No jantar de aniversário da minha sogra, ela jogou o meu presente numa mesa lateral e disse: “A gente não exibe coisas de baixo nível como essa. ” O meu marido pousou o copo. Toda a sala tinha ouvido. A Regina estava no seu elemento, como sempre, rodeada de toalhas brancas de linho, flores a mais e um bolo com acabamento dourado que parecia custar mais do que o meu primeiro carro.

Era o 50. º aniversário de casamento dela e do Horácio, em Campinas, e a casa estava cheia de gente que achava que conhecia a Regina de sempre. Ela já tinha erguido um vaso de cristal fino, virado para a luz e dito: “Agora isto sim é uma coisa que eu posso usar. ” A Sabrina, a minha cunhada, deu-lhe uma bolsa de grife que rendeu um beijo em cada face e uma conversa de cinco minutos sobre onde ela tinha comprado.
Depois chegou a minha vez. O presente estava embrulhado em papel de arquivo castanho, liso, com uma fita creme. Eu mesma o tinha embrulhado na minha loja. A Regina olhou para o pacote, depois para mim, e ofereceu-me aquele sorrisinho que ela tinha aperfeiçoado ao longo de dezassete anos.
Não era rude o suficiente para ser citado depois. Apenas o suficiente para nos fazer sentir pequenos. “Está bem rústico”, disse ela. “Protege a moldura”, respondi eu.
A Sabrina riu. “Claro. A Clarissa embrulha o próprio presente. ” Eu sorri, porque era o que eu costumava fazer.
O Vicente, o meu marido, estava ao meu lado com um copo de chá gelado. Ele olhou para a irmã. “Ela tem uma loja de molduras. ” “Eu sei, Sabrina”, respondi.
“É por isso que é engraçado. ” Eu podia ter explicado que também restaurava pinturas, fotografias antigas, documentos de época e, de vez em quando, uma Bíblia de família que o neto de alguém tinha guardado num porão húmido durante vinte anos. Mas não expliquei. A Regina seguiu em frente.
Abriram-se outros presentes. Um fim de semana numa fazenda de luxo, um jogo de taças de cristal, uma bandeja de prata para servir. Então a tia Dirse apontou para o meu pacote. “Regina, não vais abrir o da Clarice?
” A Regina virou-se para a mesa lateral, como se tivesse esquecido que o pacote existia. Pegou nele por meio segundo. Achei que ela ia mesmo desatar a fita. Em vez disso, olhou para o papel, depois para mim.
Depois colocou-o na mesa lateral. Não com delicadeza. “A gente não exibe coisas de baixo nível como essa. ”
A sala ficou quieta.
Não a quietude confortável, mas a dramática. O tipo de silêncio em que toda a gente subitamente se interessa pelo copo de água. Ouvi alguém arrastar uma cadeira. A Sabrina soltou uma risadinha nervosa.
“Ai, mãe. ” A Regina encolheu os ombros. “Mas a Clarice sabe que eu sou exigente. ” E lá estava a desculpa de sempre.
A Regina era exigente. A Regina era direta. A Regina não queria dizer nada com aquilo. A Regina vinha de outra geração.
A Regina era só a Regina. Durante 17 anos, as pessoas tinham arranjado novas maneiras de dizer a mesma coisa: engole o insulto para o resto de nós poder aproveitar o jantar. Eu abri a boca para fazer exatamente isso. “Está tudo bem?
” perguntou o Vicente. Eu olhei para ele. Ele não estava a falar comigo. Ele estava a falar com a mãe.
“Não”, respondeu ele. O Vicente pousou o copo. Atravessou a sala, pegou no meu pacote da mesa lateral e enfiou-o debaixo do braço. “Estamos a sair.
” A Regina piscou. “Ai, Vicente, não sejas dramático. Tu nem abriste. Ela sabe que eu sou exigente.
” “Não, mãe. ” A voz dele não estava alta. Isso piorou. “Estás a ser rude”, disse a Sabrina, endireitando-se.
“Vicente”, tentou ela. Ele olhou para a irmã. “Não. Esta noite não.
”
O Horácio, o meu sogro, tinha estado calado o tempo todo. Parecia mais cansado do que qualquer outra coisa. Sentou-se com o olhar no bolo, como se estivesse a fazer contas de cabeça. Eu olhei pela janela do carro, na estrada escura, e vi os faróis a deslizarem por nós.
O Vicente conduzia em silêncio. “Eu sei”, disse eu, por fim. “Eu sei. ” Era mais fácil do que admitir que ele entendia, e que tinha decidido que o silêncio era mais barato.
O presente que a Regina tinha rejeitado com tanto desprezo era um quadro. Não era uma tela qualquer. Era um Vasconcelos, um pintor de que ela própria falava nas reuniões de família há anos. Eu tinha demorado oito meses à procura daquela peça.
Oito meses de buscas, duas viagens para fora do estado, mais telefonemas do que eu queria lembrar, até que finalmente apareceu num leilão de espólio na cidade vizinha, numa casa antiga cujos herdeiros vendiam tudo por um preço ridículo. O quadro tinha vindo numa moldura antiga, coberta de pó, com uma placa de latão desbotada no verso. Eu reconheci a assinatura do Vasconcelos debaixo da sujidade antes de o vendedor me dizer o preço. Não foi o preço que me fez comprá-lo.
Foi a memória. Anos antes, o Vicente tinha-me mostrado uma fotografia antiga da Regina. Nela, a minha sogra, com doze anos, estava de pé ao lado do pai, na sala de estar da casa antiga, com um plátano à beira do riacho ao fundo. Ela sempre amara aquele plátano.
Na fotografia, pendurado na parede da sala, estava o quadro do Vasconcelos. A casa do pai da Regina, o avô da Clarissa, nunca foi vendida com o conteúdo. Quando ele morreu, o espólio foi disperso. A Regina nunca o admitiu em voz alta, mas eu sabia que sentia falta daquela imagem.
Eu tinha digitalizado a fotografia, colocado o original numa luva de arquivo e devolvido à caixa onde a tinha encontrado. E comprei o quadro. Fiz uma reparação leve da moldura, limpei a superfície sem tocar na pintura original, e guardei o quadro na minha loja até ao aniversário. Atrás da moldura, na parte de trás, eu tinha escondido duas coisas.
Um recibo antigo da galeria de arte que tinha vendido o quadro originalmente e um bilhete curto, escrito à mão pelo pai da Regina. Na fotografia digitalizada que eu tinha mostrado ao Vicente, o papel aparecia dobrado por baixo do papel de parede solto, como se o avô da Clarissa o tivesse escondido ali de propósito. Eu não o tinha lido. Não me parecia correto.
Mas o receio da Regina era dele, não meu. E eu sabia que, se ela alguma vez o lesse, perceberia que o pai a amava mais do que ela pensava. No carro, a caminho de casa, eu disse ao Vicente: “O presente era o Vasconcelos. ” Ele franziu o sobrolho.
“O quê? ” “O quadro que ela sempre mencionou. O da casa do papá. Eu encontrei-o num leilão.
Passei meses à procura. ” Ele ficou em silêncio durante uma curva. Depois disse: “Porque é que não disseste nada? ” “Eu queria ver a cara dela quando o abrisse.
” Ele abanou a cabeça devagar. “Ela não vai ligar a isso. Ela vai continuar a achar que é uma impressão barata que encontraste num saldo. ” Eu não respondi.
Exatamente naquela noite, não. Dias depois, na terça-feira, eu estava no meu atelier, no meio de uma moldura de iniciação, quando o telefone tocou. Era a Cláudia, a mulher do meu irmão. “Já viste o Facebook da Regina?
” Eu disse que não. “Ela escreveu um discurso. O Vicente está irritado. Ela tem estado a partilhar publicações sobre ‘gente que aparece com presentes de feira’ e ‘falta de respeito pela senioridade da família’.
” Eu ri, sem vontade. “Deixa estar. Vai-se passar. ”
Na quarta-feira, eu estava a começar a achar que o pior podia apagar-se sozinho.
A hora do jantar, cheguei ao atelier e encontrei uma mensagem da Flora, a neta do avô da Regina. “Espera. Já estou a ir para aí. O quadro.
Tu encontraste o quadro? ” “Apareceu”, respondi. “Mas como? ” “Eu explico pessoalmente.
” Houve silêncio. “Preciso de ver. Preciso de saber. ”
A Flora apareceu no dia seguinte.
Na casa antiga do bisavô, contou-me ela, os herdeiros tinham vendido a mobília quando a casa foi vendida, e o quadro tinha ido com eles. Tinha passado por uma sucessão de antiquários, leilões, e um sótão húmido, até que acabou num leilão de espólio. “A avó nunca mais falou nele. Mas eu lembro-me de a ver à janela da casa do pai, a olhar para a fotografia.
” Eu mostrei-lhe o quadro. Ela tocou na moldura com a ponta dos dedos. “Ele ficava ali. Ao lado do candeeiro.
” “Eu sei. Eu encontrei-o. E encontrei isto na parte de trás. ” Mostrei-lhe o recibo e o bilhete.
Ela leu o bilhete uma vez, depois duas vezes. “O pai dela escreveu isto? ” “Parece. ” Ela olhou para mim com uma expressão que eu não consegui decifrar.
“A gente tem de mostrar isto à minha avó. ”
No domingo, apareceu uma mensagem da Flora. “Brunch de família, domingo, sala privativa no clube de campo de Valinhos. É uma surpresa.
” Eu levei a pasta com as cópias do anúncio do espólio, o registo antigo da galeria, a nota de restauração e os e-mails, mostrando há quanto tempo eu procurava o quadro. A Sabrina sentou-se do outro lado da mesa com um blazer creme, parecendo que se tinha vestido para uma reunião de diretoria. Depois viu a pasta por baixo do meu braço. “Isso é para mim?
” perguntou ela. “Não é uma discussão, Sabrina. É uma explicação. ” “Ótimo.
Porque eu não estou interessada em ouvir como a nossa mãe é ‘complicada’. Outra vez. ”
Aparentemente, o brunch foi adiado até depois do tribunal familiar. A Regina entrou com uma das suas roupas de linho, sentou-se e pediu café.
“Então, Clarice. Soubeste que o Vicente te defendeu. ” “Ele não teve de me defender”, respondi. “Eu não estava a atacar ninguém.
” “Disseste que ele ficou magoado. ” Ela disse aquilo como se magoar o meu marido fosse o único erro possível. Eu peguei na pasta. “Regina, o presente que tu rejeitaste era um Vasconcelos.
” Ela piscou. “O quê? ” “O quadro que tu tens mencionado há anos. O da casa do teu pai.
Eu encontrei-o num leilão de espólio. Eu passei semanas à procura dele. Estava numa moldura antiga, com as suas iniciais gravadas. Eu tive de o fazer limpar, mas não consegui terminar a tempo.
No fim de semana, ia-te dar o recibo e a carta. ” Dobrei os e-mails. “Isto é o anúncio do espólio. Estes são e-mails do arquivo da galeria.
” Empurrei os papéis para ela. Ela não os tocou. “O quadro mais importante da tua família. Do teu pai.
” Ela ficou imóvel. “Ele escreveu-me uma carta? ” “Escreveu. Está escondida atrás do quadro.
Eu encontrei-a quando estava a limpá-lo. ” “E tu leste? ” “Não. Pertencia a ti.
”
Aquilo pareceu incomodá-la mais do que se eu tivesse dito não. Ela olhou para o vilão, depois para mim. “Estás a tentar comprar o meu perdão. ” “Eu não quero o teu perdão.
Tu tens mais de quarenta anos. Tens uma neta que te ama. Tens um marido que não levanta a voz por ninguém e levantou-a por ti. E eu passei meses à procura de um quadro para a família do homem por quem me apaixonei, porque tu o mencionaste num jantar há cinco anos.
Eu não tento comprar-te nada. Eu estava a tentar dar-te uma coisa que o teu pai te deu e que tu nunca aceitaste. ” Ela pegou na carta. Dobrara-a ao meio ao longo de uma dobra antiga, um papel fino e amarelado.
Sentou-se e leu. Eu não a observei. Observei o café. “Não está tudo bem”, disse ela finalmente.
O “eu sei” que eu queria dizer morreu-me na boca. “Eu sei que não está”, respondi. Toda a mesa estava em silêncio. A Sabrina olhou para a mãe com uma expressão que eu nunca lhe tinha visto.
Não era raiva. Era pena. “Mãe, que disseste ao pai durante todos estes anos? ” perguntou ela baixinho.
A Regina não levantou os olhos. “Ele escreveu isto antes de adoecer. Ele sabia que eu achava que ele tinha vergonha de mim. Ele escreveu que nunca mais me deixou entrar na oficina porque me temia por mim.
” A sua voz falhou. “Ele dizia… que eu tinha jeito com as pessoas e que não queria que eu acabasse como ele. Soldador. Sem educação.
Ele dizia que me via a estudar, a casar, a ter uma casa bonita e que tinha medo de me atrapalhar. ” Ela olhou para a carta, depois para mim. “E eu passei a vida inteira a tentar provar que ele estava enganado. ” “E conseguiste”, disse eu baixinho.
Ela riu, um som rasgado. “E consegui o quê? Convencer toda a gente de que eu era uma sem coração? ” Eu não respondi.
“Porque não me deixaste ficar com esta carta há mais tempo? ” perguntou ela, num tom subitamente duro. “Porque a encontraste agora, Regina. Quando eu a encontrei, estava escondida atrás da proteção do quadro.
O teu pai escondeu-a ali há trinta anos. Eu só a encontrei porque o levei para limpar a moldura. ” Ela olhou para a carta, para mim, para o vazio. “E tu?
Sabias o que ela dizia? ” eu. “Eu sabia que era importante. Não o li.
” “E porque é que fizeste isto tudo? ” “Porque não queria que a tua tristeza fosse a última palavra. ” Ela olhou para mim durante muito tempo. Depois dobraram a carta, com cuidado, e puseram-na ao lado do prato.
“O quadro”, disse ela. “Onde está? ” “Na loja. Queres ver?
” Ela assentiu. “Sim. Mas não agora. ” Havia algo na voz dela que eu não consegui reconhecer.
“Agora quero ficar aqui sentada. Como se tivesse perdido e ganho alguma coisa ao mesmo tempo. ”
A Flora tinha-me prometido uma coisa antes do brunch: “Se ela não aceitar o quadro, eu aceito. Mas a verdade tem de ser dita.
” Eu tinha-lhe mostrado o bilhete do avô e uma fotografia antiga da Regina ao lado do pai. “A mãe vai ter de escolher. Ela é o retrato dele. ” E naquele brunch, eu percebi que ela estava certa.
A verdade, disse eu, “tem de ser dita. ” A Regina assentiu lentamente. “Ajudas-me a pendurá-lo? ” “Podia ajudar”, respondi.
“Mas gostava que o fizesses tu. ”
Ela olhou para mim com uma expressão que não era a que eu esperava. Não era gratidão, nem raiva. Era mais como se finalmente me tivesse visto.
“Soubeste durante quanto tempo eu procurei aquele quadro? ” disse ela num tom mais suave. “Eu não sabia que era um Vasconcelos. Achei que eras tu a tentar ser mais esperta do que és.
” “Eu sei. Eu percebo. ” Ela inclinou a cabeça. “E mesmo assim fizeste isto.
” “Mesmo assim fiz. ”
Na terça-feira, voltei ao atelier. Tinha o quadro encostado à parede, ainda na moldura antiga. A Flora apareceu com o sítio onde agora vivia a mãe, num pequeno apartamento com grandes janelas.
Regina chegou calada, sentou-se ao lado da mãe na cadeira da janela e olhou para o quadro. “Ele esteve na casa do avô a vida toda”, disse a Flora baixinho, para mim. A avó não disse nada. Ficou apenas sentada, a olhar para o quadro, com uma expressão distante, como se estivesse a reconstruir um lugar que desaparecera.
Depois a Regina desviou o olhar da tela e olhou para mim. “Obrigada. ” Era a primeira vez que ela me dizia obrigada sem ser por uma prenda. Eu fiz que sim com a cabeça.
Quando saí, no domingo à tarde, ela estava à porta do clube com o casaco na mão. Parou, olhou para mim, para o carro do Vicente que se aproximava à porta principal. “Ele sempre foste tu, não foste? O meu filho.
” “Ele é o teu filho também”, respondi. Ela assentiu devagar. “Pois é. Isso não se perdeu.
” Entrou para o carro dele sem dizer mais nada. Eu fiquei no degrau do clube até o carro desaparecer, com uma sensação estranha de que a trégua, se era aquilo, começava com uma janela que eu finalmente tinha aberto. Na loja, desliguei o sinal de aberto e sentei-me no banco alto, a olhar para o quadro encostado à parede. O bilhete do pai dela continuava onde eu o tinha posto, atrás do painel de proteção.
Dali a poucos dias, combinámos que o quadro iria para casa da Regina. Eu ia entregá-lo depois do trabalho. O património da família, a fotografia que ela passou anos sem olhar, o bilhete que a obrigou a ouvir. Mas antes de ir, naquela manhã, recebi uma mensagem da Flora.
“Obrigada por não a deixares destruir isto. ” Segurei o telefone e respondi: “Não fui eu. Foi o avô. ”
Quando o quadro finalmente foi entregue, era dezembro.
O horário de inverno dava tons acobreados através da janela da sala da Regina. Eu cheguei mais cedo e encontrei a porta entreaberta. Ela estava sentada no sofá, de frente para a parede agora vazia onde o quadro deveria estar. Ao meu lado, empurrou uma caixa de papelão.
“Onde é que isto esteve enterrado? ” perguntou ela, não com raiva, mas com uma curiosidade genuína. “Eu não sabia que estava lá”, respondi. Ela pegou na fotografia do avô, o rosto virado para a janela.
“Ele dizia que a casa ficava bem com esta luz. ” “E fica. ”
A Regina olhou para a fotografia, depois para mim. “Disseram-me um coisa, durante anos.
‘A Regina não gosta de antiguidades. ’ ‘A Regina não guarda o passado. ’ Eu repeli-me duas vezes. Primeiro quando vendi a casa.
Não por causa do dinheiro. Porque já não sabia onde pôr as memórias. ” Ela tocou na moldura com a ponta dos dedos. “E depois quando te disse que o presente era de baixo nível.
” Eu sentei-me ao lado dela. “A gente não diz essas coisas sem saber o que se vai perder. ” Ela assentiu devagar. “Eu sei.
Mas eu achei que sabia o que valia cada coisa. E eu estava enganada. ”
O quadro do Vasconcelos passou as semanas seguintes encostado à parede da sala dela, à espera do lugar certo. Da terceira vez que fui lá a casa, ela disse: “Achas que ele gostava de saber que ficou aqui?
” “Gostava. O teu pai gostava de ti. Ele escreveu isso, Regina. ” Ela olhou para a carta.
“Eu tenho de ler isto muitas vezes para começar a acreditar. ” “Talvez seja por isso que ele te deixou a carta. ” Ela assentiu. “Talvez.
”
Na véspera de Natal, recebi uma fotografia no WhatsApp. Era o quadro, pendurado na parede da entrada, no ponto onde a luz da tarde batia diretamente na tela. Ao lado, a carta do pai, emoldurada na mesma moldura simples. A legenda dizia: “Obrigada por no fim das contas me devolveres o que eu pensava ter perdido.
” Eu fechei os olhos. Não precisava responder. Não havia nada para responder. Ainda assim, escrevi: “Ele nunca saiu de casa.
Só precisavas de saber para onde olhar. ” Fiz o caminho de volta para a carrinha, e uma sensação de paz invadiu-me ao perceber que, naquela casa, finalmente, eu já não era mais a de fora.