estiveres com fome.
» Fiquei parada no corredor. Não era só a comida que ele tinha comido. Era a naturalidade com que me tratava como uma empregada que dividia o teto com ele. O sábado, o dia do meu aniversário, amanheceu estranhamente silencioso.
Quando acordei, o Leandro já não estava. Fui à cozinha e encontrei a mesa vazia. Nenhum bilhete, nenhum feliz aniversário, apenas as chávenas sujas do pequeno-almoço dele e do Maurício na pia. Foi ali, a olhar para aquela pia suja, sozinha no apartamento que eu pagava sozinha, que a chave virou na minha cabeça.
A angústia deu lugar a uma clareza absurda. Eu ia terminar. Estava decidido. Assim que voltasse do jantar com a Natália, ia mandá-lo fazer as malas e pôr um ponto final naquele circo.
Aquele era o meu presente de vinte e nove anos para mim mesma: paz. A sensação de alívio foi tanta que me arranjei com uma vontade que não sentia há meses. Tomei um banho demorado, fiz uma bela escova, caprichei na maquiagem e tirei do armário o meu melhor vestido, aquele roxo que me deixava um espetáculo. Quando a Natália buzinou lá em baixo, às sete em ponto, desci a sentir-me uma mulher nova.
«Nossa! Estás maravilhosa! » gritou ela quando entrei no carro. «Pois é, Nati.
É que hoje tomei uma decisão importante. Assim que chegar a casa, vou terminar com o Leandro. Chega. Vou recomeçar aos vinte e nove.
» A Natália olhou para mim por um segundo, os olhos arregalados, e depois deu um sorriso rápido antes de acelerar. «Calma, amiga. A noite de hoje é só o começo das surpresas. » Eu achei que fosse incentivo.
Quando chegámos ao restaurante mais badalado da cidade, levei um susto. Não era só o pessoal mais próximo. A mesa que a Natália tinha reservado tomava quase a varanda inteira. Havia amigos da faculdade, colegas do trabalho, gente que eu não via há quase um ano.
O clima estava perfeito, a comida maravilhosa. Eu estava com uma taça de vinho na mão, a conversar animada, quando ouvi um burburinho na entrada. A porta de vidro abriu-se e o Leandro entrou. Mas não era o Leandro de calções e camiseta rota que eu conhecia.
Estava de fato, um fato cinzento muito bem cortado, gravata, cabelo arranjado. Parecia outra pessoa. Atrás dele, quase como uma sombra, vinha o Maurício, a segurar não uma câmara vagabunda, mas um estabilizador profissional, com o telemóvel apontado diretamente para nós. O restaurante inteiro parou.
Uma música romântica começou a tocar misteriosamente no sistema de som. O meu coração saltou. As pessoas à minha mesa começaram a fazer pequenos oh e a tirar os próprios telemóveis para filmar. A Natália, ao meu lado, cutucou-me com o cotovelo e sorriu.
Ele caminhou na minha direção, os olhos fixos em mim, com uma pequena caixa de veludo preto na mão direita. O chão sumiu. Tudo o que eu tinha decidido de manhã sobre terminar evaporou. Eu, estúpida, pensei: ele quis fazer-me uma surpresa, por isso disfarçou tão bem.
Ele ajoelhou-se. As pessoas suspiraram. «Cris, passámos por muita coisa nestes seis anos. Aguentaste as minhas fases, as minhas loucuras, os meus sonhos.
Hoje, diante de todos os teus amigos, preciso de te fazer a pergunta mais importante da minha vida. Aceitas passar o resto da tua vida comigo? » «Sim», quase gritei, a voz embargada, a rir e a chorar ao mesmo tempo. «Claro que sim.
»
Ele sorriu, levantou-se e entregou-me a caixinha. Com as mãos a tremer, abri a tampa. O estalido foi alto, como um pequeno foguete de festa junina. E o que saiu de dentro foi um jato de pó branco que voou com pressão diretamente para o meu rosto.
Entrou-me nos olhos, na boca semicerrada, cobriu o meu cabelo escovado e arruinou o vestido. Fiquei a engasgar. O cheiro adocicado do amido de milho encheu-me o nariz. Passei as mãos na cara, a tentar limpar os olhos a arder, completamente desorientada.
Foi aí que o silêncio foi quebrado pela gargalhada escandalosa do Leandro. «Ah! Caíste na partida do Leandro! Esta foi a melhor partida da minha vida!
» gritou ele, a apontar o dedo para a minha cara coberta de amido. Pisquei os olhos lacrimejantes, a tentar processar o que tinha acontecido. Olhei à volta. Alguns convidados estavam paralisados, com as mãos na boca, horrorizados.
Outros riam sem graça. Mas a risada mais alta vinha do meu lado esquerdo. Virei a cabeça. A Natália estava dobrada ao meio, a rir histericamente.
«Meu Deus, olha a cara dela, toda branca! » berrava, a bater palmas, enquanto o Leandro ria tanto que precisava de se apoiar na cadeira. «Cinquenta mil pessoas a assistir! » gritou o Maurício.
A partir daquele momento, tudo entrou em câmara lenta. O som ficou abafado, como se eu estivesse debaixo de água. Via o Leandro a saltar e a abraçar o Maurício, a comemorar os cinquenta mil espetadores. Via os rostos chocados.
E via a Natália, o rosto vermelho, a boca escancarada, a contorcer-se de rir da minha cara. Foi nesse segundo de choque, com o pó branco colado nos cílios, que a ficha caiu com o peso de uma bigorna. A Natália não era apenas uma espetadora da minha humilhação. Era cúmplice.
Tinha armado tudo aquilo com eles. O nó na minha garganta apertou-se tanto que não conseguia respirar. A única coisa que o meu instinto de sobrevivência me permitiu foi virar as costas e correr. Saí a correr pelo salão, a esbarrar num empregado, a empurrar a porta de vidro com força.
O ar frio da noite bateu-me no rosto. Coincidentemente, havia um ponto de táxi mesmo em frente ao restaurante. Atirei-me para o banco de trás. «Moço, tire-me daqui, por favor», pedi com a voz esganiçada, dando a minha morada.
O taxista olhou-me pelo retrovisor e arregalou os olhos ao ver o meu estado: o vestido arruinado, o cabelo branco de amido, as lágrimas que já rolavam sem controlo. Quis perguntar, mas não teve coragem. Apenas acenou e acelerou. Durante o trajeto, a tristeza esmagadora foi endurecendo e esfriando, transformando-se numa raiva cristalina.
Cheguei ao prédio, passei pelo porteiro de cabeça baixa e subi. Assim que entrei em casa, bati a porta, tranquei e deixei a minha chave virada na fechadura, do jeito exato para que a chave dele não entrasse pelo lado de fora. A partir daquele dia, ele não entrava mais na minha casa. Fui direta ao quarto, peguei a mochila preta gigante que ele usava para viajar e comecei a atirar para lá tudo o que via: cuecas, camisetas, as calças ridículas, os ténis.
Abri a porta e atirei a mochila para o corredor. Fechei e cruzei a chave. Meia hora depois, ouvi o elevador, passos apressados e o metal da chave dele a tentar entrar na fechadura sem êxito. «Cris, amor, abre aí.
A chave está emperrada. Porque é que a minha mochila está cá fora? » Encostei a testa à porta e não respondi. «Cris, qual é?
As tuas amigas já me encheram o saco no restaurante. Foi só uma brincadeira, amor. A live foi um absurdo de sucesso. Se continuarmos a fazer partidas deste tipo contigo, vamos estourar.
» Respirei fundo e falei com voz firme: «Leandro, vai embora. Nunca mais vais pisar neste apartamento. Pega na mochila e desaparece da minha vida. » Houve um silêncio.
«Cris, não faças drama. Abre a porta. Os meus equipamentos estão aí todos. Como vou trabalhar sem o computador, sem a câmara, sem os tripés?
» A voz já não era de pedinte, estava irritada. «Não podes fazer isso comigo. » «Posso, sim. E sabes porquê?
Porque os equipamentos de gravação paguei eu com o meu cartão e o computador comprei eu. As únicas coisas tuas aqui são essas roupas que trouxeste de casa da tua mãe. Se não desapareceres daqui em dois minutos, chamo a polícia. » «És maluca!
» gritou ele, a esmurrar a porta. «Um minuto», respondi. Ele soltou um palavrão que ecoou no corredor, chutou a mochila, mas no fim ouvi a lona a ser arrastada e o elevador a abrir-se. Foi embora.
As pernas fraquejaram. Sentei-me no chão e fiquei ali uns minutos. Levantei, fui ao banheiro e liguei o chuveiro no máximo. Deixei a água quente arrancar o pó do cabelo, a maquiagem manchada, a sujeira.
Chorei tudo o que tinha para chorar. Saí do banho, vesti um pijama velho e fui à sala com a intenção de desligar as luzes e deitar. Foi então que vi uma luz azulada vinda da mesa do canto. O computador do Leandro, aquele que eu não o deixara levar.
Não estava desligado, apenas em modo de repouso. Aproximei-me e mexi no rato. A tela acendeu instantaneamente. Ali, ocupando o ecrã inteiro, estava o WhatsApp Web dele, aberto e iniciado.
E bem no meio, a janela de conversa ativa com um nome que fez o meu coração bater no ritmo de um tambor. Natália. Sentei-me na cadeira dele. A mão ainda tremia quando rolei a barra para cima, mas os olhos corriam pelas palavras como um scanner.
A primeira coisa que notei foi o tom. Não falavam como meros conhecidos, falavam como íntimos. Rolei os meses. A sujidade começava muito antes do que imaginava.
A Natália começara a dar em cima do Leandro há quase um ano, exatamente na mesma altura em que ele pediu demissão e cismou que seria youtuber. Enquanto eu me matava a trabalhar para bancar a casa, aquela autêntica oportunista, que jurava que o Leandro ia ficar milionário na internet, enchia-lhe o ego de confete. O flirt virara traição consumada há oito longos meses. Havia áudios, fotos, conversas nojentas a marcar encontros no meu apartamento.
Mas o que me fez passar mal de verdade não foi a traição física. Foram as intenções. Numa mensagem do mês passado, a Natália pressionava: «Precisas de terminar logo com ela, Lê. A Cris só te puxa para baixo.
» E a resposta do Leandro era a prova do parasita que eu estava a criar dentro de casa: «Calma, Nati. A crise é útil para mim. Ela paga as contas, o supermercado, comprou as minhas lentes. Preciso que ela continue a bancar a estrutura até o canal monetizar.
Quando o dinheiro começar a entrar, meto-lhe o pé e ficamos juntos. »
Fechei os olhos. Ele não me amava. Nunca me amou.
Eu era apenas uma linha de crédito com cama de casal. Rolei a conversa para os dias mais recentes, à procura da armadilha do restaurante. E lá estava. Na tarde exata daquele nosso café, onde chorei as mágoas para a Natália e abri o coração a dizer que o meu sonho era casar, ela mandou-lhe uma mensagem: «Lê, hoje tive uma ideia perfeita para o teu canal.
Tenho a certeza que vai dar milhões de visualizações. » Foi a Natália. A minha melhor amiga usou o meu maior sonho para me humilhar diante de toda a gente. Encostei-me à cadeira, de braços cruzados.
A dor tinha evaporado a cem por cento. No lugar dela, um sorriso maquiavélico nascia no canto da minha boca. A Natália achava que era muito esperta. O que ela não sabia era que eu conhecia um dos segredos mais nojentos da vida dela, algo que ela me contou e me implorou para guardar.
Algo que podia acabar com a carreira dela. Já estava pronta para salvar as conversas quando o meu olhar bateu na lista de contactos recentes. Havia um nome ali que eu conhecia bem. Será que era o mesmo Enzo?
O tipo que o Leandro passava os fins de semana a chamar tapado, sem talento e idiota. O tipo que despertou a inveja doentia que destruiu a minha vida. Cliquei na conversa e passei mal com o nível de hipocrisia. O Leandro, o homem muito mais inteligente, tinha passado os últimos meses a enviar mensagens humilhantes: «Fala, irmão.
Beleza? O teu canal está a voar. Orgulho de ti. Estou com um projeto forte de partidas agora.
Combinava com a tua vibe. Gravávamos juntos, né? Dá-me uma moral, divulga lá aos teus inscritos. » O Enzo, para o meu alívio, tinha sido educado mas evasivo: «Vou ver, cara.
Estou na correria das gravações, a montar um podcast. »
Peguei no meu telemóvel e anotei o número do Enzo. Abri o meu próprio WhatsApp e comecei a digitar: «Olá, Enzo, não me conheces. Sou a Cris, a ex-namorada do Leandro e a rapariga suja de amido que ele fingiu pedir em casamento na live de hoje.
Podemos conversar? » Apertei enviar. Olhei para o relógio. Era uma da manhã de domingo.
Para a minha surpresa, os dois tracinhos ficaram azuis na mesma hora. Cinco segundos depois, o estado do Enzo mudou para «a escrever». «És tu mesma? » «Nossa, como estás?
» «Tirando o facto de o meu ex e a minha ex-melhor amiga terem usado o meu maior sonho para me humilhar diante dos meus amigos e de cinquenta mil desconhecidos, estou ótima», digitei. «Enzo, vou ser direta. Expulsei o Leandro do apartamento. O computador que ele usava fui eu que paguei e ficou aqui.
O WhatsApp Web dele está aberto. Sei que ele vive a correr atrás de ti por uma parceria enquanto nos bastidores diz não perceber como fazes sucesso e ele não. » A resposta demorou um pouco mais. «O tipo é um parasita de visualizações.
E o vídeo de hoje foi a coisa mais bizarra e cruel que já vi. Metade do Twitter está a massacrá-lo, a outra a achar graça. Mas diz-me porque é que me chamaste. » «Descobri que o Leandro só estava comigo para eu bancar as contas e os equipamentos.
E que ele e a Natália, a rapariga que se ria ao meu lado no vídeo, andam juntos há oito meses. Esta partida foi ideia dela. Semana passada contei-lhe os meus planos e ela resolveu usá-los para me humilhar. Quero expor os dois.
Vi no WhatsApp dele que estás a montar um podcast. Que tal dar ao Leandro os quinze minutos de fama que ele tanto te pede? »
O Enzo mandou um áudio de dez segundos. A voz denunciava uma gargalhada genuína.
«Cris, acabaste de ganhar um aliado. Ia estrear o cenário do podcast só no mês que vem, mas acho que podemos antecipar para segunda. Uma edição especial de estreia. Temos de aproveitar que o assunto está quente.
Vou convidá-lo amanhã de manhã, a ele, ao câmara e à Natália, para uma entrevista exclusiva. Topas entrar no estúdio de surpresa no meio da transmissão? » «Não perdia isto por nada, Enzo. » Passámos as três horas seguintes a trocar mensagens, a elaborar o roteiro da queda do Leandro.
Quando o sol começou a nascer, o plano estava armado. A segunda-feira chegou arrastada, mas eu estava ligada no duzentos e vinte. O Enzo passou-me a morada do estúdio, num prédio comercial no centro, e colocou-me lá dentro pelos fundos meia hora antes. Fiquei numa salinha de controlo separada do estúdio principal por um vidro espelhado.
Eu via tudo, mas eles não me viam. Havia também um monitor que mostrava a transmissão ao vivo com o chat a rolar a mil à hora. Quando faltavam dez minutos, a porta abriu-se. Juro que tive de pôr a mão na boca para não rir.
O Leandro entrou primeiro, de casaco de cabedal e óculos escuros, como uma estrela de Hollywood a tentar não ser reconhecida. Atrás, a Natália, com o cabelo perfeitamente alisado e um blazer chique, a segurar uma prancheta, a fingir que era a empresária ocupada. Por último, o Maurício, a carregar a mochila de equipamentos como um capacho, com a câmara na mão. «Então, irmão?
» disse o Leandro, a abraçar o Enzo com a falsidade de quem estava diante de uma mina de ouro. «Obrigado pelo convite. Sabemos que o nosso canal está a bombar, mas é sempre bom trocar figurinhas com gente do mesmo nível. » O Enzo sorriu.
O mesmo sorriso que imaginei que um tubarão daria antes do bote. «Claro. O espaço é vosso. Podem sentar.
» Às oito em ponto, a vinheta tocou e a live entrou no ar. Os números no canto da minha tela não paravam de subir: cem mil, cento e vinte, cento e cinquenta mil pessoas ao vivo. «Boa noite, internet. Bem-vindos ao primeiro episódio do nosso podcast, Podenzo.
Para inaugurar este espaço com chave de ouro, trouxe o assunto do momento. Com vocês, Leandro, Natália e Maurício do canal Partida do Leandro. »
O Leandro ajeitou-se na cadeira, cruzou as pernas e sorriu para a câmara. «Cara, obrigado pelo espaço na tua estreia.
É um prazer estar aqui com um velho colega. » «O prazer é todo meu», respondeu o Enzo sem largar o sorriso amigável. «Mas conta-me, como está a ser lidar com esta repercussão toda? » «Ah, Enzo, sempre lidámos bem com a fama.
Fazemos humor diferenciado e finalmente caiu no gosto do povo. » «Entendi. Mas diz-me, Leandro, o que te inspirou a largar o emprego e a apostar tudo no YouTube? Quem é a tua grande inspiração?
» O Leandro estufou o peito. «Desde criança, a minha maior inspiração sempre foram o Sérgio Malandro e o Ivo Holanda. Aquela coisa do humor clássico, realista, autêntico, o improviso. Cresci a vê-los.
» O Enzo abriu um sorriso largo e olhou para a câmara. «Que interessante, Leandro. É por isso mesmo que quisemos fazer uma surpresa na estreia. Trouxemos uma pessoa muito especial para o estúdio.
» O Leandro arregalou os olhos e levou as mãos ao rosto, emocionado. «Mentira! Não brinques comigo. O Sérgio Malandro está aqui?
»
Agora era a minha vez. Empurrei a porta do estúdio e falei enquanto caminhava para a luz. «Não, seu idiota. Sou eu.
» Os três saltaram nas cadeiras como se tivessem levado um choque. A Natália derrubou a caneca no chão. O sorriso emocionado do Leandro derreteu, dando lugar a puro pânico. Caminhei devagar até à cadeira vazia ao lado do Enzo, sem tirar os olhos daquele bando de falsos.
«Engraçado falares de inspiração clássica de infância», continuei, a assentar a lapela do microfone. «Porque lá no meu apartamento dizias-me outra coisa. Dizias que a única motivação para te tornares youtuber era a inveja doentia do sucesso do Enzo. Que não suportavas ver um tipo que achavas tão tapado e sem talento a ganhar dinheiro, enquanto tu eras muito mais inteligente e engraçado.
» O rosto do Leandro ficou branco como papel. O Maurício começou a suar frio. O chat da live, que transmitia agora para cento e oitenta mil pessoas, explodiu. Os comentários subiam tão depressa que era impossível ler.
«Isso é mentira», gaguejou o Leandro, a olhar para o Enzo e depois para a câmara, a tentar não perder a pose. «Nunca disse nada disso. O que é que esta maluca está aqui a fazer? » Ajeitei-me na cadeira, a cruzar as pernas com a maior calma do mundo.
«O que estou aqui a fazer? Leandro, só estás sentado nessa cadeira, diante de cento e oitenta mil pessoas, por minha causa. Só viralizaste porque usaste a minha imagem, a minha vida e os meus sentimentos para fazer a tua palhaçada. Já que sou o único motivo da tua fama repentina, nada mais justo do que eu estar aqui para contar o que sei dos bastidores.
» Puxei o telemóvel do bolso e coloquei-o em cima da mesa. «No teu WhatsApp Web, que esqueceste iniciado no computador que eu comprei, estão as mensagens exatas onde provas o encostado que és. Os áudios em que dizes que estavas comigo apenas para eu pagar as contas e os equipamentos. » O Leandro tentou avançar para pegar no telemóvel, mas o Maurício, apavorado, puxou-lhe o braço para trás.
«E pior que isso», continuei, a virar a cadeira para ficar de frente para a Natália. «O WhatsApp também me mostrou quem foi a cabeça por trás deste vídeo. Não foi a tua mente brilhante, foi a Natália. Uma semana antes do meu aniversário, chorei num café e confessei-lhe que o meu maior sonho era casar contigo.
E ela pegou nessa fraqueza e entregou-ta de bandeja para gravares a minha humilhação em forma de partida. »
«Estás louca, mulher? » gritou a Natália finalmente, a voz aguda a ecoar pelo estúdio. «Invades o programa para fazeres barraco de ex-namorada surtada?
Pelo amor de Deus, Cris, aceita que o Leandro faz sucesso e que tu só servias para o puxar para trás. Estás a inventar mentiras porque estás amargurada por ele estar comigo agora. » Virei o rosto devagar, a encará-la. O silêncio voltou a tomar conta do estúdio.
«Estou a inventar mentiras, Natália? » «Claro que estás», rebateu ela, de braços cruzados e nariz empinado, a tentar fingir uma superioridade que não tinha. «Apareces aqui do nada a querer destruir reputações. Aprende uma coisa: nunca contes os teus desejos mais profundos a ninguém.
As pessoas podem usá-los contra ti um dia. » Sorriu com aquele sorriso de plástico, orgulhosa de assumir que me tinha apunhalado pelas costas. Sorri de volta. «Tens toda a razão, querida amiga.
A gente nunca deve contar os nossos segredos a ninguém. Como, por exemplo, a forma como conseguiste o teu emprego, lembras-te? » A postura dela vacilou. O sorriso tremelicou nas bordas.
«Não sei do que estás a falar. » «Ah, minha querida, já que te esqueceste, deixa-me refrescar a memória. Estou a falar de como conseguiste a tua sonhada vaga de gestão na construtora onde trabalhas. Lembro-me muito bem daquele dia em que me encontraste depois da tal entrevista final, que curiosamente foi num hotel e não no escritório.
Contaste-me tudo a rir. E lembro-me da fotografia que me mostraste do responsável, a tirar uma soneca após o teste prático. Um homem com uma tatuagem enorme do lado esquerdo do peito peludo, com um nome muito específico. Tipo Cremilda.
»
O estúdio inteiro congelou. O Leandro olhou assustado para a Natália. O Enzo soltou um assobio baixo, longe do microfone. A Natália abriu a boca, fechou, abriu de novo.
A cor fugiu-lhe do rosto, dando lugar a terror puro, que rapidamente virou histeria. Com um grito agudo que fez o microfone quase estourar, pulou da cadeira e voou para cima de mim por cima da mesa. «Sua vagabunda! » gritava, a tentar agarrar-me o cabelo.
Defendi-me a empurrar-lhe os ombros, mas não precisei de muito esforço. Na mesma hora, o Enzo e um dos assistentes pularam para o meio, a segurá-la pelos braços enquanto ela esperneava, a derrubar microfones e copos. «Larguem-me! Parem a gravação!
Vou processar esta desgraçada! Expuseste o meu chefe, o senhor Roberto! Vais pagar cada centavo! » Leandro estava encostado à parede, pálido, a assistir ao circo sem mover um músculo para a defender.
«Leandro, faz alguma coisa! Tira-nos daqui! » implorou ela, ofegante. Ele ajeitou o casaco de cabedal.
O olhar de desespero tinha virado puro cálculo de sobrevivência. «Olha, Natália, acho melhor não sermos mais vistos juntos. O meu canal é focado em humor, não em polémica de adultério. Deves estar a ser cancelada a esta hora.
Não posso sujar a minha imagem. » Virou-se para o Enzo, o rosto contorcido de raiva. «E tu! És um mau caráter, a querer queimar-me logo no começo da carreira para não perderes visualizações.
Sempre foste um idiota na faculdade. Eu sou muito melhor do que tu. Não preciso da tua ajuda. » Sem esperar resposta, deu as costas e marchou para a saída.
O pau mandado do Maurício apanhou a mochila do chão e correu atrás dele como um cachorrinho. A Natália, ao perceber que tinha sido descartada, parou de se debater. Arrumou o blazer, lançou-me um último olhar de ódio puro e saiu a bater com a porta de vidro com tanta força que o estúdio tremeu. O Enzo respirou fundo, ajeitou a gola da camisa e, como um profissional impecável, sentou-se de novo na cadeira principal, a olhar diretamente para a câmara que ainda transmitia.
«Bom, pessoal, a estreia foi um pouco mais movimentada do que esperávamos. Mas é isto: a mentira tem pernas curtas e aqui no Podenzo só trabalhamos com verdades. Deixem o like na live, inscrevam-se no canal e fiquem atentos, porque para a semana temos uma convidada muito especial. Valeu, internet, e boa noite.
» A luz vermelha da câmara apagou-se. A live tinha acabado. O silêncio foi quebrado pelo suspiro aliviado do Enzo. Olhámos um para o outro e começámos a rir.
O peso de seis anos tinha saído das minhas costas. «Chega cá, Cris», chamou ele, a puxar um monitor. «Vem ler isto. » Era o chat da live e os comentários no Twitter.
Centenas de mensagens por segundo, e noventa e cinco por cento estavam do meu lado. As pessoas arrasavam o Leandro e a Natália. Diziam que as partidas dele eram ridículas, de mau gosto e forçadas. Que ele só ganhara visualizações no fim de semana porque o vídeo do pedido falso fora de uma crueldade absurda.
Foram massacrados. A ler aquilo, a ver que ninguém tinha comprado a pose de vítima do meu ex, finalmente respirei aliviada. O tribunal da internet já tinha dado a sentença. Um mês passou desde a noite do podcast e, confesso, estava a habituar-me maravilhosamente bem à solteirice e à ausência de amizades falsas.
A conta bancária agradeceu. O apartamento finalmente cheirava a limpeza. Algumas amigas em comum mantiveram-me atualizada sobre o destino da nossa querida amiga. A Natália foi despedida da construtora, sem direito a nada.
E, para a surpresa de zero pessoas, o senhor Roberto também saiu da direção. Acontece que, depois de eu ter dito o nome Cremilda no podcast, os burburinhos correram soltos. O RH recebeu uma denúncia anónima — que não fui eu que fiz, juro — e abriu uma sindicância interna. Descobriram que o senhor Roberto era casado com uma Cremilda e que só dava cargos de gestão a mulheres bonitas que topassem o tal teste prático.
A Natália foi cancelada, apagou as redes sociais e todas as amigas da faculdade cortaram relações com ela. Ninguém queria ser associada a quem rouba namorado alheio e sobe na vida a dormir com o chefe casado. Já o Leandro, o meu ex, curtiu a fama por exatos dois dias. Depois da live do Enzo, o Instagram dele virou um campo minado de haters.
O canal despencou em inscritos, mas o ego continuava do tamanho do mundo. Ele e o Maurício cismaram de continuar com o tal humor diferenciado na rua. Duas semanas atrás, tentaram fazer uma partida a assustar peões com uma buzina ensurdecedora e acabaram por fazer um idoso tropeçar e partir o braço. Leandro e o pau mandado do Maurício estão a ser processados pela família do senhor.
Perderam os poucos equipamentos que sobravam para pagar o advogado. E, segundo os boatos, o Leandro finalmente caiu em si e começou a entregar currículos para pagar a indemnização e as custas processuais. O Enzo e eu continuámos super amigos. Chama-me para comer pizza de vez em quando e damos muitas gargalhadas a lembrar o dia em que a live dele quebrou a internet.
E eu aprendi a lição. Aos vinte e nove anos, descobri que a vida é a maior criadora de partidas que existe. Achas que estás a construir uma vida com o teu namorado e apoiada pela tua melhor amiga? E a vida atira-te amido de milho para a cara para te mostrar que estavas cercada de cobras.
Mas, no fim das contas, a maior piada de todas foi a do próprio Leandro. Armou o próprio palco e transmitiu para o Brasil inteiro o fim da carreira que mal tinha começado.