Entrei na minha própria cozinha com metade do cabelo ainda colado no pescoço, o ar da manhã de maio já gordo de humidade. Um calor que vinha do prédio e da rua e do resto do mundo, e eu fiquei ali parada, não a pensar em mais nada, só com a mão na torneira, sentindo o frio a subir do lítio. Quando finalmente levantei a cabeça, não fui à janela. Fui ao espelho, e é aqui que a história começa a sério, porque foi isso, olhar para o meu reflexo sem querer e ver no meu próprio rosto um cansaço que eu reconhecia como se fosse um cliente a entrar pela porta.

Para entenderes porque é que eu sorri, preciso que vejas a cadeira. Não a minha, isso vinha antes. A cadeira do estúdio, a primeira, a que ficava mesmo ao lado da janela. A que eu odiava e amava na mesma medida, a que tinha a marca exacta no apoio do braço esquerdo, o sítio exacto onde o meu cotovelo descansava quando eu trabalhava na nuca de alguém.
Não é a cadeira mais confortável, nunca foi. A base range, e o espelho à frente já não tinha prata por trás do vidro na ponta esquerda, então se uma cliente tivesse um cabelo a sair do sítio certo, a miragem ficava estranha. Toda a gente no estúdio sabia. A Paige sabia.
A Elsa sabia. Toda a gente sabia menos o dono. Primeiro, tens de perceber quem eu era naquele sítio. Passo quase todas as semanas da minha vida com mulheres a perder o cabelo.
Quimioterapia, alopecia, esse tipo de problema de tiróide que te tira o cabelo antes de tirar mais alguma coisa. Não sou enfermeira, sou cabeleireira, mas passo mais tempo com as cabeças delas do que a maioria das pessoas passa com o coração. Elas sentam-se na cadeira e eu falo dos meus fins de semana, e elas falam-me de consultas e de minúcias, de que o médico disse isto e a enfermeira fez aquilo, e eu passo os dedos pelo cabelo a cair-lhes e não digo nada. A primeira vez que vi a Marjorie, ela tinha 71 anos, 5 anos mais nova que eu, e um rosto que fazia as pessoas perdoarem-lhe antes de ela ter feito alguma coisa de mal.
Ela lembrava-se dos nomes. Toda a gente lhe chamava isso. Ela entrava, ocupava o tempo de toda a gente, lembrava-se do cão de uma pessoa e do neto de outra e depois ia-se embora. Eu não sei o que lhe fez.
O que lhe fez foi essa palavra. Algo. Eu disse: “Quer que te corte o cabelo ou quer ficar só sentada? ” E ela disse: “As duas coisas, querida.
” Depois fez uma pausa e disse: “Sabes porque é que eu venho aqui e não ao sítio da Renata? ” Eu disse: “Não. ” Ela disse: “Porque no sítio da Renata, quando eu entro, eles ficam todos a olhar para o meu lenço na esperança de ver o ponto exacto em que ele cai. Aqui, não olhas para o lenço.
Não sei onde aprendeste isso, mas eu vejo-te. E é por isso que eu me sento na tua cadeira quando o cabelo já é só uma lembrança. ”
Eu disse: “Isso é só porque estou com o espelho virado de propósito. ” Ela riu-se e essa era mesmo a coisa de que eu não gostava: rir no trabalho, no mau sentido.
Não foi uma merda de cortesia profissional. Foi um som. Um som de ter sido apanhada e de não me importar. Eu disse: “É só cabelo.
Se aparecer no meu bolso, não tenho de manter. ” Ela disse: “És a primeira pessoa que me diz isso. ” E eu disse: “A sério? ” e ela disse: “A maioria delas diz-me que é uma dádiva, que é uma transformação, que o meu marido vai adorar e eu não sei porque é que não disseram isso quando tínhamos azoto líquido.
” E eu ri-me. Ri-me porque era a verdade. E depois ela olhou para mim através do espelho e disse: “Olha para ti. Não achas que és gira com o cabelo todo para trás?
” e eu disse: “Pareço uma batata com dentes” e ela riu-se e disse: “Bem, uma batata gira. ” E depois não disse mais nada e pronto. Foi isso que me apanhou. O silêncio.
Agora preciso de ir mais devagar porque o que aconteceu a seguir foi a semana inteira. Na realidade, foi uma semana e meia, mas no cérebro é tudo de um fôlego. Trabalhei 12 horas na sexta, três cortes de quimio e duas correcções de cor e um penteado de noiva que se arrastou porque a mãe da noiva não conseguia decidir se uma flor devia subir 6 milímetros ou 8. Cheguei a casa às 21h00, tomei um duche, fiz o cabelo em trança, deitei-me às 21h47 e acordei às 2h11 sem razão nenhuma.
Qualquer cabeleireiro sabe o que é isso. O contador de tempo que se liga quando se trabalha o dia todo, os números contados em secções, e depois fica preso. Às duas da manhã, eu estava sentada na cama a ouvir o prédio, e ele estava deitado ao meu lado, de costas, com o braço atirado para o lado dele, a largura de um corpo entre nós a respirar devagar e com regularidade. Ele não era mau, o Cole.
Isso é importante. Era um tipo porreiro que bebia muita cerveja. Não no sentido de acordar de manhã e abrir uma, mas no sentido de que precisava de uma cerveja para desligar à noite. E eu conseguia viver com isso.
Naquela altura, conseguia. Tinha os dentes direitos, fazia ginástica, e eu lembro-me de olhar para ele na audiência no concurso de talentos da escola dele e pensar: “Oh meu Deus. ” Ele olhava para mim como se eu fosse um bife. E deu-me uma pulseira com o nome dele em relevo.
Numa loja de penhores. Não porque fosse numa loja de penhores, mas porque era um tipo que não tinha rigorosamente nenhuma subtileza. E 19 anos depois, ali estava ele ao meu lado às 2h11, a ressonar de boca aberta, e eu sentei-me na borda da cama e disse: “Vou-me embora. ” Demorei um segundo a perceber que ele tinha adormecido.
Ele resmungou, virou-se de costas, e os olhos dele abriram-se e disse: “O quê? ” E eu disse: “Nada. Estava a falar com os meus pés. ” E ele fez “Oh, OK”, e eu fiquei ali sentada, mais meia hora, a ver as horas no meu telemóvel, a pensar em cadeiras.
Na semana seguinte, trabalhei com a Paige. A Paige faz as unhas. A Paige é a recepcionista, também faz as unhas, mas sobretudo é a pessoa que está à frente. Ela tem 31 anos, 5 anos mais nova que eu, e tem o tipo de cara que faz as pessoas perdoarem-na antes de ela fazer alguma coisa de mal.
É por isso que ela é tão boa na recepção: fala com as pessoas de tal maneira e passado 20 minutos elas acham que a conhecem desde o infantário. Ela lembra-se dos nomes. E eu não era eu naquele sítio, não completamente. Faço o melhor que posso e depois passam 5 anos e depois passam mais 5 anos, e um dia olho para cima e estou na casa dos 30 e estou a viver a minha vida de 24 anos e não sei como é que cheguei aqui.
Ela entrou no estúdio, atirou o casaco para o lado, e disse: “Oh meu Deus, já viste o tempo que está lá fora? ” E eu disse: “Estás a discutir comigo porque levei 35 minutos a chegar à Quinta Avenida. ” Ela disse: “Não estou a discutir, estou a reportar. ” E depois a Paige, que está sempre a meter-se, disse: “Então, o que é que se passa?
Como está aquela coisa da clínica? ” E o estúdio ficou em silêncio. A Elsa não levantou os olhos. A Renata não levantou os olhos.
Eu disse: “Que clínica? ” Ela disse: “Não eras tu que ias fazer um rastreio ao teu colesterol? ” E eu disse: “Não, acho que estás a confundir-me com a minha mãe. ” E ela fez um “oh” e depois disse, “Bem, isso dá que falar.
Eu faço as minhas análises, mas eu tenho imenso colesterol. É o preço de adorar queijo. ” E depois continuou. Não é que não tivesse formação.
Eu tinha. Se calhar por isso é que não a via. Tinha passado o ano anterior a fazer todas as coisas certas: a beber menos, a fazer exercício, a fazer terapia, que foi onde aprendi a falar com a minha mãe: “Mãe, quando dizes ‘é o que é’, eu sei que estás a tentar não te meteres, mas do outro lado está qualquer coisa. ” E ela ficou a olhar para mim e depois disse: “Muito bem, filha, isso é uma treta.
” Mas era uma treta a tentar. A primeira vez que vi o marido da Marjorie foi a um sábado. Foi o primeiro sábado depois do dia da cadeira. Foi o primeiro sábado de Novembro, e eu fui ao Crate & Barrel para devolver um corta-latas de 12 euros que alguém me deu, porque sou o tipo de pessoa que devolve um corta-latas de 12 euros.
E fiquei a olhar para o balcão e as minhas mãos começaram a tremer ligeiramente. E eu digo: “Não. É o Crate & Barrel, com o corrimão para o parque de estacionamento e tudo. Não vou ser eu a fazer isso.
” Ele aproximou-se e disse: “Marta. ” E eu disse: “… Carlos? ” E ele sorriu daquela maneira que as pessoas fazem quando se lembram de um sítio que costumava ser feliz.
Ele tinha o cabelo cinzento nas têmporas e a postura de um homem com 40 anos de coluna. E ele disse: “Como estás, Marta? ” E eu olhei para ele. 19 anos, Maio de 2007.
E ele disse: “Acho que também podia perguntar-te isso. Já não falamos há mais de 10 anos. ” E eu ri-me. Ele disse: “Andas bem?
” e falámos 2 minutos, 4 minutos, sobre o estúdio e a namorada dele com um gato e se eu tinha aquilo que ele tinha. E depois ele olhou para a minha mão e disse: “E o Cole? ” E eu olhei para o chão e disse: “Ainda está vivo. ” Ele riu-se, e eu não, e ele disse: “Oh.
Desculpa. ” E eu disse: “Não é nada. ” E depois: “Ele andou a ver… ” e parei.
O Carlos disse: “Eu sei. Eu sou o irmão do Cole. ” Não, não era. Mas foi o que ele disse, e eu acreditei nele.
E depois ele disse: “Sabes, eu e a Marjorie temos jantado lá em casa e ela pergunta sempre por ti. ” E eu disse: “Olha, a sério? ” e ele disse: “Sim, ela diz que és a única pessoa que lhe corta o cabelo e que já não consegue ir ao sítio da Renata porque a Renata a trata como uma paciente. ” E eu disse: “Não sei se isso é um elogio.
” E ele disse: “Acredita, é. ” E depois ele olhou para o telemóvel e disse: “Tenho de andar. Foi bom ver-te, Marta. A sério.
A Marjorie e eu vamos a esse estúdio, muito em breve. ” E apertou-me o braço e foi-se embora. Foi por isso que eu não gritei. Foi por isso que não fiz nada.
O mais próximo que cheguei de ter uma conversa naquela noite foi com a Elsa, mas ela não estava a ouvir. A página que eu estava a ver era a página do discurso de casamento. Um texto de 13. 000 palavras, que é o que acontece quando um gajo continua a adiar sentar-se para escrever e depois fica com uma pilha de cadernos.
A primeira linha era: “Há 14 anos, estava sentado no meu carro à espera que a porta do Crate & Barrel se abrisse. ” E a página dizia: “A propósito, aquele raio da porta do Crate & Barrel ainda range. ” Eu ri-me. O dono da papelaria de rua, o Carlos, tem estado lá em baixo.
E ele pensou que eu me estava a rir de outra coisa qualquer. Eu disse: “Não há outra coisa. Uma vez, o Carlos, numa viagem de esqui, perdeu o cinto e teve de usar o fio do casaco. ” E o Carlos disse: “A sério, usei barbante.
Tu lembras-te de tudo. ” E eu disse: “Lembro-me de tudo. ”
Naquela noite, eu estava sentada ao volante em frente ao meu próprio estúdio, com o motor ligado. Era a minha folga.
Naquela noite, eu ia buscar os meus sobrinhos. A minha irmã e o cunhado estavam a fazer uma pausa para o casal e eu iria ficar com eles, e por isso estava atrasada. Devia ter ido para casa há meia hora. Em vez disso, fiquei ali sentada, com a mão na chave, a olhar para a porta que dizia “2214”, com um postal a tapar o vidro da janela que dizia “Fechado”.
Não um “Fechado” jovem e gira, mas um “Fechado” antigo, com fita adesiva a fazer uma curva e um pedaço a sair pelo outro lado. E depois a porta abriu-se e saíram duas pessoas e uma das pessoas era a minha contabilista. Eu conhecia a Rita. Conhecia-a de 3 casas atrás, de tudo.
Conhecia-a de assinaturas em coisas que nunca percebi, porque a Rita era o tipo de mulher que assinava coisas com uma caneta de tinta e dizia “isto é o sumário executivo”. Ela saiu com outra mulher, uma mulher mais nova com uma mochila e uns sapatos de cunha e um casaco que custava o salário de uma semana. E a minha contabilista acenou-lhe e disse: “Vemo-nos na segunda-feira. ” E a porta voltou a fechar-se e a Rita começou a descer o degrau e eu pensei: “Estás a enterrar o quê, porque o meu nome está no cartão de arrendamento e tu não podes comprar um prédio sem eu…
” e depois o pensamento parou. Não podia. Podias, claro. Eu podia olhar para isso e saber exatamente o que era: a Rita e a mulher de sapatos de cunha, a filha da mulher da frente, que tinha estado a receber mensalidades e o seguro do prédio na papelada que eu assinava todos os anos, e a minha contabilista, que conhecia a minha assinatura, que sabia o meu PIN, que sabia para onde iam as transferências.
E o Cole, que conhecia o PIN da Rita. Havia 50 por cento de probabilidades de ele nem saber que eu não estava à espera porque ele nunca ligou à Rita. Fez a papelada com ela. Nunca me pediram para assinar.
Mas a proprietária morrera e a minha contabilista estava a gerir o espólio, e a mulher de sapatos de cunha era provavelmente a neta da proprietária e o prédio estava à venda, e eu, com uma caneta de tinta, assinei a minha vida sem saber a extensão do dano. Três dias depois, entrei na segunda reunião. “Naem F. “, era como estava guardado no meu telemóvel.
O nome completo assustava-me, por isso abreviei-o. A segunda reunião chamava-se “a seguir”. A minha antiga terapeuta, a Dra. Elsa, sentou-se comigo na padaria que fica em baixo do estúdio e eu disse: “Não vou fazer isso.
” Ela disse: “Então o que é que vais fazer? ” Eu disse: “Vou comprar o prédio. ” O lugar dela estava cheio de coisas pequenas e gira, e ela escolheu uma e ficou a segurá-la e depois disse: “Porque é que queres uma coisa que já não te pertence? ” E eu disse: “Porque ainda não me permiti ser uma compradora.
” E ela disse: “Então deixa-me vender-te uma coisa. ” Tirou o telemóvel e pô-lo no balcão. E eu vi, na capa do telemóvel, que a Elsa não estava a ver o telemóvel. Estava a ver o meu reflexo.
Ela disse: “Vou contar-te uma história que não é para ser publicada em lado nenhum. Vou contar-ta porque gosto de ti. ” E eu disse: “Mentira. ” Ela disse: “Porque és uma cabeleireira que passa 5 horas a dizer-me que não precisa de terapia.
” E eu sorri e disse: “E tu és uma terapeuta que passa as horas a fingir que não está a fazer terapia. ” E ela disse: “Agora, a sério. A Marjorie. Não era só o teu cabelo.
Ela achava que tínhamos a mesma miopia. ” E eu disse: “Isso é horrível. ” Ela disse: “Eu sei. É por isso que te estou a contar.
Sou eu a ser terapeuta. ” E eu disse: “Então sê terapeuta. Diz lá. ” E ela disse: “Ela lembrava-se de ti.
Eu lembrava-me de ti. Ela lembrava-se de uma coisa que tu disseste uma vez: ‘Aproveita o teu cabelo antes de ele ir’. ” E eu disse: “Isso é a minha mãe. ” E a Elsa disse: “É.
Eu sei. Ela lembrava-se da tua. ” E, naquela mesa, com o chá frio e o queque a desfazer-se, eu desabei. Ela tinha-me contado, duas semanas antes, que se ia reformar.
Que o estúdio ia fechar, que ia vender. Fiquei em pânico. Foi por isso que fui à clínica. E naquela noite, depois de 3 horas com a Elsa, depois de 2 conversas com o Carlos, depois de 1 conversa com a Rita (que disparou), fiz a lista do que estava para alugar.
E no meio da dívida do cartão de crédito e do empréstimo do carro e das contas que a minha “Irmãzinha” de 32 anos ainda estava para pagar para o casamento que nunca mais ia acontecer, estava uma pequena assinatura. A minha. E por isso, 10 dias depois, sem lhe contar a ele, fui buscar uma cadeira de escrita de 14 euros à IKEA e uma secretária que me chegava ao nariz e continuei.