Eu estava sentada no fundo de um auditório cheio, no meio de uma palestra sobre ética. A mulher no palco falava bonito, citava princípios, discursava sobre conduta profissional. E aquela mesma mulher estava a dormir com um aluno que tinha a infelicidade de ser meu marido. Ela viu-me na plateia, sorriu, e cumprimentou-me pelo nome diante de toda a gente, educada, simpática, como se nada se passasse.

E eu sorri de volta. Depois peguei no microfone e fiz uma pergunta que pôs o auditório inteiro num alvoroço. Mas deixem-me recuar um pouco, porque juro que não acordei naquele dia decidida a armar confusão. Chamo-me Diane, tenho 32 anos e sou advogada numa cidade do interior de São Paulo.
Tenho um escritório pequeno, mas honesto, bem situado, com clientela fiel e boa reputação. Não é nenhum escritório de novela com vista para a Avenida Paulista, mas paga as contas e dá-me orgulho. Saí do Nordeste aos 18 anos, com uma bolsa de estudos, uma mala e uma promessa à minha mãe. Prometi que ia ser alguém na vida e que ia mandar-lhe dinheiro todos os meses.
E mandei, todos os meses, desde que comecei a trabalhar. Lá de onde eu venho, um bom advogado era privilégio de quem tinha dinheiro. Eu queria ser a advogada de quem não tinha. Sou daquelas advogadas que o juiz já conhece pelo nome e pelo temperamento.
Já discuti com juiz em audiência, já bati na mesa do promotor, já fiz a parte contrária arrepender-se de ter aberto a boca. No fórum, uns respeitam-me, outros acham que sou barraqueira. Não me importo. Barraqueira que ganha as causas é advogada competente.
A minha secretária chama-se Gorete. Está comigo desde o primeiro dia do escritório, há sete anos. É o meu braço direito, o meu café das oito da manhã e o meu filtro de realidade. Diz sempre o que pensa, e é por isso que adoro trabalhar com ela.
Sou casada com o Bráulio há quatro anos. Ele tem 34 e é corretor de imóveis. E é bonito, mas bonito a sério, alto, moreno, de sorriso aberto. Conheci-o quando procurava casa para comprar.
Mostrou-me três casas, comprei a segunda e, de brinde, veio o corretor. O casamento era tranquilo, sem grandes crises nem grandes dramas. Dividíamos as contas, jantávamos juntos, víamos televisão. Vida de casal normal.
Até que um dia ele chegou a casa entusiasmado. – Dai, preciso de te contar uma coisa. – Diz, amor. – Estou a pensar em fazer faculdade de Direito.
Falava sério, mas com um brilho de criança que ensaiou o pedido ao espelho. Disse que me via a trabalhar, a defender pessoas, a lutar por causas justas, e que queria fazer parte daquilo. Que se formasse, tirasse a OAB e trabalhasse comigo. Que podíamos ser sócios, marido e mulher, parceiros no escritório.
Imaginei, e gostei do que imaginei. Ajudei-o a estudar para o vestibular. Ele não era burro, estava só enferrujado, mas pegou o ritmo depressa. Passou numa faculdade particular da cidade, de curso noturno, perfeito para quem trabalhava de dia.
Nos primeiros meses, chegava a casa a falar das aulas, dos professores, dos colegas, a contar histórias e a queixar-se das matérias difíceis. Parecia um miúdo de 18 anos. Eu achava bonito vê-lo animado com uma coisa nova. Passado um ano, a rotina assentou.
Ele trabalhava de dia, ia para a faculdade à noite e chegava a casa perto das onze. Víamos-nos menos, mas era por pouco tempo. Foi então que apareceu no meu escritório uma rapariga a pedir estágio. Maria, 23 anos, estudante de Direito.
Bem apresentável, cabelo arranjado, roupa social, currículo na mão. Gostei dela de imediato. Boas notas, dedicada, falava bem e demonstrava interesse genuíno na área cível. Estudava na mesma faculdade que o Bráulio, um semestre abaixo dele.
Contratei-a nessa noite e comentei ao jantar. – Amor, contratei uma estagiária nova. Uma rapariga nova, estudiosa, parece ser boa. Estuda na tua faculdade.
O Bráulio nem levantou os olhos do prato. – Ah, que bom, Dai. Como é que ela se chama? – Maria.
– Maria, não conheço nenhuma Maria. Mas também ainda não conheço muita gente lá. E continuou a comer. Às vezes ele passava no escritório para me buscar e íamos jantar fora.
Na semana seguinte, apareceu como sempre, cumprimentou a Gorete e viu a Maria sentada na recepção. O Bráulio congelou. Ficou pálido, travado, como se tivesse visto um fantasma. A Maria olhou para ele, sorriu e cumprimentou-o.
Eu apareci e apresentei-o. – Amor, esta é a Maria, a estagiária nova de que te falei. – Maria? – repetiu ele baixinho.
A Maria respondeu, sorridente:
– Maria Bianca, mas na faculdade chamam-me Bia. Que coincidência, doutora. Não sabia que o Bráulio era seu marido. Conheço-o da faculdade.
O Bráulio concordou, meio sem jeito. – Pois é, que coincidência. Quando falaste em Maria, Dai, não reconheci. Conheço-a como Bia.
Cumprimentou-a com um rápido aceno, daqueles de quem quer encerrar o assunto, e puxou-me. – Vamos, Dai. Reservei mesa naquele japonês de que gostas. Pensei que estivesse sem graça por não ter grande convivência com ela.
Normal. Nem todos os colegas são amigos. Os meses passaram e a Maria encaixou-se na perfeição no escritório. Pontual, organizada, aprendia depressa, escrevia bem, pesquisava jurisprudência sem eu pedir.
A Gorete, porém, não gostava dela, sem motivo aparente. Perguntei-lhe uma vez o que se passava, e ela respondeu na lata:
– Não sei, doutora. O santo não bate. Essa miúda tem uma energia ruim.
Olho para ela e o meu olho esquerdo começa a tremer. Ri e mandei-a parar com aquilo. Achei que fosse ciúme. A Gorete era a única funcionária há sete anos, e chegava uma miúda nova, bonita e dedicada.
Era normal sentir que estava a perder espaço. Na altura de um almoço, o Bráulio comentou:
– Dai, na quarta que vem há uma palestra na faculdade. A professora Isadora Pinto vai falar sobre ética. Vou chegar mais tarde nesse dia, quero ficar até ao fim.
Deixei o garfo no ar. – Oxente, Isabela… quer dizer, Isadora Pinto? A advogada? – Sim, é professora lá na faculdade.
Conheces? – Conheço de vista, do fórum. Cumprimentamo-nos. Sabias que ela é casada com o reitor da faculdade?
O Bráulio engoliu em seco, bebeu um gole de água e desviou. – Não sabia, não. Que bom para ela. Viste que amanhã vai chover?
E o assunto morreu ali. Na semana seguinte, a Maria bateu à porta da minha sala. Duas batidas curtas, quase a pedir desculpa por existir. – Doutora, posso falar consigo sobre um assunto particular?
– Claro, Maria. Entra e fecha a porta. Ela fechou, sentou-se e ficou em silêncio uns segundos. Estranhei.
A Maria nunca enrolava. Ela tirou o telemóvel da bolsa, mexeu um pouco e enviou-me várias fotografias. O Bráulio e a professora Isadora Pinto, no estacionamento da faculdade, lado a lado, a entrar no carro dele. Na foto seguinte, o carro dele a entrar num motel.
Noutra, os dois a sair do motel. Hora e data no canto da imagem. – Doutora, vi o Bráulio a sair com a professora Isadora em hora de aula, mais de uma vez. Tirei estas fotos porque achei que a senhora precisava de saber.
Olhei para aquelas fotografias em silêncio. Ampliei, vi o rosto dele, o rosto dela, a matrícula do carro. Não havia como negar. O meu estômago embrulhou, as mãos gelaram.
O sangue subiu-me à cara e ao mesmo tempo fugiu-me dos pés. O corpo inteiro não sabia se queria explodir ou desmaiar. A vontade era levantar-me, ir ao trabalho dele e arrancar-lhe os olhos diante de Deus e do mundo. Mas qualquer coisa dentro de mim travou.
Uma voz lá no fundo, que parecia muito com a minha mãe, disse-me: calma, Diane, respira, pensa direito. Respirei fundo, engoli o grito e perguntei:
– Maria, mas por que é que seguiste o Bráulio? Ela olhou-me nos olhos sem se desviar. – Considero-a minha amiga, não só a minha chefe.
Vi-os sair juntos depois de uma aula e achei estranho. Na segunda vez, resolvi seguir. Se fosse comigo, gostava que alguém me avisasse. Nenhuma mulher enganada merece ser a última a saber.
Sororidade. A geração Z leva a sororidade muito a sério. – Obrigada, Maria. De verdade.
Agora preciso de um momento sozinha. Ela saiu em silêncio e fechou a porta. Fiquei a olhar para o telemóvel. Aquele filho da mãe, o homem que eu ajudei a estudar, que apoiei, de quem estava orgulhosa.
Estava lá, descansado, num motel, com a professora de ética. De ética. A mulher dava aulas de ética e dormia com um aluno casado. Se aquilo não era ironia, não sabia o que era.
Dois segundos depois, a porta abriu. Era a Gorete, com uma chávena de café na mão e aquela cara de quem farejou o problema. – Doutora, morreu alguém? – Ainda não, Gorete.
– A senhora está com uma cara que não sei se lhe ofereço um café ou uma pá. – O café está bom, Gorete. Obrigada. Ela pôs a chávena na mesa, olhou-me de cima a baixo com aquele raio-X de secretária que trabalha com advogada há sete anos e já viu de tudo.
– Se a senhora precisar de uma pá, saio agora mesmo para a comprar. Apesar de tudo, ri. Aquela Gorete era a melhor cúmplice que eu podia ter. Ela saiu e deixou-me sozinha.
Tomei o café em silêncio, a olhar para a parede, a pensar no Bráulio, na Isadora, nas fotografias. E no comentário dele sobre a palestra da doutora. A palestra. Larguei a chávena.
Que dia era hoje? Quarta-feira. Hoje. O coração disparou.
Era a mesma sensação de antes de uma audiência difícil. Adrenalina, foco, vontade de ganhar. A palestra era hoje, e eu ia estar lá. Liguei para a secretaria da faculdade a informar-me.
Tinha um plano. A Gorete percebeu na hora. – Essa cara eu conheço, doutora. É a mesma cara que a senhora faz antes de ganhar uma causa.
– Imagina, Gorete. Vou só assistir a uma palestrinha sobre ética. Passei a tarde a tentar trabalhar sem conseguir. Li o mesmo parágrafo de uma petição quatro vezes e não entendi nada.
Às seis e meia, peguei na bolsa, confirmei que o telemóvel estava carregado, passei batom e saí. – Boa palestra, doutora – disse a Gorete, sem tirar os olhos do computador. – Obrigada, Gorete. E se correr mal, liga-me, que eu vou ao teu encontro com a pá.
Entrei no carro e fui. Cheguei à faculdade às sete e dez. O estacionamento estava cheio. Peguei no crachá de visitante, coloquei-o no pescoço e entrei.
O auditório era grande e estava apinhado de alunos. Na primeira fila, bem ao centro, sentado com postura de dono do lugar, estava o reitor. Sessenta anos, cabelo grisalho, terno escuro, aliança a brilhar, orgulhoso, à espera que a esposa brilhasse. Coitado.
Passei os olhos pela plateia. O Bráulio estava lá, claro. Na fila do meio, a rir com uns colegas, relaxado, sem a menor ideia de que a mulher dele estava a vinte metros. Vi a Maria também, sentada num canto, sozinha.
Sentei-me na última fila, perto da saída. Discreta. Só mais uma visitante com crachá. Às sete e quarenta e cinco, a Isadora Pinto subiu ao palco.
Vou ser honesta: a mulher era bonita, mas não mais do que eu. Uns quarenta e muitos anos, cabelo castanho bem cortado, roupa elegante, postura de quem sabe que está a ser olhada e gosta disso. Sorriu para o reitor na primeira fila. Ele sorriu de volta.
Ela ajeitou o microfone, abriu as anotações e começou. – Boa noite a todos. Para quem não me conhece, chamo-me Isadora Pinto. Sou advogada e professora de ética desta universidade.
Hoje vamos falar sobre ética profissional, ética académica e ética nas relações de poder dentro do ambiente educacional. Falou durante uns quarenta minutos. Citou filósofos, leis, casos reais. Falou sobre integridade académica, sobre os limites da relação professor-aluno, sobre como o poder corrompe quando não há fiscalização.
O auditório era o retrato da faculdade brasileira. Havia quem anotasse tudo, quem jogasse no telemóvel, quem cochichasse, quem dormitasse. E havia o Bráulio. Não tirava os olhos dela.
Assistia com cara de encantado, como se estivesse a ver a mulher mais linda e inteligente do mundo. Até filmou partes com o telemóvel levantado. Na minha cara. Ele não sabia que eu estava ali, mas eu vi.
E a cada tópico sobre ética, o meu sangue subia mais um grau. Toda a gente ali parecia acreditar naquela mulher. Toda a gente comprava aquele discurso bonito. Toda a gente, menos eu.
Isadora terminou e abriu para perguntas. – Alguém tem alguma pergunta ou consideração a fazer? Levantei a mão. Uma auxiliar trouxe-me o microfone.
Isadora olhou para o fundo da sala, reconheceu-me e sorriu. – Ora, doutora, que prazer tê-la aqui connosco. Alguns alunos viraram-se para ver quem era. O Bráulio não.
Estava a mexer no telemóvel. Sorri de volta, educada, simpática, como duas advogadas que se cumprimentam no corredor do fórum. – O prazer é meu, professora. Obrigada pela palestra, muito esclarecedora.
Tenho uma pergunta. O que pensa sobre relacionamento entre professor universitário e aluno? É ético? O sorriso da Isadora encolheu, mas ela recompos-se depressa.
– É uma questão delicada. Em tese, são dois adultos, mas existe uma assimetria de poder que compromete o consentimento. O professor tem influência sobre notas, aprovação e o futuro académico do aluno. Na minha opinião, e na opinião da maioria dos códigos de conduta, não é ético.
– Interessante, doutora Isadora. Mas se na sua opinião isso não é ético, por que é que a senhora está a dormir com um aluno casado? O auditório inteiro prendeu a respiração ao mesmo tempo. Finalmente, o Bráulio levantou a cabeça do telemóvel e virou o pescoço devagar para o fundo da sala.
Quando me viu, travou. A boca abriu, o telemóvel quase caiu da mão. Vi o momento exato em que a alma podre dele lhe saiu do corpo. Isadora ficou em silêncio durante três segundos.
O sorriso sumiu. – Doutora, não entendi a sua pergunta. – Pois não, doutora. Vou repetir.
Se a senhora não acha ético um relacionamento entre professor e aluno, por que é que a senhora está a dormir com o meu marido? Isadora cortou na hora. – Olhe, doutora, acho que isto está a escalar de uma forma que a senhora não vai querer. Está a fazer insinuações graves num evento público, com centenas de testemunhas.
Isso configura difamação. Se continuar, vou processá-la. O auditório fez um “oh” baixinho, como plateia de programa de televisão. Eu sorri.
Daqueles sorrisos que dou quando o advogado da parte contrária acha que me intimidou. – Doutora, sinta-se à vontade para processar quem quiser. A senhora é advogada, macaca velha, e sabe como funciona. Mas eu também sou.
E tenho provas de que a senhora sai com o meu marido em hora de aula. Inclusive, se quiser, posso enviar tudo agora mesmo ao magnífico reitor, seu marido, aqui presente, para ele lhe encaminhar depois, já que não tenho o seu número pessoal. Pois é. Eu tinha o número do reitor.
Era meu cliente. Fiz a documentação de um imóvel da família dele dois anos antes. O mundo é pequeno, o interior é ainda menor. Isadora ficou parada no palco.
A boca abriu e fechou, sem som. Procurava uma resposta, uma saída, qualquer coisa para retomar o controlo. Vi-lhe nos olhos o desespero de uma advogada que sabe que perdeu o caso, mas ainda não aceitou. E foi então que, do nada, alguém gritou do meio da plateia.
– O Bráulio está a andar com a professora Isadora! Reconheci a voz. Era a Maria. O auditório explodiu em burburinho, trezentas cabeças a virar para todos os lados.
E adivinhem o que a doutora Isadora fez? Levou a mão à testa, revirou os olhos e caiu no palco. Fingiu que desmaiou. Eu conheço teatro quando vejo.
Caiu com a mão na testa, o corpo a tombar devagar para o lado, o outro braço a sustentar a queda. Artístico, cinematográfico. Só faltou a música dramática de fundo. Mas o desmaio não adiantou de nada.
Ninguém esqueceu o que acabara de ouvir. Um miúdo grande, uns vinte e tal anos, sentado umas filas atrás do Bráulio, levantou-se depressa. Olhou para ele com cara de quem estava a juntar as peças e não gostava do resultado. – Bráulio.
É verdade isso, cara? O Bráulio levantou as mãos. – Calma, Mateus, eu explico. – Estás a pegar na Isadora?
– Escuta, cara, vamos conversar. O soco veio antes da explicação. O Bráulio caiu da cadeira. O miúdo foi para cima dele.
– Eu pensava que eras meu amigo, seu merda! Vou-te dar uma lição para deixares de ser talarico! Cadeiras a cair, gente a gritar, a empurrar. Colegas tentavam separar, mas ao mesmo tempo queriam ver o sangue.
E os que assistiam começaram a comentar em voz alta, sem vergonha nenhuma. – A professora está a sair com os dois, mano. Esses dois só têm nota alta na matéria dela. E são péssimos em tudo o resto.
– O Bráulio quase não vem à faculdade. – Calma. Será que é por isso que foram os únicos a tirar dez na matéria dela? Ela nunca dá mais do que sete ao resto da turma.
Eu tirei seis e cinco no semestre passado e estudei duas semanas para aquela prova. O auditório virou campo de batalha. Alunos a levantar-se, a gritar, a apontar. O Bráulio e o Mateus eram os únicos com dez em ética, e agora toda a gente sabia porquê.
Os que se matavam a estudar e tiravam, no máximo, sete, estavam furiosos com a injustiça. Uns riam de nervoso, outros filmavam com o telemóvel. Uma rapariga chorava a dizer que quase perdera a bolsa por causa de nota baixa em ética. E, no meio daquilo, porque há sempre quem não leva nada a sério, uns miúdos no fundo começaram a gozar.
– Então era só dar uns amassos na professora para passar com dez? Cadê a lista para eu pôr o meu nome? – Se eu soubesse, tinha tentado no primeiro semestre. As namoradas ao lado não acharam piada nenhuma.
Uma deu um estalo no braço do namorado tão forte que se ouviu do outro lado da sala. Outra levantou-se, pegou na bolsa e saiu sem dizer palavra. O miúdo correu atrás dela. – Amor, era brincadeira!
No meio de toda a confusão, quase me esqueci das fotografias. Tinha prometido enviá-las ao reitor, e a minha cabeça andava a mil. Olhei para o palco. Ele estava lá, de braços cruzados, a assistir àquele circo com cara de quem ainda não decidira se acreditava.
Acusação de aluno é uma coisa; prova é outra. Peguei no telemóvel, abri as fotos, selecionei todas e enviei-as para o número dele. Dali do fundo, vi o momento exato em que o telemóvel dele vibrou várias vezes no bolso. Tirou-o, olhou para o ecrã, ficou uns segundos parado, passou para a fotografia seguinte, e para a seguinte.
O rosto não mudou, mas o corpo enrijeceu. Guardou o telemóvel devagar, aproximou-se da Isadora, que ainda estava sentada no palco, inclinou-se e disse-lhe qualquer coisa ao ouvido. Endireitou-se, arranjou a gravata e saiu do recinto sem olhar para trás. Isadora começou a chorar.
Desta vez a sério. Já não era teatro. Era o choro de quem acabou de perder tudo. A briga já tinha acabado.
Uns colegas separaram os dois, e o Mateus saiu a bufar para o outro lado do auditório. O Bráulio estava de pé, de lábio cortado, camisa rasgada, olho a inchar, sozinho no meio do caos. Foi então que a Maria apareceu, pôs-lhe a mão no ombro e disse-lhe qualquer coisa. Não ouvi o que ela disse, mas a reação dele ouvi perfeitamente.
– Sai de perto de mim, sua escrota! Não quero falar contigo nunca mais! Nunca mais vais tirar um tostão de mim, sua pirralha ridícula! A Maria recuou.
Os olhos encheram-se de água, o queixo tremeu. Ficou ali parada no meio do auditório destruído. Nunca mais vais tirar um tostão de mim. Que história era aquela?
O Bráulio olhou para mim. Os nossos olhos cruzaram-se. Veio na minha direção, com cara de raiva, a apontar o dedo. – Estás contente agora, Diane?
Satisfeita? Precisavas de fazer isto diante de toda a gente? – Mas o que é que eu fiz, Bráulio? Só vim assistir à palestra da tua professora favorita.
– És uma cínica, Diane. Uma mulher amarga e barraqueira. E queres saber? Traí-te mesmo.
Traí-te porque és fria, grossa. És o tipo de mulher que nenhum homem aguenta. Eu e a Isadora amamo-nos a sério. Ela era diferente.
Era a mulher dos meus sonhos. Delicada, feminina, amorosa, chique. Não uma baranga barraqueira como tu. Espero que fiques sozinha para sempre.
Engoli cada palavra. Doeu, mas não ia dar-lhe o gosto de me ver chorar diante daquela gente toda. – Já acabaste? Então agora explica-me que raio de discussão foi aquela com a Maria?
Ele parou. A raiva que estava toda em cima de mim mudou de direção. Decidiu que, se ia afundar, levava toda a gente com ele. – Queres mesmo saber, Diane?
A tua estagiária maravilhosa, a Maria Bianca, é uma chantagista. Tive um caso com ela antes da Isadora. Ela estava obcecada por mim. Descobriu que eras minha mulher e procurou o teu escritório de propósito.
E tu, palerma, contrataste-a. Começou a chantagear-me. Queria que eu voltasse para ela, e eu não quis. Então passou a cobrar mil reais por mês para não te contar nada.
Mil reais por mês. A minha estagiária, a minha, entre aspas, amiga. A menina da sororidade. Olhei para a Maria do outro lado do auditório.
Estava a chorar. Não era choro de tristeza. Era choro de quem foi apanhada. Abanei a cabeça devagar, a olhar-lhe nos olhos, desapontada.
A Gorete tinha razão. A energia era ruim, o olho esquerdo tremia, e eu não vi nada. Fui traída pelo marido e manipulada pela estagiária. Duas facadas nas costas no mesmo dia.
Nesse momento, vi a Isadora a sair do auditório, com alunos à volta a reclamar das notas, outros a fazer piadas de mau gosto. O circo ainda não tinha acabado. O Bráulio viu-a e fez a coisa mais patética que já vi um homem fazer. Correu atrás dela, a empurrar gente, a gritar:
– Isadora, espera!
Alcançou-a perto da porta e segurou-lhe o braço. – Isadora, espera. Vou largar a faculdade, largar a minha mulher. Agora podemos ficar juntos a sério.
Isadora olhou para ele. E o que saiu da boca dela, nunca hei de esquecer. – Solta-me, seu animal. Sai de perto de mim.
Nunca mais te aproximes, seu burro idiota. Achas que eu queria algo sério com um Zé Ninguém como tu? Olha-te ao espelho. E empurrou-o para passar.
O Bráulio cambaleou para trás. Os alunos à volta gritaram, riram, filmaram. Ele ficou ali, sozinho, a ver a Isadora ir embora. Perdeu a esposa, perdeu as amantes, perdeu os amigos, perdeu a dignidade.
Descobriu que não era especial para ninguém. Peguei na minha bolsa e fui embora. Não tinha mais nada para fazer ali. No caminho para o estacionamento, uns alunos alcançaram-me.
– Doutora, a senhora é advogada, não é? Dá para processar a faculdade por causa do favorecimento das notas? E a professora Isadora? Parei, abri a bolsa e distribui cartões de visita ali mesmo, debaixo da luz do poste.
Advogada é advogada em qualquer situação. Entrei no carro, liguei o motor e fiquei parada uns dois minutos a olhar para o volante. As mãos tremiam de raiva, alívio, desilusão e adrenalina, tudo misturado. Peguei no telemóvel e liguei para um chaveiro 24 horas.
– Boa noite. Preciso de trocar todas as fechaduras da minha casa hoje. Agora. Quanto custa?
O chaveiro chegou em vinte minutos. Troquei as duas fechaduras, a do portão e a da porta principal. Uma hora depois, o Bráulio chegou. Ouvi a chave na fechadura.
Tentou uma vez, duas, três. A chave não entrava. Começou a tocar à campainha. – Diane, abre-me.
A chave da porta está emperrada. Abri a janela da sala. – Mandei trocar a fechadura. Esta casa é minha.
Vai dormir a casa de uma das tuas amantes, porque aqui não entras mais. – Não podes fazer isto. Eu moro aqui. – Moravas.
A casa está no meu nome, Bráulio. – E as minhas coisas? Entrei, subi, abri o roupeiro e comecei a atirar tudo pela varanda. Camisas, calças, cuecas, sapatos, cintos, ternos.
Ia atirando, e ele lá em baixo apanhava do chão e enfiava no carro. Parecia cena de novela. Os vizinhos acenderam as luzes. Uma vizinha abriu a janela de touca na cabeça para assistir.
Quando acabou, olhei lá de cima. – Pronto. Agora sai da minha porta antes que eu chame a polícia. O Bráulio enfiou a última peça na bagageira, olhou para cima uma vez e foi-se embora.
Não sei para onde. Não me importei. Na manhã seguinte, cheguei ao escritório às oito em ponto. A Gorete já lá estava, com o café pronto.
– Bom dia, doutora. Como foi a palestra? – Produtiva. Gorete, liga à Maria.
Manda-a vir buscar as coisas dela e assinar o encerramento do contrato de estágio. A Gorete parou e olhou-me por cima dos óculos. – Encerramento? Mas o que é que aconteceu?
– A Maria estava a chantagear o Bráulio. Teve um caso com ele antes de ele ter um caso com a doutora Isadora Pinto. Procurou o meu escritório de propósito porque descobriu que eu era a mulher dele. Cobrava mil reais por mês para não contar nada.
A Gorete ficou em silêncio uns três segundos, pensativa, com cara de descrença. Finalmente soltou:
– Doutora, é verdade que essa mulher se chama Isadora Pinto? Ri genuinamente. – Gorete, de tudo o que te contei, só prestaste atenção ao nome?
– Prestei atenção a tudo, doutora. Mas o nome não podia deixar passar. – E o Bráulio? – Troquei as fechaduras de casa ontem à noite.
E vou entrar com o divórcio. A Gorete assentiu, não disse mais nada, pegou no telefone e ligou à Maria. A Maria apareceu no fim da tarde. Entrou calada, de cabeça baixa, pegou nas coisas da gaveta, o caderno, uma caneca, umas canetas, pôs tudo num saco e assinou o encerramento do contrato sem ler.
Antes de sair, parou à porta da minha sala. – Doutora, preciso de explicar. – Não precisas. Podes ir, Maria.
A Gorete estava do lado de fora, a segurar a porta. – Adeus, querida. Vai com Deus. A Maria saiu sem olhar para trás.
Entrei com o processo de divórcio na mesma semana. Não havia bens para disputar. Casámos com separação total de bens. O Bráulio saiu do casamento com o que entrou: o portátil do trabalho e as roupas.
O divórcio saiu rápido, sem contestação, sem drama. O Bráulio nem apareceu na audiência. Voltou à vida antiga, mas agora pagava sozinho o aluguel, a luz, a água, o mercado, a gasolina, a faculdade, o carro. Tudo o que antes era dividido, ou que eu pagava na maior parte, agora era só dele.
O salário não chegava. A primeira coisa que cortou foi a faculdade de Direito. O sonho de ser advogado e trabalhar comigo morreu junto com o casamento. Agora era apenas o corretor de imóveis com o lábio cicatrizado e uma história que toda a cidade conhecia.
Quanto à Maria, saiu do meu escritório e foi procurar estágio noutros lugares. O problema é que o mundo jurídico da cidade é pequeno. Todos os escritórios que ligavam a pedir referências ouviam a mesma resposta, dada com a maior educação do mundo:
– Maria Bianca? Ah, sim.
Trabalhou comigo, mas não é confiável. Três palavras. Numa área onde a confiança é tudo, aquilo era uma sentença. A Maria não conseguiu mais estágio na cidade.
Acabou por arranjar uma vaga a duas horas de distância. Duas horas para ir, duas para voltar, quatro horas por dia dentro de um autocarro. Mil reais de chantagem por mês não compensaram muito, pois não, Maria? E a Isadora?
O reitor pediu o divórcio, silencioso e discreto, como tudo o que fazia. Isadora perdeu o cargo de professora e continuou a advogar, mas no fórum ninguém esquece. Cada vez que entrava numa sala de audiências, ouviam-se cochichos. Os juízes olhavam torto.
A doutora Isadora Pinto, professora de ética, virou sinónimo de falta de ética no fórum. E eu tratei dos processos dos alunos contra a faculdade. Fraude académica, favorecimento de notas, prejuízo aos estudantes. Ganhei não um, não dois.
Dezenas. O escritório cresceu. Contratei outra estagiária. Desta vez, a Gorete fez questão de entrevistar comigo.
– Doutora, se o meu olho esquerdo tremer, a miúda não entra. A faculdade, depois de perder todos aqueles processos, fez-me uma proposta. Queriam contratar-me como advogada da instituição. Bom salário, estabilidade, prestígio.
O reitor ligou-me pessoalmente. – Doutora, a senhora é uma das melhores advogadas desta cidade. Prefiro tê-la do meu lado do que contra mim. Agradeci e recusei.
– Senhor reitor, agradeço. Mas não me leve a mal. Gosto de onde estou. Gosto de lutar pelo povo.
Foi para isso que me formei. O reitor entendeu. Disse que respeitava a minha decisão e continuou a ser meu cliente para assuntos pessoais. O povo da cidade passou a conhecer-me como a advogada corneada que transformou os cornos numa carteira de clientes.
Paravam-me na rua. – Doutora, o meu marido também me traiu. Aceita o meu caso? Aceitava.
Tornei-me, sem querer, a advogada das mulheres traídas. Candidatei-me a vereadora na eleição seguinte. Fiz campanha no boca a boca, a andar pelas ruas do interior, com a Gorete ao lado a distribuir panfletos e a falar com toda a gente. Ganhei de lavada.
Agora estou aqui, no meu escritório, com a clientela fiel, a apresentar projetos na Câmara Municipal todas as semanas. Se alguém me dissesse, há uns anos, que eu ia virar vereadora por causa de um par de cornos, ria-me na cara da pessoa. Mas é a vida. Às vezes as coisas acontecem por um motivo.
Às vezes o pior dia da tua vida é o primeiro dia da tua melhor fase. E a Gorete? Já não é minha secretária. Agora é minha assessora.
Vai comigo a todo o lado: reuniões na Câmara, visitas aos bairros, eventos, inaugurações. Não é só porque é competente. É porque aquela mulher tem um radar para gente mal-intencionada que nunca falha. Se o olho esquerdo dela tremer, eu já sei que há gato escondido com cauda de fora.
E pensar que tudo começou numa palestra de ética dada por alguém sem ética nenhuma.