Estava eu parada junto ao parque de estacionamento da empresa, a ver o meu noivo ser humilhado por uma mulher diante de dezenas de colegas de trabalho. Mas o melhor foi quando ela lhe acertou um pontapé entre as pernas. Segurei o riso. Tinha de parecer surpreendida, arrasada, aquela cara de noiva traída que descobre tudo naquele exato segundo.

E enquanto o meu agora ex-noivo se contorcia no asfalto, de mãos na virilha, a gemer de dor, aconteceu qualquer coisa ainda melhor. Mas esperem, deixem-me recuar. Antes de terem pena dele, precisam de saber o que ele me fez. O meu nome é Luísa e tenho vinte e oito anos.
Conheci o Júnior há dois anos, na mesma empresa, em pisos diferentes. Eu sou analista financeira, ele era assistente comercial. Já se percebe a diferença, não é? Mas na altura não pensei nisso.
Achei-o simpático, boa conversa, daqueles que fala com toda a gente no café e sabe o nome do porteiro. Começámos a namorar e foi um ano e meio cada um em sua casa. Ele morava em Guaianases com os pais. Eu já tinha o meu apartamento arrendado em São Paulo, perto da empresa.
Ele demorava uma hora e meia a chegar ao trabalho, mais hora e meia a voltar, se não houvesse trânsito. Depois veio a conversa de morarmos juntos, e até tinha lógica. O Júnior passava três horas por dia dentro do carro. Eu morava a quinze minutos da empresa.
Chegava a casa morto, jantava e dormia para acordar cedo. Quase não nos víamos durante a semana. Amor, se morássemos juntos, eu perdia menos tempo no trânsito e podíamos estar mais tempo juntos. Ficava bom para os dois.
Concordei. Parecia maduro, parecia certo. Éramos um casal consolidado. Na semana seguinte, ele veio para cá.
Trouxe duas malas, uma caixa de copos de cerveja personalizados e a consola. Três meses depois, pediu-me em noivado num McDonald’s. A sério, um McDonald’s? Pôs o anel dentro de um sundae de morango e ficou à espera que eu comesse.
Pediu ali mesmo, sentado do outro lado da mesa, nem se ajoelhou. Ainda bem, porque o restaurante estava cheio. Já foi constrangedor o suficiente, mas eu estava apaixonada. Tirei o anel da boca, limpei-o no guardanapo de papel e disse que sim, a chorar.
Era uma argolinha simples, sem pedra, sem nada. Parecia aliança de prata de quiosque de centro comercial. Na hora achei que combinava connosco. Singelo, discreto, romântico.
Um mês depois, vendeu o carro. Disse que a garagem do prédio só tinha uma vaga. Passou a usar o meu para tudo. Mas dividir a gasolina é que nada.
E assim começou. Renda no meu nome. Água, luz, gás, internet, eu pagava. Ele transferia a parte que achava justa.
Depois dizia: “Eu tomo banho de cinco minutos. Nem cozinho para gastar gás. É o teu secador que gasta tanta energia. Internet uso do meu plano de telemóvel.
” As compras de supermercado era eu. Ele às vezes mandava um Pix de cento e cinquenta reais e dizia: “Está bom assim, não? Eu como bem menos que tu. ” Eu ganhava quase o dobro dele.
E ele dizia com a maior cara de pau: “Vamos dividir proporcionalmente ao que ganhamos. ” Eu relevava. Pensava comigo: Luísa, antes pagavas tudo sozinha. Ao menos agora ele ajuda com uma parte.
É melhor que nada. Quem tem mais contribui com mais. Que idiota eu fui. E eu, analista financeira, deixava passar porque o amava.
Porque estávamos a construir uma vida. Porque os homens são assim, não é? Olho para trás e só me apetecia dar um estalo a mim mesma. Ao domingo era dia de jogo.
Ele chamava cinco ou seis amigos, todos com aquele ar de miúdos que nunca cresceram. Eu fritava pastéis, lavava os copos deles, e os amigos, sentados na minha sala, na minha poltrona, a comer a minha comida, chamavam-me “patroa” e soltavam umas pérolas. “Júnior, é difícil encontrar uma mulher assim. Hoje em dia as mulheres nem sabem fritar um ovo, quanto mais um pastel.
Tiraste a sorte grande. ” E o Júnior ria e concordava, como se ter uma mulher que trabalhava o dia inteiro e ainda o servia fosse mérito dele. Como se eu fosse um troféu ganho num jogo. E eu sorria.
Na altura até achava que eram elogios. Saía da sala toda vaidosa a pensar que os amigos dele me achavam uma ótima companheira. Sinceramente, mereci o que veio depois por ter engolido tudo calada, achando que aquilo era amor e cuidado. Há quatro meses, ele chegou a casa todo animado.
Tinha decidido fazer uma pós-graduação em gestão comercial, aulas à segunda, quarta e sexta, das sete às dez da noite. Saía do trabalho direto para a faculdade, voltava por volta das dez e meia, tomava banho e dormia. Fiquei orgulhosa. Pensei que finalmente se estava a mexer, a querer crescer na carreira.
A partir daí, começou a malhar mais, comprou roupa nova, começou a usar perfume importado. “A pós-graduação deu-me gás, amor”, dizia, a sorrir para o espelho enquanto arranjava o cabelo. E eu, idiota, achava ótimo. Ele estava a esforçar-se.
Poucas semanas depois, o Júnior chegou com outra novidade. “Amor, vou começar a ir a casa dos meus pais dois fins de semana por mês. O meu pai está a reformar a casa e precisa de ajuda, trocar o telhado, pintar paredes, essas coisas. E quero passar mais tempo com a minha família.
Não quero ser daqueles filhos que saem de casa e se esquecem dos pais. ” Que homem maravilhoso, pensei. Que filho dedicado. Abracei-o no meio da cozinha, disse que era o melhor homem do mundo, que a mãe dele o tinha criado muito bem.
O Júnior abraçou-me de volta com aquele sorriso de quem é o máximo. “Ah, Luísa, mas eu vou sozinho. Lá não vou conseguir dar-te atenção e ias-te aborrecer. Mas pensa no lado bom.
Vais descansar, ficar livre de mim uns dias. Aproveita o fim de semana, visita a tua mãe, faz coisas de que gostas. ” E assim começou. Duas vezes por mês, ele pegava na mochila à sexta à noite, dava-me um beijo e ia para casa dos pais no meu carro.
Eu aproveitava e ia para casa da minha mãe de Uber. Fazíamos limpeza juntas, víamos novelas antigas, comíamos bolo de fubá. E eu voltava ao domingo à noite para encontrar o Júnior todo cansado, a dizer que tinha trabalhado imenso. Só havia uma coisa que me incomodava um bocadinho.
Ele quase nunca atendia o telemóvel ao fim de semana. Dizia que a casa dos pais tinha pouco sinal, que o Wi-Fi era fraco, que só conseguia mandar mensagem de vez em quando. Eu acreditava. Afinal, estava a ajudar o pai.
Estava ocupado. E então chegou o fim de semana que mudou tudo. Era uma sexta à noite como outra qualquer. O Júnior arrumou a mochila, deu-me um beijo e disse: “Este fim de semana vou ajudar o meu pai a montar uns móveis novos que ele comprou.
Cuida-te, amor. ” E foi. Fiquei em casa porque a minha mãe tinha viajado para visitar a minha tia no interior. Pensei: ótimo, vou aproveitar e descansar.
Ver uma série, beber vinho, não fazer nada. Acordei no sábado por volta das sete, fiz café, sentei-me na cozinha e abri o Instagram enquanto o café arrefecia. E então vi os stories da tia Marlene, tia do Júnior. Eu nem a seguia.
Para ser sincera, nem sabia que ela tinha Instagram. Só a tinha visto umas duas vezes na vida. Mas o universo resolveu pôr o story dela no topo do meu feed naquela manhã. Sugestão de conta que talvez conheças.
Na hora nem estranhei. Só cliquei porque a primeira foto era de aeroporto e eu gosto de bisbilhotar viagens alheias. Foto dela no embarque internacional, mala, cara animada, óculos escuros. Ao lado de quem?
Os meus sogros. Os dois. Sorrindo, com a legenda: “Finalmente a viagem dos sonhos com a minha irmã e o meu cunhado. Portugal espera-nos.
” Li, reli, fiz zoom, confirmei a data. Passei o dedo no ecrã para ter a certeza de que eram mesmo aquelas pessoas. Era. Era a tia, era a dona Cleide e o seu Valdomiro.
Os três a embarcar para Portugal. O seu Valdomiro, o pai do Júnior, que ele supostamente estava a ajudar a montar móveis naquele exato fim de semana. Fiquei a olhar para a foto por largos segundos. Calma, pensei.
Será que o Júnior ficou sozinho em casa a montar os móveis? O pai viajou e deixou-o lá a trabalhar? Pode ser, não? Mas se os pais dele tivessem marcado uma viagem internacional, ele ter-me-ia contado.
Teria dito qualquer coisa. Senti qualquer coisa a descer do peito para a barriga, como se me tivessem posto um tijolo lá dentro. Mas calma, Luísa. Antes de surtares, de fazeres escândalo, de tirares conclusões precipitadas, confirma a história.
Peguei no telemóvel e mandei uma mensagem ao Júnior, muito casual. “Então, amor? Como está a montagem dos móveis com o teu pai? ” Pousei o telemóvel e fiquei à espera, já pronta para esperar horas.
Incrivelmente, o safado respondeu-me em dois minutos. “Nossa, amor, está difícil. Estamos aqui a quebrar a cabeça para montar um armário da lavandaria. Os meus pais estão aqui a mandar-te um beijo.
” Li a mensagem umas três vezes. Os pais dele estavam ali a mandar-me um beijo. E foi naquele segundo que percebi que estava a ser enganada. Não respondi.
Fiquei sentada na cadeira da cozinha uns quinze minutos a pensar: se ele não está em casa dos pais, onde está? Com quem está? E a resposta para todas essas perguntas, eu sabia que a encontraria num único lugar: no meu computador. Aquele onde eu tinha criado uma conta de utilizador só para ele jogar com os amigos.
Levantei-me devagar, fui até lá e sentei-me. Cliquei no perfil dele. Apareceu o ecrã de senha. Respirei fundo e comecei a adivinhar.
Primeiro, o aniversário da mãe dele. Errado. Segundo, o meu aniversário. Escrevi com esperança, achando que ele era romântico.
Errado. Ri sozinha, meio nervosa. Claro que ele não ia usar o meu. Talvez nem soubesse bem o dia do meu aniversário.
Terceiro, o aniversário dele. Errado. Número de tentativas excedido. Aguarde cinco minutos.
Merda. Levantei-me, andei pela sala, pensei em desistir, pensei em ligar e confrontá-lo. Mas depois lembrei-me. Lembrei-me dele a cantarolar.
Todas as vezes, todas, que ele se sentava ao computador para jogar com os amigos, cantava baixinho, automático, sem dar por isso. “2, 3, 4, 5, 6, 7, 8. Está na hora de molhar o biscoito. ” A mania mais parva dele, aquela que eu achava fofa.
Voltei para a cadeira quando passaram os cinco minutos. Olhei para o teclado e escrevi 2345678. Carreguei em Enter. O ecrã desbloqueou.
Soltei uma risada seca, meio doida. És um idiota, Júnior. A primeira aba aberta era o WhatsApp Web. A segunda, o Gmail.
A terceira, o Instagram. Tudo logado, tudo escancarado. E foi aí que conheci a “Barbosa”. Era a primeira conversa no WhatsApp.
A última mensagem dizia: “Já estás a vir? ” Abri a conversa e vi as últimas mensagens, enviadas ontem. “Barbosa” mandou: “Querido, já reservei o quarto de sempre no nosso hotel. ” O Júnior respondeu: “Perfeito, meu amor.
Estou a morrer de saudades. Mal posso esperar para te apanhar. ” “Eu também não aguento mais esperar. Não demores.
” Li aquilo umas três vezes. Quarto de sempre. Nosso hotel. Querido.
Meu amor. E a minha primeira reação foi: meu Deus, o Júnior está-me a trair com um homem. Juro que foi o que passou pela minha cabeça. É por isso que ele desaparece aos fins de semana.
É por isso que começou a cuidar-se mais, a usar perfume importado. Num momento, tudo fez sentido. A minha cabeça montou uma novela inteira. Já estava quase a chorar por ele, por ter de esconder a sexualidade de toda a gente.
Mas continuei a rolar a conversa para cima. E pouco antes do último áudio, apareceu uma foto de uma mulher loira, sarada, de biquíni fio dental, a posar diante do espelho de um ginásio. Rosto visível, sorriso convencido, mão na cintura. Uma mulher bonita.
E então vi que ele se referia a ela como Babi, Bárbara. Soltei o ar que estava a prender e depois soltei uma risada nervosa. Barbosa, uma ova. O sacana tinha mudado o nome da amante no WhatsApp para eu não desconfiar se aparecesse uma mensagem no ecrã dele.
Comecei a rolar a conversa. Foram cinco meses. A primeira mensagem dele era assim: “Olá, aqui é o Júnior do ginásio. Lembras-te de mim?
Arranjei o teu número com uma amiga em comum. Espero que não te importes. ” E ela respondeu: “Claro que me lembro. O moreno sarado da noite.
” A partir daí foi uma novela. Fotos de músculos, mensagens a pedir opinião disfarçadas de flirt, e marcaram uma aula particular num motel. E no meio de tudo, a parte que mais me destruiu foi esta: “Babi, tive uma ideia. Vou inventar para a minha noiva que comecei uma pós-graduação à noite.
Assim conseguimos escapar três vezes por semana sem ela desconfiar. ” A resposta foi: “És um génio, bebé. Estava complicado ficar a fazer escondido no ginásio. ” Eu tinha passado quatro meses orgulhosa, a pensar que aquele homem se dedicava aos estudos.
Passei quatro meses a deixar o jantar quentinho para quando ele chegasse. Continuei a rolar. Encontrei vídeos que gravaram juntos no ginásio e num quarto de hotel. Encontrei-o a falar mal de mim.
“Poxa, Babi, queria que a minha noiva fosse mais como tu. Ela é tão chata, tão sem graça. Só fala dela, do trabalho, do buffet do casamento. Só a aguento porque a minha família a adora e sei que seria uma ótima esposa para cuidar de mim.
Mas contigo é diferente. És selvagem. ” Eu reli aquilo umas cinco vezes. Ele achava que eu era ótima para cuidar dele.
Não uma parceira, não uma companheira, não o amor da vida dele. Uma esposa-mãe, uma mulher que paga a renda e faz as tarefas de casa. E a Babi era a amante selvagem. A única vez em que veio uma lágrima, mas respirei fundo, engoli e continuei, porque já tinha entendido uma coisa muito importante.
Aquele noivado nunca foi amor. Era conveniência. Ele ia casar comigo porque eu era a esposa perfeita, a que a mãe dele aprova, a que paga as contas enquanto ele se diverte. E o pior foi a resposta dela: “Ah, eu entendo-te.
Eu também odeio o meu marido. Ele tem quase a mesma idade do meu pai. Só continuo casada porque ele me dá uma vida de rainha, mas na cama é um horror. ” Ela era casada por interesse.
Naquele momento, uma ideia começou a formar-se na minha cabeça. Não era um plano inteiro ainda. Era uma fagulha. Mas para pôr qualquer plano em prática, precisava de descobrir quem era cada pessoa naquele teatro.
Abri o Instagram do Júnior, que estava logado. Procurei por Bárbara. Apareceu Bárbara Mendes, personal. A foto parecia com ela, vinte e cinco anos, personal trainer na academia Top Fitness, biografia: “amante da vida fitness, esposa do amor da minha vida, Rogério Mendes.
” Encontrei o Rogério Mendes. Homem de uns quarenta e cinco, cinquenta anos. Cabelo grisalho bonito, cara de senhor bem tratado. Foto de fato, foto com filhos, foto com a Bárbara, todo orgulhoso a abraçá-la.
Biografia: “empresário, Grupo Mendes. Distribuidora. Pai, marido, apaixonado pela vida e pela esposa. ” Coitado daquele homem.
Pesquisei-o no LinkedIn. CEO do Grupo Mendes Distribuidora. E ali, nas informações de contacto, o e-mail pessoal dele. Corajoso pôr o e-mail pessoal no LinkedIn, seu Rogério.
Corajoso. E naquele momento, útil demais para mim. Levantei-me, fui à cozinha, aqueci o café gelado e sentei-me com um caderno em branco à frente. Comecei a pensar.
A primeira ideia veio rápida: mandar um e-mail ao marido dela com tudo, fotos, vídeos, áudios, prints. Depois mandar e-mail à academia mostrando que eles faziam sexo lá dentro escondido. Acabava com a vida da Bárbara com dois e-mails. Mas o plano tinha um problema.
Nesse plano, só a Bárbara sofria. Ela perdia o marido, o emprego, a reputação. Mas e o Júnior? O Júnior nem era afetado.
Talvez apanharia do marido, mas duvido que aquele senhor arriscasse. Precisava de algo que apanhasse os dois ao mesmo tempo, que fizesse o Júnior afundar-se com ela, sem perceber de onde veio a tempestade. Pensei, pensei. E se?
Levantei-me num impulso, fui direta ao computador. A tela ainda estava desbloqueada. Abri o Gmail dele e comecei a escrever num rascunho. “Seu Rogério, o meu nome é Júnior da Silva.
Estou a ter um caso com a sua esposa Bárbara há quatro meses. Ela esteve comigo neste fim de semana, enquanto o senhor estava a viajar com os seus filhos. Já passou da hora de saber a verdade. Quero que aceite divorciar-se dela sem dificultar, deixe-lhe uma pensão generosa e a casa no nome dela, para podermos morar juntos.
Em anexo, fotos que ela me mandou, um vídeo nosso e um print em que ela diz que não aguenta mais ficar consigo. ” Anexei tudo e programmei o envio para segunda-feira, oito da manhã em ponto. Depois, o e-mail para a academia Top Fitness. “Bom dia.
Aqui é o Júnior da Silva, aluno anual. Informo que estou numa relação séria com a personal trainer Bárbara Mendes há quatro meses. Peço que a direção a oriente a atender apenas alunas do sexo feminino, para preservar a nossa relação. Peço também uma cópia da chave da sala de artes marciais, para podermos trancar a porta quando quisermos ter relações, sem medo de sermos apanhados, o que quase aconteceu na semana passada.
O tatame é muito confortável. ” Anexei as fotos dos dois dentro do ginásio, o selfie no espelho da sala de musculação, outra a beijarem-se na sala de artes marciais. Programmei o envio. Segunda-feira, oito da manhã, à mesma hora do e-mail do Rogério.
Dois prontos. Faltava um. Mas esse último deixaria para domingo à noite, depois de o Júnior me mandar mensagem a avisar que estava a voltar. Ele avisava sempre com hora e meia de antecedência, porque queria o jantar pronto à mesa.
Ao domingo, pelas oito da noite, o telemóvel vibrou. “Amor, estou a sair já. Chego em hora e meia. Faz aquele estrogonofe de que eu gosto.
” Nem respondi. Fui ao computador completar a terceira parte do plano. Abri o site de acompanhantes. Criei um anúncio com os serviços da “personal trainer Babi Fitness”.
Fotos dela de calções apertados e top, que ela própria postara no Instagram. Adicionei o telefone dela e a descrição: “Personal trainer, vinte e cinco anos. Dou aulas particulares a sedentários carentes. Atendo em motel ou hotel.
Horário flexível, incluindo madrugada. Aceito cartão, dinheiro ou Pix. ” Publiquei, apaguei o histórico, desliguei o computador e fui tomar um banho demorado. Deitei-me e esperei.
O Júnior chegou por volta das dez. Fez de conta que dormia. Ouvi-o entrar, bater a porta, largar a mochila, ir à cozinha, abrir o frigorífico, fechar o frigorífico, resmungar baixinho. Arrumou um miojo, bufou, veio para o quarto.
“Luísa, já estás a dormir? ” Resmunguei. “Estou. ” Não insistiu, suspirou alto e foi tomar banho.
Cinco minutos depois, deitou-se ao meu lado sem ter comido nada. Percebi logo que havia qualquer coisa a incomodá-lo. Mexia-se na cama, puxava o lençol, virava-se, olhava para o teto, olhava para o telemóvel. O tipo de inquietação de quem brigou com alguém e não consegue desligar a cabeça.
Virei-me e dormi. Segunda-feira, sete e quarenta da manhã. O Júnior ao volante do meu carro com a mesma cara emburrada da noite anterior. Nem ligou o rádio, nem cantarolou.
Dirigiu o caminho inteiro em silêncio, com o maxilar travado. Nós não falámos. Chegámos às oito. Ele subiu para o andar dele, eu para o meu.
Enquanto subia no elevador, pensei: neste exato momento, os e-mails estão a sair da caixa de saída do Gmail dele. O dia foi o mais longo da minha vida. Por fora, trabalho normal. Planilha, reunião, café.
Por dentro, imaginava: será que o Rogério já abriu o e-mail? A academia já despediu a Bárbara? Quantos homens já mandaram mensagem a querer marcar uma aula particular? Quando bateu seis e um quarto da tarde, juntei as minhas coisas.
Os funcionários começaram a descer em bloco para o parque. Eu e o Júnior saímos juntos, ele a comentar o que acontecera no trabalho. Atravessámos a portaria e saímos para o passeio. E foi aí que a vi.
A Bárbara parada em frente ao portão. Pelo visto, tinha vindo direta do ginásio. Usava um macacão de ginástica coladíssimo, a marcar cada músculo, cada curva. Ténis de treino, cabelo preso num rabo de cavalo, braços cruzados e um olhar que furava metal.
Fingi que não a conhecia e continuei a andar. Foi quando ela avançou. “Júnior, seu canalha. ” O Júnior parou, congelou.
Ela aproximou-se e deu-lhe um estalo na cara. Forte, seco, daqueles que se ouvem de longe. As pessoas pararam. Os seguranças viraram a cabeça.
Cinco, seis telemóveis saíram dos bolsos em menos de dois segundos. “Arruinaste a minha vida, desgraçado. Vou arruinar a tua. ” O Júnior, com a mão no rosto, gaguejou: “Babi… do que estás a falar?
” “Do e-mail que mandaste ao meu marido e à academia. Despediram-me hoje. Não mandei e-mail nenhum. Para de mentir.
” “Não mandei nada, sua louca. ” “E ainda me cadastraste num anúncio de acompanhantes. O meu telefone não para de tocar. Tudo porque eu disse que não era exclusiva tua.
Vingaste-te de mim. És um miúdo. ” Ele congelou por um segundo e depois virou-se para ela em pânico: “Bárbara, aqui não. Vamos conversar num sítio mais reservado.
” A Bárbara não queria conversa reservada. Virou-se para mim. “Tu és a Luísa? ” Eu, a fingir que não entendia nada, respondi: “Sim, sou.
E tu quem és? ” “Sou a mulher que estava a ter um caso com o teu noivo há quatro meses. ” Levei a mão à boca, no meu melhor papel de mulher traída. “O quê?
” O Júnior, em desespero: “Amor, esta mulher é louca. É uma personal do ginásio, obcecada por mim. ” A Bárbara riu. “Obcecada por ti?
Ou é o contrário, Júnior? Ontem eu disse que não ia ser exclusiva tua e resolveste destruir-me. Agora estou sem casa, sem emprego, sem dinheiro. ” “E por que achas que fui eu?
” “Porque a academia despediu-me depois de receber um e-mail teu a pedir a chave da sala de artes marciais para termos mais privacidade. Porque o meu marido recebeu um e-mail com fotos que só te mandei a ti, com prints em que falo mal dele, com vídeo, tudo. Mandou-me sair de casa até amanhã. E agora recebo mensagens de homens estranhos a querer contratar-me como acompanhante.
Alguém me cadastrou num site. E tens coragem de me dizer que não foste tu? ” E aí começou a melhor parte. O Júnior, vendo-se encurralado, fez o que todo homem daquele tipo faz quando é apanhado em público.
Tentou virar a culpa para a mulher. “Tu andas com um monte de homens e achas que fui eu? Quem garante que não mandaste essas fotos a mais alguém? ” “Não percebeste, idiota.
Dá para mudar o remetente de qualquer e-mail. Foi um dos caras que tu apanhas por aí, cheio de ciúmes de mim. ” “Sai daqui, eu não tenho nada a ver com isso. ” A Bárbara ficou vermelha de raiva.
“Não saio nada. Agora que não tenho o meu velho para me sustentar, vais-me sustentar tu. ” “Estás louca? ” “Tu querias tanto que eu fosse exclusiva tua, não era?
Pronto. Por tua causa estou solteira, sem casa, sem emprego. Agora bancas-me. ” Pensei comigo: ele não consegue bancar-se a si próprio.
“Não vou bancar mulher nenhuma, ainda mais uma interesseira rodada como tu. Vai procurar outro otário. ” “Interesseira, eu? E tu, que estás com a tua noiva porque ela te banca?
” Nesse segundo percebi uma coisa engraçada. A Bárbara tinha-se ofendido mais com “interesseira” do que com “rodada”. A segunda, já devia ter aceitado. Continuei com o choro falso, os ombros a tremer, a mão no rosto.
A Bárbara olhou para mim com pena verdadeira. “Pois é, amiga. Foge desse homem. Ele é lixo.
Espero que não use as tuas fotos contra ti também. ” Pensando bem, ela só era a última a saber que toda a gente andava a mandar fotos. O Júnior explodiu: “Cala a boca, Bárbara, sua pu…” Mas não acabou a palavra, porque a Bárbara, naquele exato segundo, lhe acertou um joelho com toda a força entre as pernas. As pessoas à volta soltaram um “uii” coletivo.
Os homens encolheram-se. O Júnior dobrou-se, caiu de lado no asfalto e ficou ali a fazer um ruído que eu nunca tinha ouvido. Nem humano, nem animal. A Bárbara saiu a pisar forte.
Os seguranças afastaram-se para ela passar. Os comentários pipocaram. “Meu Deus, ele nunca mais tem filhos. ” “E eu que vim trabalhar hoje a achar que ia ser um dia chato.
” E, como se não pudesse ficar pior, passou uma senhora a passear com um pincher na trela. O cão viu o Júnior deitado no asfalto à altura perfeita e fez o que os cães fazem. Subiu-lhe à perna e começou a acasalar com toda a dedicação canina do mundo. A senhora puxou a trela.
“Osvaldo, sai daí. Não é hora. ” Olhou para o Júnior sem graça. “Foi mal, moço.
Boa tarde. ” E continuou o passeio, a puxar o Osvaldo, que ainda olhava para trás com cara de apaixonado. O Júnior ainda no chão, a segurar as partes com uma mão e a tentar limpar as calças com a outra. Os telemóveis à volta gravavam tudo.
Tive de segurar o riso com todas as forças. Olhei para ele no chão. “Quero que saias do meu apartamento hoje. O noivado acabou.
” Ele, ainda de joelhos, quase a chorar de dor: “Amor, espera, eu posso explicar. ” “Não me chames amor. Esquece-me, Júnior. ” Tirei o anel, aquela argolinha ridícula, e atirei-lho à cara.
E, a falar em chaveiro, abaixei-me, tirei-lhe do bolso o porta-chaves, retirei a chave do apartamento e a do carro e atirei-lhe o resto ao colo. “Estas são minhas, Júnior. Boa sorte com o resto. ” Virei as costas, entrei no meu carro e fui embora sem olhar para trás.
Duas horas depois, ele apareceu no apartamento. Tocou à campainha várias vezes. Quando abri, estava com uma cara que misturava pânico, dor e tentativa de manipulação. “Amor, por favor, deixa-me explicar.
” “Já te disse para me esqueceres. ” “Luísa, isto é uma armação. Ela é que era obcecada por mim. Tens de acreditar.
” “Júnior, pega nas tuas coisas e sai já da minha casa. ” “Mas eu não tenho para onde ir. ” “Vai para casa dos teus pais. ” Ele soltou sem pensar: “Mas os meus pais só voltam de Portugal na quarta.
” Silêncio. Eu olhei para ele. Ele olhou para mim e percebeu. A cara que fez foi o momento exato em que o homem percebe que se entregou sozinho.
Não disse nada. Não precisei. Baixou a cabeça, foi para o quarto e começou a arrumar as malas em silêncio. Meia hora depois, apareceu na sala com duas malas, uma mochila e a consola.
“Luísa, podes dar-me boleia para casa de um amigo? É muita coisa para levar de Uber. ” Levantei-me do sofá, fui à porta, abri e apontei para fora. “Adeus, Júnior.
” Ele saiu com cara de cão abandonado e eu fechei-lhe a porta na cara. Da janela, via-o na calçada com as malas, a discutir com vários motoristas de Uber que se recusavam a levá-lo. Foram três até ele desistir e pedir um Uber Bag. Assisti a toda a novela com uma taça de vinho na mão.
Na terça de manhã, entrei na empresa de cabeça erguida. Toda a gente olhava para mim. O vídeo do barraco já tinha corrido em cinco grupos de WhatsApp da empresa. A Fernanda do financeiro puxou-me no corredor.
“Luísa, ouviste a novidade? ” “Que novidade? ” “O Júnior foi despedido hoje de manhã por justa causa. Mal chegou, já tinha uma carta em cima da mesa.
Dizem que a direção viu os vídeos ontem e nem quis conversa. ” Fiz cara de surpresa contida e fui para a minha mesa. O Júnior ficou em casa de um amigo uns dias e voltou para os pais quando eles regressaram de Portugal. Tentou arranjar emprego em três empresas concorrentes.
Nenhuma o chamou. Pelo Instagram da Bárbara, acompanhei de longe. Postou uns stories a chorar. “Um idiota arruinou a minha vida.
Não se pode confiar em marmanjos. ” Até que um dia resolveu fazer um vídeo a contar a história, a fazer-se de vítima. O vídeo viralizou. Caiu em canais de fofoca, de desabafo, em podcasts de relacionamento.
O público estava dividido. A Bárbara virou mocinha e vilã ao mesmo tempo. Em todos os vídeos, dizia o nome completo dele, marcava o Instagram, o bairro, e pedia às mulheres que se afastassem. Os seguidores que a apoiavam entravam no perfil do Júnior para o ameaçar.
Ele acabou por bloquear o perfil. Um mês depois, ela já postava fotos com um namorado novo, um senhor de uns sessenta anos, desses reformados de bolso cheio, cabelo branco, cara de quem paga tudo sem reclamar. Postava fotos em restaurantes caros, na praia, com joias novas. “Agradeço a Deus pelo homem que ele colocou na minha vida.
” Coitado do senhor, nem imaginava no que se tinha metido. Mas cada um sabe o que faz. Um dia, num evento empresarial, vi o Rogério Mendes de longe. Bem vestido, sorriso tranquilo.
Ao lado dele, uma mulher jovem, loira, escultural. Parecia uma versão melhorada da Bárbara. Pelo visto, ele gostava de um tipo de mulher. Tomara que essa não fosse igual à anterior.
Ele olhou na minha direção, passou os olhos por mim, mas não sabia quem eu era. Sorri discretamente e segui o meu caminho, porque no fim das contas, às vezes a melhor vingança é aquela que ninguém sabe que foste tu. Ainda hoje eles contam a toda a gente que foram vítimas um do outro. Deixo-os continuar a pensar isso.
Afinal, quem sou eu para discordar?