Eu estava num barzinho perto do centro com umas colegas do RH quando o Sérgio apareceu. Ele estava com o pessoal da empresa dele na mesa do lado e a gente acabou juntando as mesas. Todo mundo começou a conversar e, olha a ironia do destino, o Sérgio era analista de marketing, o famoso macho do LinkedIn. No fim do mês, o executivo de sucesso não tinha um puto no bolso.

O papo do Sérgio era muito bom, ele era carinhoso, e a gente engatou um namoro. Ele era daquele tipo que postava citação motivacional, foto com roupa social no espelho do elevador e dizia que vivia viajando a trabalho. A verdade é que ele morava num apartamento alugado, vivia no limite do cheque especial e achava que cartão de crédito era extensão do próprio braço. Mas eu ignorei os sinais.
A gente se divertia, e eu estava carente. Pouco tempo depois, ele perdeu o emprego. Ficou naquele desespero, mandando currículo para todo lado, mas sem contar para ninguém. Eu descobri porque vi o e-mail de recusa no computador dele.
Ele tentou disfarçar, disse que estava tudo bem, que ia sair para uma reunião, mas eu já sabia. Ele passava o dia em casa, jogando videogame e comendo besteira, enquanto eu pagava as contas. Eu ficava do lado dele, tentava ajudar, mas ele tinha um orgulho danado. Um dia, sentei do lado dele no sofá e perguntei com todo o cuidado do mundo: “Amor, aliviaria para você se você entregasse aquele seu apartamento e viesse morar aqui comigo?
A gente se juntava, dividia as despesas e você respirava um pouco. ” Ele me olhou com uma cara de quem tinha acabado de receber uma proposta irrecusável. Aceitou na hora. Em uma semana, já tinha colocado o apartamento no quinto dos infernos e se mudado para o meu.
Foi aí que o inferno começou. A Grazi, a ex-mulher dele, descobriu que ele estava comigo. Ela era exatamente aquele perfil de ex que acha que tem todos os direitos do universo só porque pariu. E a Grazi tinha aquele sexto sentido impecável para arruinar o relacionamento do ex.
Ela não perdia uma oportunidade de infernizar a vida do Sérgio, e por tabela, a minha. Um dia, o Sérgio chegou do trabalho, jogou a chave no aparador, me deu um beijo e foi direto para a cozinha abrir uma cerveja. “Ah, é pedindo Pix de novo? “, perguntei já com preguiça do assunto.
Ele deu de ombros, como se aquilo fosse a coisa mais corriqueira do mundo. “É a pensão da Valentina. A Grazi disse que a menina precisa de um tênis novo, material escolar, essas coisas. ”
Eu respirei fundo.
“Sérgio, ela está te usando. Vocês já fecharam o divórcio, a Valentina tem pensão definida por juiz. Você não precisa ficar pagando coisa fora disso. ” Ele me olhou com uma cara de cachorro abandonado.
“Você não entende. Eu tenho que dar o melhor para a minha filha. A Grazi sabe o que é melhor para ela. ”
Eu queria gritar que a Grazi estava era querendo arrancar dinheiro dele, mas calei.
Afinal, eu era a financiadora do Vale a Pena Ver de Novo deles. Toda semana era um Pix novo. Tênis, material escolar, um passeio do colégio, um aniversário de amiguinho. A Grazi sabia exatamente como apertar o botão da culpa paterna, e o Sérgio caía feito patinho.
O Sérgio saía do banho perfumado, eu repito, perfumado, com uma camisa polo impecável. Dizia que ia buscar a Valentina para passar o fim de semana. Eu achava lindo, um pai presente. Até que um dia, ele chegou em casa com um cheiro que eu não conhecia.
Um perfume doce, floral, que não era o meu. Ele disse que era o xampu novo da Valentina, que ela tinha derrubado na roupa dele. Eu aceitei, porque confiava. Depois, começaram as viagens de “trabalho”.
Ele arrumou um emprego novo, vivia viajando para o interior para visitar clientes. Dizia que era o auge da carreira, que estava sendo muito valorizado. Eu viajava com ele às vezes, mas na maioria das vezes ele ia sozinho. Dizia que a Valentina tinha ficado doente, que a avó estava passando mal, que a escola tinha ligado.
Um dia, ele chegou em casa com um sorriso que não disfarçava a ansiedade. Disse que a Valentina acordou chorando muito, querendo a panqueca do papai. E que a Grazi tinha autorizado ele a levar a menina para um resort em Porto Seguro. Ele, a Grazi e a Valentina, juntos, como uma família feliz.
Eu fiquei em casa, fingindo que estava tudo bem, enquanto o meu namorado viajava com a ex-mulher. O natural sumiu e deu lugar ao injustiçado. Ele passou a semana toda no resort, mandando mensagens mornas para mim enquanto postava stories com a Valentina na piscina. E a Grazi, coitada, postava fotos indiretas.
“Família é tudo”, “Quem ama curadora”, “O que Deus uniu, o homem não separa”. Eu via aquilo e sentia o estômago embrulhar, mas aguentava calada. Meu limite é a porta do meu trabalho, e eu deixava a porta aberta. Pouco tempo depois desse show de chantagem por conta do currículo da ex, a diretoria me chamou numa sala.
Me ofereceram uma promoção dos sonhos, um salário melhor, um cargo de confiança. O único problema é que a vaga era para assumir a filial no sul do país. Eu aceitei na hora, sabia que era a minha chance de recomeçar. O Sérgio precisava saber, mas eu decidi esperar o momento certo.
Quando contei para ele, a reação não foi nada do que eu esperava. Ele recuou um passo, como se eu tivesse falado um absurdo, e balançou as mãos na frente do corpo. “Você está louca? Me mudar para o sul?
E a minha carreira? E a Valentina? Eu não posso sair daqui, a Grazi não deixa eu ficar longe da minha filha. ”
Eu tentei argumentar.
“Sérgio, eu paguei as suas contas por meses. O máximo de luxo que eu via do seu salário era a metade da conta de luz que ele pagava reclamando. Eu estou te dando uma chance de recomeçar, de ter uma vida melhor. ” Ele balançou a cabeça, me olhando como se eu fosse a vilã da história.
“Você não entende. A minha filha precisa de mim. Eu não posso abandoná-la. ”
Ele saiu de casa naquela noite, dizendo que precisava pensar.
Eu fiquei ali, olhando para as paredes do meu apartamento, com a sensação de que eu era apenas o banco dele. Uma semana depois, ele voltou com o rabo entre as pernas, dizendo que a Valentina estava sentindo a minha falta. Eu aceitei, porque ainda tinha esperança de que ele mudasse. Foi aí que eu comecei a desconfiar de verdade.
Eu estava no parquinho perto de casa, quando vi uma cena que me paralisou. Na ponta da grade do brinquedo estava apenas uma senhora de cabelos curtos, grisalhos, olhando na direção de Valentina. Era a mãe da Grazi, a ex-sogra do Sérgio. Ela estava com um sorriso de quem sabia de algo que eu não sabia.
Pouco depois, abri o WhatsApp do Sérgio e mandei uma mensagem como quem não quer nada para o próprio número dele. Ele tinha me dado a senha uma vez, para eu ver uma foto da Valentina. Eu desci o histórico e o que eu vi fez as peças do quebra-cabeça se encaixarem de um jeito que embrulhou o meu estômago. Fotos de uma mulher segurando taça de vinho em restaurantes chiques, pratos caríssimos de frutos do mar.
Ela postava fotos sozinha com legendas do tipo: “Domingo maravilhoso sendo mimada do jeito que gosto”. E em todas as fotos, a legenda marcava a localização: uma cidade no litoral. Uma cidade que ficava exatamente no caminho das viagens de “trabalho” do Sérgio. Ele não fazia ideia do perigo que era testar a sanidade de uma mulher de RH.
Eu sorri, guardei o celular e comecei a planejar. Na sexta-feira, o Sérgio chegou em casa todo animado. Disse que tinha uma surpresa para mim: íamos viajar no fim de semana para um hotel fazenda, só nós dois. Ele parecia tão feliz, tão animado, que eu quase senti pena.
Quase. Eu aceitei, sorri, e comecei a arrumar as malas. Mas enquanto ele tomava banho, eu peguei o celular dele e mandei uma mensagem para a Grazi. “Amor, as malas estão prontas.
Vamos nos encontrar no saguão do aeroporto às 14h. A Valentina vai adorar a surpresa. ” Assinei com o nome do Sérgio. Devia estar suando frio na frente do espelho, mas consegui.
A Grazi respondeu na hora, com uma chuva de corações. “Mal posso esperar, meu amor. ”
No dia seguinte, no saguão do aeroporto, eu me escondi atrás de uma coluna. O Sérgio estava parado perto do painel de embarque, com uma rosa na mão, olhando para o relógio.
A Grazi chegou arrastando uma mala, com a Valentina pela mão, e uma mochila gigante nas costas. Ela estava com um sorriso de orelha a orelha, esperando o abraço do amado. Quando o Sérgio a viu, o sorriso dele congelou. “O que você está fazendo aqui?
“, ele perguntou, com a voz embargada. “Aonde está a Valentina? ” “Você não me mandou mensagem para irmos para o hotel fazenda? “, ela respondeu, mostrando o celular.
“Olha aqui, sua mensagem. Não faz essa cara de paisagem, vai. ”
Eu saí do meu esconderijo, batendo palmas devagar. “Olha só quem se encontrou”, falei, com um sorriso de quem não estava nem aí.
“Que casal lindo. Ainda bem que vocês se acertaram. ” O Sérgio ficou branco. “Espera, não é isso que você está pensando.
Eu posso explicar. ”
Eu ri. “Pode explicar o quê, Sérgio? As suas viagens de trabalho?
Os seus fins de semana de ‘visita’ para a Valentina? A Grazi te acompanhava, não era? Você estava traindo a sua ex-mulher comigo, e a sua ex-mulher com você. E eu aqui, pagando as suas contas, achando que eu era a namorada de verdade.
”
A Grazi abriu a boca, sem entender. “Traindo? O que você quer dizer? ” Eu apontei para o Sérgio.
“Pergunta para ele quem é a Valentina. ” A Grazi olhou para o Sérgio, depois para mim. “Ela é a nossa filha, sua louca. ” “Não, ela não é”, respondi, puxando o celular.
Mostrei a tela para a Grazi. “O exame de DNA. Eu coletei o material dele na escova de dente, e o da menina no copo que ela usou na sua casa. A Valentina é filha do Rogério.
”
O saguão inteiro parou. A Grazi abriu a boca, soltou um som estranho, e olhou para o Sérgio com uma mistura de ódio e incredulidade. “O quê? ” “Lembra do Rogério, meu colega de trabalho?
O que você morria de ciúmes? Eu tive um caso com ele no começo do nosso namoro. Eu não sabia de quem era a filha. Eu jurava que era dele.
”
A Grazi começou a gritar, um grito agudo, cheio de nojo. “Eu te mato, seu desgraçado! ” Ela se abaixou, abriu o zíper da mala ali mesmo no meio do saguão, catou as sungas, os sapatos e as camisas sujas do Sérgio e começou a atirar tudo na cara dele. As cuecas voavam, os sapatos batiam no peito dele.
Ele berrava, com as veias do pescoço saltando. “Você não tinha que ter mexido na minha vida! ”
A Grazi não recuou, partiu para cima dele, arranhando o rosto. O Sérgio caía de joelhos no meio do saguão, segurando a barra da minha blusa, implorando.
“Por favor, não faz isso. Eu te amo. Eu posso explicar. ” Eu tirei a mão dele do meu braço com nojo.
“Pode explicar o quê? Que você é um mentiroso, um golpista, um aproveitador? Eu fui o seu banco, Sérgio. Eu financiei o seu relacionamento com a sua ex-mulher e com a sua filha, que nem é sua.
”
Ele caiu de joelhos, com a cara toda arranhada, a camisa aberta, as veias do pescoço saltando. A Grazi, no auge da fúria, pegou a mala da Valentina e jogou em cima dele. “A minha filha não vai ter contato com você nunca mais, seu merda! ” Ela pegou a mão da Valentina, que estava chorando, e saiu pisando duro.
“E você”, ela gritou, apontando para mim, “vou processar você! ”
“Pode processar”, respondi, cruzando os braços. “Afinal, você acreditou mesmo que a menina era do amante. Você queimou o próprio filme totalmente de graça no meio do saguão.
” A Grazi saiu bufando, e o Sérgio ficou ali, encolhido, cercado por roupas sujas e seguranças que tinham chegado correndo. Um segurança se aproximou e pediu para ele sair. Ele tentou argumentar, mas ninguém queria saber. Eu olhei para ele, com um sorriso de canto.
“Aliás, Sérgio, uma última coisa. As suas malas, os seus relógios falsos, as suas roupas de grife falsificadas, eu mandei todas de volta para o seu apartamento hoje de manhã. Assim vocês já podem retomar a família perfeita de vocês debaixo do mesmo teto. ” Ele abriu a boca, mas não saiu som algum.
Eu virei de costas e fui andando em direção ao portão de embarque. A minha parte do show já tinha acabado. Ele berrava atrás de mim, mas eu não olhei para trás. Fui direto para o acesso da sala VIP do aeroporto.
Sentei numa poltrona confortável, pedi uma taça de vinho e deixei o tempo passar. Lavei a louça do café na minha mente, tomei um banho com calma e deixei o tempo passar. Já faz seis meses que aquele barraco parou o saguão do aeroporto. O Sérgio perdeu o emprego de novo, porque a história correu solta no meio corporativo.
Ele tentou se candidatar em outras empresas, mas o currículo dele vinha com a mancha de “golpista” escrito em letras garrafais. O paião do ano agora não larga mais a criança com a avó para ir namorar com a mãe dela, até porque um não pode ver a cara do outro por mais de 10 segundos que já dá briga. A Grazi destruiu a própria vida, a do Sérgio e a do Rogério numa atacada só. O Rogério, coitado, descobriu que a filha era dele por causa de um exame de DNA e ficou em choque.
Mas, pelo visto, ele está bancando a criança, porque a Grazi conseguiu na justiça. A minha parte favorita foi quando o Sérgio me mandou mensagens de madrugada, xingando e implorando para voltar. Ele dizia que eu era a única que o entendia, que a Grazi era uma louca e que a Valentina não era culpa dele. Eu li, dei risada e bloqueei.
Eu aceitei a promoção e me mudei para o sul. O meu apartamento novo é muito bonito e bem localizado. O meu vinho nunca falta na adega, e eu tenho uma vista linda do quarto. Mas o melhor de tudo é o meu gato preto, que eu adotei depois de tudo.
Ele é diferente do meu ex, ele sabe valorizar quem bota a ração no pratinho dele. Toda noite, antes de dormir, eu abro o meu perfil fake e dou uma olhada na vida do Sérgio. Ele está irreconhecível, morando com a Grazi de novo, tentando recuperar uma família que nunca foi dele. A última foto que vi dele foi de um churrasco em casa, com uma camisa velha e o olhar vazio.
A legenda dizia: “A vida é feita de recomeços”. Eu ri alto, guardei o celular e fiz carinho no meu gato. Recomeço mesmo ele não teve. Ele só voltou para o inferno de onde nunca deveria ter saído.
E eu, no meu canto, finalmente estava em paz.