Fico imóvel a ouvir as gargalhadas que ecoam pelas bancadas de mármore polido. A casa cheira a alecrim, alho e ao peru que está no forno desde as oito da manhã. Eu acordei às cinco para o retirar da salmoura, secá-lo, temperá-lo e o pôr a assar. Agora, sentado no banco da cozinha, com as mãos ainda a cheirar a ervas, ouço-os lá fora, na sala, todos à volta de Ciano.

Isto era a nossa casa, a de todos. Mas bastou o Porsche do Ciano subir a entrada, com as malas de marca e o sorriso de estrela para os meus pais se esquecerem de tudo o resto. Ele chegou quase a horas do jantar, com uma garrafa de cachaça envelhecida e um “olá, família! ” tão ensaiado que até parecia genuíno.
Eu estava ali desde terça-feira. No ano em que a avó morreu, assumi o jantar de Natal por causa da dor e do amor que me engasgavam. No ano a seguir, já era simplesmente esperado. A avó deixou-me a prataria, as travessas de porcelana e o caderno de receitas com as páginas manchadas de gordura e de memórias.
Deixou-me também a responsabilidade de ser eu a servir todos, sem nunca ninguém me perguntar se eu queria ser servido. Algo range dentro de mim, como placas tectónicas a moerem antes do abalo. Enquanto eles riem lá fora, eu lembro-me de que esta é a primeira vez que uma ideia atravessa a minha cabeça e não a consigo calar. Servir aqueles que nunca se perguntaram se a minha contribuição precisava de reconhecimento.
Entro na sala de jantar com a travessa do peru. Cinco pares de olhos se levantam por um instante, mas logo voltam para o Cassiano, que está a meio de uma história sobre uma partida de golfe com um cliente importante. Fico parado na entrada, à espera. Ele continua.
Conta como o putt no décimo oitavo buraco lhe garantiu o contrato do ano. É um disparate, um disparate que me escapa antes de conseguir engoli-lo. Ele interrompe o que estava a dizer, com a boca aberta a meio da frase. Desculpa, Digo eu com uma calma que não sinto.
É que tu jogaste o ano inteiro e nunca mencionaste o golfe. O pai solta uma gargalhada forçada, a mãe mexe no guardanapo. O Cassiano demora um segundo a recuperar. Foram uns convites de negócio, explica ele, como se eu tivesse dúvidas.
A mãe intervém. O teu irmão fez a viagem desde São Paulo. E eu cozinhei para toda a gente, digo eu, no mesmo tom. Por um instante, ninguém fala.
A Ondina, a minha cunhada, pousa o garfo e diz que me vou sentar para jantar. Ela tem uma capacidade para dizer o óbvio como se fosse uma revelação. A Selene, a minha sobrinha de doze anos, murmura que me queria sentar ao lado dela. Sempre foi a minha companheira de cozinha, até ela própria se ter tornado demasiado crescida para passar o Natal com a tia.
Sento-me. Pela primeira vez, não volto para a cozinha. O Cassiano olha para mim, depois para o prato. Olho para o lado e vejo a garrafa de vinho na mesa.
A um gesto meu, a Ondina passa-ma, sem que eu peça, e encho o copo até meio. Bebo um gole longo, a sentir o calor a descer-me pelo peito, e volto a servir-me. Eu não era rude, não queria estragar a noite. Mas também não queria ser invisível.
O jantar continua, com conversas sobre o trabalho do Cassiano, sobre a casa nova que ele vai comprar. Eu como, provo o peru que ficou suculento, as batatas que ficaram crocantes. Cada garfada sabe melhor quando não me levanto para ir buscar mais qualquer coisa. Não foi preciso cozinhar durante dois dias para saber que mereço sentar-me a esta mesa.
Não fui eu que me levantei quando a mãe entrou e disse que o pai queria fazer um brinde. Foi ele quem se levantou, com o copo na mão e a postura de quem está habituado a ser o centro das atenções. O pai, com a voz embargada, agradeceu ao Cassiano por, cito, “unir a família”. Não escrevi naquela noite, mas quando fecho a mala e me despeço de toda a gente, apercebo-me de que não prometi voltar.
Na segunda-feira a seguir, de volta ao trabalho, tenho uma chamada da minha mãe. Ele estragou o passeio, diz ela, com um suspiro dramático. Quem? Pergunto, mesmo sabendo a resposta.
O Ciano. Ele e a namorada nova decidiram fazer uma reforma em grande antes do Ano Novo. A casa é um estaleiro. E ainda por cima a Ana deixou-o, coitadinho.
Mordo o lábio. O coitadinho do Ciano, que tem uma casa nova e uma reforma para se entreter. Mas se ele quer o Natal perfeito, então que o faça. Quando chego a casa do trabalho, sento-me na secretária e olho para o caderno de receitas da avó.
Lenço as páginas enquanto penso nela. A avó nunca teria gostado de me ver assim, sempre a anular-me. Ela costumava misturar os ingredientes sem balança, a olho nu, e dizia-me: “Ninguém te conhece melhor do que tu, miúda, e ninguém te deve obrigar a ser quem tu não és. ”
No dia seguinte, estou na sala da reunião quando recebo um email do Cassiano, com o assunto “Planeamento do Natal”.
Abro-o e leio uma linha interminável: ele está otimista, diz que a mãe está ansiosa por repetir o jantar, fala sobre a sua nova cozinha e pergunta se eu posso levar um prato e umas sobremesas. Mais uma lista de compras do que um convite. Estou com a cara a arder quando respondo. Uma mensagem breve, seca, de resposta rápida, a dizer que tenho de confirmar e que logo digo.
A minha mãe liga-me logo a seguir ao jantar. A voz dela treme, no tom magoado que eu conheço bem, enquanto me diz que a minha avó estaria desapontada por eu não me dar bem com o irmão e que ela sempre sonhou ter a família unida. E, mais uma vez, sinto a culpa familiar. Mas depois reparo que o tom dela é ensaiado, como se estivesse a interpretar o papel da mãe ferida.
‘Falamos quando tiveres decidido’, diz, e desliga. Fico a olhar para o vazio. Não me lembro de alguma vez ter decidido alguma coisa para além do que eles esperavam de mim. Na quinta-feira, a Selene manda-me uma mensagem.
É uma foto do convite para a festa de Ano Novo do Cassiano, com um desenho de dois copos de champanhe a fazer um brinde. A legenda: “Já confirmaste se vais, tia? ”
Sinto um aperto no peito. A Selene quer ver-me.
Tento explicar-lhe na resposta que não sei se consigo ir, que tenho muito trabalho, mas as palavras soam-me a desculpas até para mim. Mais tarde, o meu telemóvel toca. É o meu pai. Não posso atender.
Desta vez, deixo o silêncio crescer. Passadas duas horas, recebo mais uma mensagem da minha mãe, desta vez um áudio mais longo. É a mesma ladainha de sempre: que eu devia ser a pessoa mais compreensiva, que o meu irmão passou por muito, que devia ter consideração pelos sentimentos dele. “O teu irmão quer que a família esteja presente no primeiro Natal na casa nova dele.
”
Fecho os olhos. Sinto o cansado da mentira repetida vezes sem conta. “O que é que ele quer” não é sinónimo do que “nós precisamos”. Na manhã de fim de semana seguinte, pego na mala e sigo para a praia.
Não para o Cassiano, mas para um pequeno hotel que frequentei com a avó quando era pequena. Tenho a morada na ponta dos lábios, impressa num velho cartão postal guardado no caderno. O quarto é simples, com uma vista para o mar. No segundo dia, mais concretamente ao fim da tarde, depois de outra tarde de trabalho à secretária, ligo para a minha mãe.
O toque ecoa. Ela atende ao segundo toque, mas a minha certeza vacila por um instante, porque ela fala primeiro. Estou a ligar para te dar a minha resposta sobre o Natal, digo, surpreendendo-me com a minha própria calma. Ela suspira.
“Espera, não me digas que vais ficar para aí, sozinha, num hotel, com estranhos, em vez de passares a noite com a família? ”
Não é isso. O problema é que, para mim, família sempre foi igual a servir-te, a ti, ao papá, ao Ciano. Toda a minha vida andei a torcer-me para obter uma migalha de aprovação que devia ser gratuita.
‘Ciano tem uma casa nova. Ele quer mostrar que somos todos unidos. É a nossa última oportunidade para parecermos uma família de verdade, Eu ouço a sua voz a falhar e sinto a familiar culpa a apertar-me, mas depois lembro-me de todos os anos em que as minhas escolhas foram anuladas. E estou a ligar para te dizer isso, para dizer que não vou simplesmente continuar a aparecer para fazer de conta, dou por mim a continuar.
Eu não fico refém do calendário dele ou da tua pressão. Estou cansado de ser visto como o empregado que serve os outros. Silêncio. Depois, uma exclamação abafada, que mal se percebe.
“Isto não é uma vida que eu possa simplesmente… esquecer. ” As palavras dele doem mais do que eu esperava. A culpa acumula-se-me na garganta, ameaçando subir.
Mas depois ouço a sua voz a dizer: “Porque é que não vens ter comigo e conversamos? ” O conselho da minha terapeuta ecoa-me na cabeça, e obrigo-me a abrandar. “Gosto disso. Obrigada.
” E terminamos. Ouço o clique, o corte da chamada. Fico sentada, com o telemóvel na mão, a sentir um peso que não consigo identificar. Ter-me desculpado não me fez sentir melhor, porque continua tudo igual.
Continuo eu a ser a única a esticar-me em direção ao outro, enquanto ele fica parado a exigir. Fecho os olhos. Lembro-me da avó a sorrir por trás dos óculos de leitura, no dia em que me ensinou a fazer o primeiro molho. “Ouves-me, miúda.
Não te apresses. A comida não se apressa. ”
E, de repente, percebo que a resposta não é arranjar desculpas ou aguentar-me em silêncio. Abro os olhos.
As palavras saem-me com uma firmeza que me assusta. Sei o que vais dizer, mas já tomei a minha decisão. Vinte e quatro horas depois, estou num voo para o sul. Quando o avião se afasta do chão, pego no telemóvel e escrevo uma longa mensagem ao meu pai e à minha mãe.
‘Sei que serás contra isto, mas a minha decisão está tomada. Passarei esta época convosco, mas não com o resto da família. Se não aceitarem isso, também aceito que me afaste, porque aquilo que esperam de mim não é igual àquilo que eu preciso para viver. ‘
Demoro a descobrir o que escrever, e os meus dedos enchem o ecrã com palavras que vão sendo apagadas.
A resposta do meu pai demora mais de uma hora a chegar. “Não posso acreditar que estás a fazer isto. A tua mãe está a chorar e o Ciano está a fazer um grande esforço para que todos estejam juntos por uma vez. ” e eu olho para o ecrã, e o que era suposto ser um “não” final, transforma-se em “ando tão cansado disto que já nem sei o que é ir contra”.
Estou deitada à beira da piscina do hotel quando ligo para a Selene. Ela atende ao segundo toque e, pela primeira vez em meses, sinto-me a sorrir:
Estou numa ilha, a 3000 quilómetros da neve inventada que o teu tio vai comprar. E não é que eu não me importe com ele. Mas alegria é como as sementes que só nascem onde são bem tratadas.
Há uma data que marca o fim de um ciclo, mas o que aconteceu a esta família não pode ser apenas arquivado. E ela, com mais maturidade do que muitos adultos que conheço, pergunta se me apetece companhia. Uma das coisas mais fixas que tenho na vida é o teu entusiasmo. Mas não podes simplesmente dizer a toda a gente que estou bem quando não estou.
“O que eu mais quero neste mundo é que estejas por perto. Mas a mudança não acontece se continuarmos a representar uma comédia que ninguém quer ver. ”
Houve um silêncio. Depois:
‘Pensando bem, tenho mesmo a certeza que quero.
‘ E a sua voz ganhou uma leveza que eu já não ouvia há anos. Combinamos que eu ia buscá-la no aeroporto no dia de Ano Novo. Quando a minha irmã chega, abraço-a com uma força que surpreende as duas. A Selene cheira a sol, a champô e à liberdade que nunca antes lhe permitimos.
Está tão crescida, com o mesmo olhar questionador da avó. Ela olha para o hotel simples e diz-me que não é o Paraíso a que está habituada. Eu rio-me e digo que a vista é melhor do que qualquer E se eu te for apanhar aí? Quando a vejo a sorrir, percebo que esta foi a melhor decisão que podia ter tomado.
Na festa de passagem de ano do hotel, conhecemos um grupo de estranhos com quem acabamos por dançar e cantar. E eu que tinha dito que não era de cozinhar, rio-me, enquanto a Selene me apresenta a um empregado chamado Luís, que organiza uma mesa giratória. “Ótimo, mais um para o nosso círculo de enganos. ”
Quando o brinde chega, levanto a taça em jeito de brinde.
A Selene faz o mesmo e diz que o dia de Natal é quando se pode, não quando se deve. Depois, com um sorriso maroto, acrescenta que a mãe provavelmente já deve ter apanhado um fio de cabelo no prato e que preferia morrer a cozinhar para o Ciano. Ergo a minha taça, num brinde que acaba por ser sincero, não por vingança, mas por uma escolha real. Passo alguns dias sem me lembrar do trabalho e começo a desligar o telemóvel por longas horas.
Numa praia quase deserta, a Selene olha para a ponta dos meus dedos e diz: “A avó também a coçava. Segundo ela, isso é sinal de que vamos ter muito dinheiro. ”
Assim, numa das demoradas conversas com que nos fomos presenteando, acabo por lhe contar que não me apetece voltar para o meu apartamento. Então não voltes.
Fica. Não me lembro de ter pedido, mas ela assente e diz que já fazemos disso uma tradição. No dia em que ela volta para casa, compro-lhe um pequeno molho de orações para oferecer ao meu sobrinho. Durante o caminho para o aeroporto, ela está mais sossegada do que o habitual.
Antes de entrar para o controle de segurança, volta a falar para me agradecer o ano novo e por me ter ensinado que as tradições também podem ser escolhidas. Seguro-a nos braços com muito mais força do que estava à espera. E quando a vejo atravessar a porta de segurança, sinto que percebo finalmente o que significa a expressão “Odiava por sentimento de culpa”. Afinal, as tuas legendas, diz ela, com os olhos arregalados.
Divirto-me com a lembrança da minha mãe a implorar-me para pensar no teu teto ou no teu prato. Respondo-lhe que, se ele quiser, que aprenda a comprar a sua própria comida. Parece-me ouvir uma gargalhada dele do outro lado, e, de repente, percebo que ele também tem de aprender que nem toda a gente caminha em ovos para não o incomodar. A minha mãe passa a voar, como quem não quer a coisa, para não ter de ficar sozinha comigo, e eu deixo-a ir.
A minha avó, que me censurava por ser demasiado azeda, liga-me e diz que adorou a minha foto na praia e que o novo sítio tem muito mais piada. Talvez seja isto, o perdão. Não o apagar da culpa, mas a aceitação de que cada um tem o direito à sua verdade. E a minha verdade passava por não ter de ser demais para as pessoas que me amam.
Na véspera de Natal, não ligo à minha mãe. A Selene manda-me uma mensagem a desejar feliz Natal e diz que agora me oferece um suéter de caxemira, para agradecer o novo ano. Quando chega a noite, a praia está deserta. Sigo até um poço onde as luzes da vila se refletem.
Durante um segundo, imagino a mesa de Natal que recuso: os pais, o Ciano e a sua namorada, a Ondina a reclamar da comida, os miúdos entretidos com os brinquedos. E depois deixo o pensamento esvair. Quando ligo para a Selene, sinto-lhe a voz rouca, como se tivesse a chorado. Não devias ter desistido de mim, digo-lhe, enquanto o silêncio se alonga.
Estou cansado de ser a única a tentar, respondo, mais para mim do que para ela. ‘Então não sejas. Não sejamos nós a tentar o tempo todo. Passemos a escolher ver-nos nos momentos bons, sem que isso pareça uma carga.
‘
Fecho os olhos e dou por mim a sorrir. Ela começa a descrever-me a ceia da véspera de Natal em casa. As mesmas discussões de todos os anos, as mesmas rabanadas. Mas desta vez a sua voz tinha uma espécie de leveza enquanto o contava.
Depois, com uma familiaridade que me aperta o peito, diz que deixou comida no congelador para mim. Nesse momento, esforço-me por não chorar. Mando-te uma foto de como ficou o bolo, e ficas de imediato com vontade de voltar para casa. ‘Promete-me que vais pensar nisso.
É só que me faz uma confusão enorme que passes o Natal e o Ano Novo sozinho no meio de estranhos. Ri-me. Prometo que vou pensar. Mas quem sou eu para tirar o teu entusiasmo?
Talvez o ano que vem, na minha casa, num Natal simples, como tu dizes. Diz-me que contas comigo para as brincadeiras e para os arrancar as melhores gargalhadas, e eu prometo-lhe o mundo. Quando desligo, fico um instante a olhar para o mar. E percebo, num entendimento que me aquece por dentro, que esta é a maior vitória: já não tenho de ser eu a segurar o mundo inteiro para não deixar cair quem amo.
Decidi que estou pronto para tentar ser feliz à minha maneira. Então respira fundo, vira costas à lua, e entra no restaurante onde o Luís o espera, com um sorriso que torna o ano novo decididamente promissor.