Tava tudo calmo naquela sexta-feira à noite. Eu tava num bar, no meu canto, tomando minha água, segurando o braço do Bruno, achando que a noite ia ser só mais uma. Aí eu olhei pro fundo, numa mesa perto da parede, e vi minha irmã mais nova grudada no meu namorado. A Duda, de dezoito anos, vestida como se tivesse vinte e cinco, colada nele de um jeito que não deixava espaço pra dúvida.

Ela se aproximou do ouvido dele, sussurrou alguma coisa e mordeu a orelha dele. Mordeu. A orelha do meu namorado. Eu fiquei travada, sem reação, olhando aquilo acontecer em câmera lenta.
Aí um homem furioso se levantou no meio do bar, a cara vermelha, o pescoço estufado, e gritou o nome dela. Era o meu padrasto, o Marcelo. Mas calma. Deixa eu voltar um pouco, porque essa história começou bem antes, e pra você entender do jeito certo, preciso te contar como a gente chegou até ali.
Meu nome é Carolina, tenho vinte e seis anos e sou engenheira de produção. Trabalho numa empresa em São Paulo e ganho razoavelmente bem. Não sou rica, mas pago minhas contas e não devo nada pra ninguém. Saí do interior aos dezoito anos com uma mala, um sonho e um medo danado.
Minha cidade fica a três horas da capital, uma cidade pequena daquelas que quando você espirra na padaria, sua mãe grita de casa pedindo saúde. Meus pais se separaram quando eu era criança. Minha mãe, a Márcia, casou de novo com o Marcelo. E o Marcelo, como eu explico?
Imagina um homem do interior que fala como se todo lugar fosse o quintal da casa dele. Voz de locutor de rodeio, volume no máximo o tempo inteiro, daqueles que cumprimenta o vizinho gritando do outro lado da rua. Ele é o tipo de cara que acha que manda em todo mundo porque é homem, mais velho e casado com a minha mãe. E pra completar, os dois viraram evangélicos fervorosos.
A casa deles tem mais versículo na parede do que foto de família. Minha irmã, a Duda, tem dezoito anos, mas foi criada nesse mundinho de regras rígidas, vestido comprido e cabelo preso. Eu, por outro lado, fui criada de um jeito mais solto, e quando saí de casa, meio que me afastei daquilo tudo. A Duda sempre foi a menina dos olhos do Marcelo.
A filha do meio, a caçula, a que nasceu quando ele já tava com a minha mãe. Ele tratava ela como se fosse uma princesa, uma santinha, uma garota pura que não fazia nada de errado. E me tratava como se eu fosse a ovelha desgarrada, a que foi morar na cidade grande e virou do mundo. Tanto que quando eu fui embora, ouvi dele: “Vai lá pra capital, vai viver no mundão, depois não diga que não avisei.
” E eu fui mesmo. Fui e não olhei pra trás. Agora, Bruno. Bruno apareceu na minha vida há uns oito meses.
Conheci ele numa festa de uns amigos em comum, e a gente se deu bem na hora. Ele é bonito, tem um emprego estável, é educado, me trata bem. Um cara que minha mãe aprovaria, o que é uma raridade. Ele não é do tipo que grita, nem que faz cena.
É calmo, de boa, e eu achei que tinha finalmente encontrado alguém decente. Quando a gente começou a namorar, ele me contou que morava sozinho num apartamento bom aqui em São Paulo, e eu topei. Eu morava num apartamento pequeno de dois quartos que dividia com minha amiga Fernanda, até que ela ganhou uma bolsa de estudos fora do país e teve que ir embora antes do contrato acabar. Fiquei desesperada, porque sozinha não conseguiria pagar o aluguel inteiro.
Aí minha mãe, do nada, apareceu com uma proposta: a Duda tava precisando sair da cidade pra estudar, tinha passado numa faculdade particular perto de mim, uma das melhores do país. Ela pagaria o aluguel do quarto e mais um valor pra ajudar com as compras de mantimentos. E eu, boba, topei. Fiquei até feliz.
Pensei: “Pronto, a Duda vem, fica quietinha no quarto, estuda, e tá tudo certo. ” Mal sabia eu o que tava por vir. Quando a Duda chegou, veio cheia de novidade. Ela chegou com umas malas enormes, cheias de roupa que a minha mãe tinha comprado, e logo começou a se entrosar.
Eu mostrei o apartamento, o quarto, o banheiro, e ela amou. Elogiei o fato de ter varanda com plantinha e luz natural, achou tudo maravilhoso. Eu achei que ela tivesse amadurecido, que a vinda pra cidade grande tivesse feito bem. No primeiro dia, ela foi educada, me ajudou a guardar as coisas, contou da faculdade, das aulas.
Bruno apareceu lá em casa umas duas vezes, na primeira semana, pra me ver. A Duda ficou num canto, olhando, mas sem falar muito. Eu não dei atenção. Pensei que fosse só timidez.
Aí as coisas começaram a mudar. Primeiro, eram os sinais. Quando o Bruno sentava do meu lado no sofá, ela dava um jeito de se sentar do lado dele, na primeira oportunidade. Se eu levantava pra ir ao banheiro, quando voltava, ela tava sentada no lugar dele, contando alguma história engraçada, encostando a mão no braço dele.
E ele deixava. Eu via, mas pensava: “Nossa, ela é só uma menina, tá tentando ser simpática com o cunhado, é carência de quem acabou de sair de casa. ” Eu queria acreditar no melhor, porque ela é minha irmã, e eu não queria acreditar que a minha própria irmã, que eu criei como se fosse minha filha às vezes, faria uma coisa daquelas comigo. Aí as roupas dela foram mudando.
O comprimento dos vestidos foi subindo, as maquiagens ficaram mais fortes, os decotes mais ousados. Eu lembro da primeira vez que ela saiu do quarto com um vestido curto, justo, e perguntou se eu achava que o Bruno ia gostar. Eu quase engasguei. “O quê, Duda?
Por que você se importaria se o Bruno ia gostar? ” Ela deu de ombros e disse que era só uma pergunta, que queria se sentir bonita, que na cidade pequena ela nunca tinha tido oportunidade de se arrumar. Eu deixei pra lá, mas aquilo ficou martelando na minha cabeça. Depois vieram os flagras.
Eu chegava do trabalho e achava ela sentada na sala, com uma camiseta enorme, sem sutiã, quase sem calça, de perna cruzada no sofá onde o Bruno costumava sentar. Perguntava se ele tinha aparecido. “Não, por quê? Ia acontecer alguma coisa?
” E ela ria, daquele jeito inocente, dizendo que não. Mas eu via o olhar dela acompanhando a porta quando o Bruno chegava. Ela fazia questão de passar na frente dele, se abaixar pra pegar alguma coisa, mostrar o decote, dar um jeito de roçar nele. Um dia, eu tava sentada na cozinha, e a Duda passou na sala, parou bem na frente do Bruno e se abaixou de costas pra ele, fingindo que procurava um prendedor de cabelo que tinha esquecido ali.
Ficou lá, abaixada, com a calcinha aparecendo, a bunda praticamente na cara dele. Bruno ficou sem graça, desviou o olhar, tossiu. Eu gritei da cozinha: “Duda, o que você tá fazendo? ” Ela se levantou num pulo, rindo, dizendo que era só uma coisa, que já tinha achado.
Eu segurei a língua, mas a ficha começou a cair. A gota d’água foi quando ela começou com a história da roupa. Eu tava no quarto, me arrumando pra sair com o Bruno, e a Duda entrou sem bater. Ela olhou o vestido que eu tava usando, um modelo preto, discreto, e torceu o nariz.
“Você vai sair assim, Carô? Sério? ” Eu perguntei o que tinha de errado. “Você não tem uma coisa mais curta?
Mais… colada? ” Eu disse que não, que eu gostava daquele do jeito que era. Ela deu de ombros, foi pro guarda-roupa dela e tirou um pedaço de pano que mais parecia um cinto do que um vestido.
“Olha, isso sim é roupa. Vou usar quando eu tiver um encontro. ” Eu ri, sem graça, e respondi: “Com esse aí, o pai não deixa você sair nem no portão. ” Ela virou pra mim com um sorriso debochado e falou: “Por isso que ele não é meu pai de verdade, né?
E por isso que eu vou fazer o que eu quiser. ”
Ela não tava mentindo. A coisa começou a desandar de vez quando a Duda começou a sair. Eu via ela se arrumar pro bar, com as amigas que ela já tinha feito na faculdade, e eu ficava lá, no sofá, vendo ela sair com um short jeans que aparecia a bunda, uma blusa amarrada no peito, e eu pensava: “Meu Deus, se o Marcelo visse essa menina assim…
” Mas não era da minha conta. Eu só pedia pra ela ser discreta, não arrumar confusão, e ela sempre respondia: “Pode deixar, irmã, eu sou uma moça de família. ” E saía rindo. Foi nesse clima que o Bruno começou a estranhar.
Um dia, ele chegou em casa mais cedo, eu tava no banho, e quando saí, ele tava sentado no sofá, com uma expressão estranha no rosto. Perguntei o que tinha acontecido. Ele hesitou, coçou a nuca e disse: “A Duda te incomoda? ” Eu congelei.
“Incomodar? Por quê? ” “Não sei, ela fica… toda hora em cima de mim.
Quando você levanta, ela cola. Hoje mesmo, fui pegar uma água na cozinha, ela apareceu atrás de mim, encostou em mim, perguntou se eu tava com saudade da irmã dela. Falei que sim, que você tava no banho, e ela respondeu: ‘Ela é minha irmã, mas você não é meu irmão, né? ‘” Eu arregalei os olhos.
“O quê? ” “Ela tá te fazendo de trouxa, Carô. Eu não quero falar isso, mas tô te avisando. Ela tá me paquerando na sua frente, e você não quer enxergar.
”
Eu quis negar. Quis acreditar que ele tava vendo coisas, que ela era só uma garota carente. Mas quando ele me contou aquilo, eu lembrei de todos os sinais, das roupas, dos olhares, das vezes que ela dava um jeito de tocar nele. A raiva começou a ferver, mas eu engoli.
Respirei fundo, pedi pra ele ter paciência, que eu ia conversar com ela. E conversei. Chamei a Duda num canto, sem querer criar barraco, e disse: “Olha, o Bruno é meu namorado. Eu tô de olho, tá?
E eu não gostaria que você ficasse tão próxima dele. ” Ela me olhou com uma cara de deboche, fingiu inocência: “Meu Deus, Carô, eu não tô fazendo nada. Ele é seu namorado, eu sei. A gente é amigo, só isso.
Você é muito ciumenta, hein, logo você, que sempre foi tão segura. ” E saiu andando, me deixando falando sozinha. Eu fiquei ali, com aquela raiva entalada, mas sem saber o que fazer. Porque denunciar ela pro pai e pra mãe?
Sem provas concretas, eles iam achar que eu tava viajando, que eu tava com ciúme da minha irmã mais nova, que eu tava inventando história. Aí chegou o dia. O dia da vergonha nacional. O dia em que a minha irmã, a filhinha do pastor, a menina da igreja, virou o assunto do bar inteiro.
Eu tinha combinado de encontrar uns amigos no bar do centro, e a Duda, em vez de ficar em casa, disse que ia com as amigas. Eu não liguei. Fomos juntos de táxi, eu e o Bruno, e quando a gente entrou no bar, lotado, eu procurei uma mesa no fundo, onde a gente já tinha sentado outras vezes. Sentei, pedi minha água, e o Bruno do meu lado, tudo normal.
Aí eu olhei pro canto perto da parede, e lá tava ela. A Duda. Sentada com umas amigas, mas não sozinha. Ela tava colada num cara, com a mão no peito dele, rindo alto.
Eu franzi os olhos, tentando entender quem era aquele cara. Aí o cara virou o rosto. Era o Bruno. Não.
Era o Bruno, meu namorado, sentado do lado da minha irmã, com o braço apoiado no encosto da cadeira dela, como se fosse a coisa mais natural do mundo. Eu olhei pro meu lado, pro lugar onde o Bruno tava sentado. Tava vazio. Eu tinha levantado pra pedir água no balcão, e quando voltei, ele tinha sumido.
E agora, ali, tava sentado do lado da Duda, deixando ela encostar nele, rir com ele, sussurrar no ouvido dele. Eu fiquei parada, segurando o copo, vendo aquela cena. A Duda, então, se inclinou pro ouvido do Bruno e falou alguma coisa. Ele riu.
Ela olhou de volta pra mim, me encarando por cima do ombro dele, e deu um sorrisinho de canto. E aí, sem desviar o olhar de mim, ela se inclinou e mordeu a orelha dele. Mordeu. Eu vi os dentes dela fecharem no lóbulo da orelha dele, vi a língua dela, vi ele fechar os olhos.
Foi aí que eu perdi o chão. E foi aí que uma voz explodiu do outro lado do bar: “DUDA! ”
Era o Marcelo. Ele tava lá, com a minha mãe, que eu não tinha visto antes, numa mesa perto da entrada.
Ele devia ter chegado naquele dia, sem me avisar, pra fazer uma surpresa. A surpresa tava sendo deles. Ele se levantou, empurrando a cadeira, o rosto vermelho, a camisa xadrez aberta, o peito ofegante. A Duda congelou.
Ela olhou pro pai, depois pra mim, depois pro Bruno, que tinha ficado pálido. E ela riu, nervosa. “Pai, que surpresa! O que você tá fazendo aqui?
” Ele atravessou o bar inteiro, abrindo caminho no meio da plateia que já tava filmando com o celular, e parou na frente dela. “Eu não acredito que você tá fazendo isso. Eu não acredito que você… com esse cara?
Com o namorado da sua irmã? ” Ele apontou pro Bruno, que levantou as mãos, tentando se explicar. “Calma, senhor Marcelo, deixa eu explicar. ” “Calado, seu safado!
Eu vi o que você tava fazendo com a minha filha, com a minha menina, com a minha… sai da minha frente! ” E o Marcelo partiu pra cima do Bruno. Eu nunca vi uma cena daquelas ao vivo.
O Bruno, que sempre foi calmo, que sempre foi educado, tentou se defender, mas o Marcelo tava possesso. Ele agarrou o Bruno pela gola, o Bruno tropeçou no pé do banco e caiu no chão, e o Marcelo em cima, soco pra lá, soco pra cá. A Duda começou a gritar, a puxar o pai, e eu, do meu canto, fiquei parada, segurando o copo, sem saber se ria ou se chorava. A minha mãe, a Márcia, tava gritando do lado, tentando separar, mas ninguém conseguia.
Os caras do bar tiveram que se meter, puxaram o Marcelo pra cima, e ele gritava, apontando pro Bruno, xingando de tudo quanto era nome. E a Duda, a coitada, tentava se esconder atrás do pai, mas o pai virou pra ela e berrou: “Você vai pra casa agora! Você vai pra casa e vai pensar no que fez! Olha a sua cara, olha o seu estado, você nem parece uma moça de Deus!
”
A Duda começou a chorar, mas a plateia não teve pena. Pelo contrário, começou a rir, porque o celular dela tinha caído no chão e a tela tinha quebrado. E o Marcelo, pegou a Duda pelo braço e foi arrastando ela pra fora do bar. No caminho, ela tropeçou, caiu de joelhos, e o vestido curto subiu até a cintura.
Ele puxou ela de novo, sem dó, e ela saiu chorando, com o sapato de salto na mão, a maquiagem toda borrada, os cabelos desgrenhados. E a última imagem que eu tenho dela, antes de sumir pela porta, foi ela olhando pra trás, me encarando, com um olhar de ódio puro, antes de vomitar no chão da calçada. Foi o caos. O Bruno tava caído no chão do bar, com um olho roxo, a camisa rasgada, o lábio inchado.
Eu fiquei lá, em pé, no meio do caos, e só depois de um minuto percebi que todo mundo tava me olhando. Uns com pena, outros com curiosidade, outros com um sorriso de canto. Eu respirei fundo, coloquei o copo de água no balcão, peguei minha bolsa e saí andando. Sem olhar pra trás, sem esperar o Bruno, sem dizer uma palavra.
Eu saí do bar e fui pra casa, sozinha, no meio da madrugada. Cheguei no apartamento e o Bruno ainda tava lá. Ele apareceu uma hora depois, com o rosto amassado, tentando explicar. “Carô, eu juro, ela falou que era pra eu te surpreender, que você tava no banheiro, que tava todo mundo esperando a gente…
” Eu cortei ele, com uma calma que eu nem sabia que eu tinha: “Vai embora, Bruno. ” “Mas, Carô… ” “Vai embora. Não quero ouvir sua voz agora, nem daqui a uma hora, nem nunca mais.
Se você não percebeu, acabou. ” Ele tentou argumentar, mas eu fechei a porta na cara dele. Sentei no chão, encostada na porta, e só aí deixei as lágrimas virem. Não era só o Bruno.
Era a Duda. Era a confiança. Era a sensação de ter sido traída pelos dois lados, pela minha própria irmã e pelo meu namorado, do jeito mais humilhante possível. No dia seguinte, eu acordei com o celular explodindo.
A notícia tinha espalhado. Alguém tinha gravado tudo, o soco, o arrastão, o vômito, e tinha postado na internet. O vídeo tinha viralizado. Minha irmã, a Duda, com o vestido subindo, sendo arrastada pelo pai, chamando atenção de todo mundo.
Minha mãe me ligou, chorando, gritando. “Como você pôde fazer isso com a sua irmã? Você armou tudo isso, não foi? Você queria ver ela humilhada!
” Eu fiquei sem reação. “Mãe, você tá maluca? Ela tava em cima do meu namorado, teu marido quase matou ele! ” “Não importa!
Você vai tirar esse vídeo da internet, você vai pedir desculpa pra ela, você vai…! ” E foi aí que eu entendi. Eu entendi que não importava o que a Duda fizesse, não importava o quanto ela fosse falsa, a minha mãe e o Marcelo sempre iam defendê-la. Ela era a menina da igreja, a santinha, e eu era a invejosa, a que queria destruir a vida da irmã.
O Bruno, depois de uns dias, tentou me ligar algumas vezes, mandar mensagens, explicar. Eu mandei ele se afastar. A Duda, depois do escândalo, sumiu. Não atendeu minhas mensagens, não respondeu.
Até que minha mãe me mandou uma mensagem dizendo que a Duda tava mal, que precisava de ajuda, e que ela ia morar comigo de novo, pra recomeçar. Eu ri na cara do celular. “Mãe, ela quase destruiu meu relacionamento, ela fez de tudo pra me roubar o namorado, e você quer que ela more comigo de novo? ” Minha mãe respondeu: “Ela não tem pra onde ir, Carolina.
Se você não deixar, ela vai sofrer na rua, e você vai ser culpada. ” E eu, cansada, exausta, mas ainda com um pingo de culpa, acabei cedendo. Deixei. A Duda voltou pro quarto, mas dessa vez eu botei as cartas na mesa.
“Você vai viver aqui, mas não vai me dar um pio de problema. Nada de sumir, nada de arrumar confusão, nada de ficar em cima do Bruno, que ele nem faz mais parte da minha vida. Você estuda, você trabalha, e quando você achar um canto, você cai fora. ” Ela concordou, com a cabeça baixa, toda arrependida.
Nos primeiros dias, ela ficou quietinha, no quarto, estudando, parecendo uma menina arrependida. Mas logo a máscara começou a cair de novo. Eu via ela no celular, rindo sozinha, e quando eu chegava perto, ela escondia a tela. Começou a sair de novo, com umas roupas que eu não aprovava, mas eu não falei nada, porque eu não queria briga.
Até que uma noite, eu acordei com um barulho estranho na sala. Levantei devagar, fui até a porta do quarto e abri uma fresta. A Duda tava sentada no sofá, com um celular na mão, falando baixinho. “Não, você vem pra cá, ninguém vai saber.
Minha irmã é uma chata, mas ela dorme cedo. Pode vir, eu tô de portas abertas. ” Eu travei. “Quem é você?
” A Duda levantou a cabeça, assustada, e me viu na porta. “Ninguém, tava falando com uma amiga. ” “Com uma amiga, do meio da madrugada, que vai vir pra cá? ” Ela se levantou, com um sorriso falso, e veio me abraçar.
“Ai, mana, me desculpa, é que eu tava sentindo falta de uma pessoa, mas você não conhece. Não conta pro pai, tá? Por favor. ”
Eu empurrei ela, sem jeito, e falei: “Tá, mas faz menos barulho.
” Voltei pro quarto, mas não dormi. Fiquei deitada, ouvindo, e uma hora depois, ouvi a campainha. Abriram a porta devagar, ouvi vozes baixas, e depois a porta fechou. Eu fiquei ali, no escuro, com o coração batendo forte, esperando pra ver quem era.
Mas não ouvi mais nada. Pelo menos não até de manhã. No dia seguinte, quando acordei, a Duda tava na cozinha, fazendo café, assobiando. “Bom dia, irmãzinha.
” Eu perguntei, direto: “Quem veio ontem à noite? ” Ela sorriu, tomando um gole de café. “Ah, uma amiga da faculdade, veio buscar uma apostila emprestada. ” “De madrugada?
” “Ela tava desesperada, prova hoje. ” Eu não acreditei, mas resolvi deixar passar, porque eu não queria estragar o clima. Errei feio. A semana passou, e as coisas pioraram.
Eu comecei a notar umas roupas masculinas no varal, um aparelho de barba no banheiro. Quando perguntei, ela disse que era de um amigo, que tava lavando umas roupas pra ele. Uma noite, cheguei mais cedo do trabalho e achei a porta do meu quarto trancada por dentro. Bati.
“Duda? Duda, eu tô aqui fora. ” Ninguém respondeu. Ouvi um barulho, como se alguém tivesse pulado da janela.
Eu gritei o nome dela, arrombei a porta, e encontrei a janela aberta, o quarto vazio, e um bilhete no criado-mudo: “Não conta pro pai. Volto logo. ” Eu fiquei ali, parada no meio do quarto, com um aperto no peito. Ela tava brincando comigo.
Ela sempre tava brincando comigo. Na outra semana, a bomba estourou. Eu tava no trabalho, numa reunião, quando recebi uma mensagem da minha mãe: “Você vai pagar pela sua maldade, Carolina. Eu nunca mais quero te ver.
” Eu saí da reunião, liguei pra ela, ela não atendeu. Liguei pro Marcelo, ele atendeu, aos berros: “Você sumiu com a sua irmã, seu demônio! Eu vou acabar com a sua vida! ” Eu não entendia nada.
“O quê? O que vocês tão falando? Eu não fiz nada! ” “Nada?
A Duda fugiu, Carolina! Ela tava na sua casa, dizendo que tava morrendo de medo de você, que você tava enlouquecendo, que você tava querendo se vingar dela por causa do Bruno! Ela sumiu, e o celular dela tá desligado! Se você sabe de alguma coisa, fala agora!
”
Eu ri. Não tinha outra reação. “Ela tá te fazendo de palhaço, mãe. Ela foge com quem ela quiser, e vocês vêm me acusar de quê?
” Minha mãe começou a chorar, dizendo que a Duda tinha mandado um áudio dizendo que eu tinha ameaçado ela. E aí o Marcelo voltou pro telefone: “Você vai achar ela, Carolina, ou eu vou te dar queixa na polícia! Você é a última pessoa que viu ela! ” Eu desliguei, trêmula.
Aquilo era demais. A Duda tinha sumido e botado a culpa em mim. Eu fiquei horas sem saber o que fazer, andando de um lado pro outro no apartamento, até que meu celular tocou. Era um número desconhecido.
Atendi. “Carô? Sou eu, a Duda. ” Eu travei.
“Duda? Cadê você? O pai e a mãe tão… “.
“Escuta, tô te ligando porque eu preciso de dinheiro. Manda quinhentos reais por essa chave pix aqui, e eu não te incomodo mais. ” “O quê? Eu não vou te dar dinheiro, eu tô respondendo por sequestro por sua causa, sua louca!
” Ela riu, do outro lado. “Ah, para, você não tá. Só fala que eu tava com você e você não sabia de nada. Manda o dinheiro, ou eu sumo de vez e deixo você se virar com o velho e a minha mãe.
” E desligou. Eu fiquei olhando pro telefone, com uma raiva tão grande que eu achei que ia quebrar os dentes. Aquela menina era o diabo em pessoa. Eu não mandei o dinheiro.
Mas mandei um print da conversa pro meu padrasto, com a mensagem: “Achei ela. Ela tá bem. Não me liga mais. ” E desliguei.
No dia seguinte, a Duda apareceu em casa, toda serelepe, como se nada tivesse acontecido. Minha mãe e o Marcelo vieram atrás, achando que eu ia dar cobertura pra ela. Eu abri a porta, olhei pra cara dos três e falei: “Entra. Fica à vontade.
Vamos resolver isso de uma vez por todas. ”
Sentamos na sala. O Marcelo começou a gritar, dizendo que eu era uma péssima influência, que a Duda nunca tinha dado trabalho até vir morar comigo. A minha mãe chorava, dizendo que eu tinha inveja da minha irmã.
E a Duda, sentada no meio, com um sorrisinho no canto da boca, fingindo que tava arrependida, que tava com medo de mim. Foi aí que eu me cansei. Me levantei, fui até o meu quarto, peguei o celular da Duda que tinha ficado em cima da mesa quando ela fugiu, e voltei. “O que você vai fazer?
” A Duda corou. “Vou te mostrar quem é a vítima aqui. ” Abri o celular dela, que não tinha senha, e fui direto nas mensagens. Abri a conversa com um contato chamado “Bruno ♥”.
Mostrei a tela pra minha mãe e pro Marcelo, que tavam me olhando como se eu fosse louca. “Lê, mãe. Lê do início. ” Minha mãe pegou o celular, os olhos arregalados, e começou a ler em voz alta, com as mãos tremendo: “A gente tem que contar pra ela, Duda.
” “A gente conta depois, não faz drama. Ele vai ser meu, você vai ver. ” “Mas ela é sua irmã. ” “Ela é uma invejosa, que não merece nada.
Finge que é meu namorado na frente dela mais um pouco, deixa eu me divertir. Na hora que eu quiser, a gente conta que foi tudo um jogo. ” E as mensagens continuavam. Fotos íntimas que ela mandava pra ele, vídeos, e as respostas dele: “Eu não sei por que você gosta de mim assim, eu tô contigo, mas ela não pode saber ainda.
”
O silêncio que tomou conta da sala foi ensurdecedor. Minha mãe levantou os olhos do celular, pálida, e olhou pra Duda. “Isso… isso é verdade?
Você armou tudo isso? Você combinou com o Bruno de fazer de bobo a sua irmã, de me enganar, de fazer o seu pai passar vergonha no bar? ” A Duda tentou negar, mas as evidências estavam ali. O Marcelo pegou o celular da mão da mulher, olhou as fotos, leu as mensagens, e o rosto dele foi se desfigurando, da raiva pro ódio, do ódio pra uma tristeza funda.
Ele jogou o celular na parede, que se estilhaçou no chão. “Você… você é uma mentirosa, uma piranha, uma ingrata! ” Ele levantou a mão, e eu achei que ele fosse bater na Duda, mas ele se conteve, virou de costas e saiu andando, batendo a porta.
Minha mãe olhou pra mim, com os olhos marejados, e murmurou: “Eu sinto muito, Carol. Eu sinto muito por não ter acreditado em você. ” E saiu atrás do marido. A Duda ficou sentada no sofá, com o rosto pálido, finalmente sem saber o que fazer.
Eu olhei pra ela, com uma pena que eu nem sabia que eu podia sentir. “Agora entendeu? Você perdeu, Duda. Você perdeu tudo.
O Bruno, os teus pais, a tua mentira. Mas olha, você é nova. Você pode mudar. Mas longe de mim.
” Apontei pra porta. “Some. Vai morar com teu pai, vai morar com tua mãe, mas não fica mais na minha casa. Você não tem mais irmã.
”
Ela não disse nada. Levantou, pegou uma bolsa, e saiu sem olhar pra trás. Eu fiquei sentada na sala, no silêncio, ouvindo o eco da porta fechando. Não chorei.
Não tive forças pra chorar. Só fiquei ali, olhando pro vazio, pensando em como a minha irmã, a menina que eu criei como filha, a menina que eu carreguei no colo quando ela nasceu, tinha se transformado numa pessoa capaz de fazer aquilo comigo. E eu não sabia quem eu mais sentia raiva: se dela, ou de mim, por ter confiado nela por tanto tempo. Uns dias depois, a minha mãe me ligou, com a voz cansada, dizendo que a Duda tinha se mudado de vez, que tava morando com uma tia no interior, e que tinha assumido um namorado novo, que ninguém conhecia.
“Ela mandou dizer que não quer ver você de novo, Carol. Ela disse que você acabou com a vida dela. ” Eu ri sem graça. “Não, mãe.
Ela que acabou com a vida dela sozinha. Eu só tava assistindo. ” E desliguei. O Bruno tentou me procurar uma última vez.
Me esperou na porta do trabalho, com o rosto roxo, o olho ainda machucado, e uma cara de quem ia pedir desculpa. “Carô, eu preciso te explicar. A Duda me enganou, ela falou que você não queria mais namorar comigo, que você tinha pedido pra ela ficar comigo, que… “.
Eu cortei ele. “Bruno, olha no meu olho. ” Ele me olhou, com esperança. “Você deixou ela te beijar.
Você deixou ela morder sua orelha, na minha frente, no meio de um bar lotado. Você não é nenhum santo, você é um adulto que se deixou levar pela minha irmã. Você não merece explicação, e eu não te devo nada. ” Ele tentou falar, mas eu já tava de costas, andando.
“Achei bom você mudar o número de telefone, Bruno. Porque se você chegar perto de mim de novo, eu juro que eu te dou parte na polícia por assédio. ” E fui embora. Eu acabei me mudando daquele apartamento.
Não suportava mais olhar praquelas paredes. Achei um estúdio pequeno perto do trabalho, mais caro, mas pelo menos era só meu. Voltei a trabalhar, fui promovida, conheci gente nova. Minha mãe e o Marcelo ficaram uns meses sem falar comigo, até que um dia ela apareceu lá em casa, com um bolo e lágrimas nos olhos.
“Eu sei que eu errei, filha. Eu errei com você. Eu passei a vida inteira defendendo a Duda, achando que ela era uma menina boa, e eu te tratei como se você fosse a culpada de tudo. Me perdoa.
” Eu olhei pra ela, e senti um aperto no peito. “Mãe, eu te amo, mas eu preciso de tempo. Eu não tô pronta pra esquecer o que aconteceu. ” Ela assentiu, deixou o bolo em cima da mesa, e foi embora.
A gente foi se falando aos poucos, se aproximando de novo. Não do mesmo jeito, mas de um jeito que funcionava pra mim. A Duda, eu nunca mais vi. Soube por alto que ela tinha se casado cedo, que tinha mudado de cidade, que tava esperando um filho.
E eu, sinceramente? Desejei que ela fosse feliz. Mas bem longe de mim. Porque tem coisa que o tempo cura, mas tem coisa que a gente não esquece.
E irmã, pra mim, é quem tá do teu lado, não quem te apunhala pelas costas. Hoje, eu tô bem. Tenho minha casa, meu trabalho, meu círculo de amigos. E quando alguém me pergunta se eu tenho irmãos, eu dou um sorriso e digo que não, que sou filha única.
Porque pra mim, a Duda deixou de existir naquele bar, naquela noite, no momento em que ela escolheu ser quem ela era. E eu, depois de tanta tempestade, finalmente aprendi a me escolher primeiro.