A campainha tocou, e a porta foi-se abrindo devagar. A palavra “Ursinha” morreu na boca dele. Parado, de boca aberta, estava um homem com camisa de oncinha aberta até ao umbigo, cordões dourados,…

A campainha tocou, e a porta foi-se abrindo devagar. A palavra “Ursinha” morreu na boca dele. Parado, de boca aberta, estava um homem com camisa de oncinha aberta até ao umbigo, cordões dourados,...

A campainha tocou. A porta foi-se abrindo devagar. A palavra “Ursinha” morreu na boca dele. Paralisado à entrada, de boca aberta, estava um homem com uma camisa de oncinha aberta até ao umbigo, cordões dourados grossos ao peito, calças pretas apertadas e óculos escuros.

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Parecia um gigoló. Numa mão, um buquê de rosas vermelhas. Na outra, um saco que lhe tinha escapado das mãos e caído no chão, deixando rolar um brinquedo de borracha até parar mesmo aos pés do meu pai. — Ricardo, que raio estás aqui a fazer?

Foi a sexta-feira mais hilariante da minha vida. Mas antes de continuar, deixa-me recuar um pouco e contar como chegámos àquela cena vergonhosa. O meu nome é Eloía, tenho vinte e três anos e sou formada em ciências contabilísticas, tal como a minha mãe. Moro em São Bernardo do Campo, no ABC Paulista, na casa que a minha mãe comprou sozinha, antes sequer de conhecer o meu pai.

Os meus pais separaram-se quando eu tinha nove anos. Foi um divórcio sem brigas, sem pratos a voar. O amor acabou e cada um seguiu o seu caminho. O meu pai fez as malas, beijou-me a testa, prometeu ver-me aos fins de semana e foi-se embora.

A minha mãe, Cristina, era contabilista, fazia piadas de tia, dançava forró sozinha enquanto fazia o almoço e tinha uma samambaia chamada Genoveva, que levava reprimendas quando murchava. A única pessoa de quem ela gozava com vontade era dela própria. O meu pai, Arnaldo, era funcionário público há mais de vinte anos. Sinceramente, nem eu sei bem o que ele faz lá.

É daquele tipo de funcionário que trabalha com papelada e burocracia. Num sábado qualquer, quando eu tinha uns treze anos, o meu pai veio buscar-me para um passeio. Estava arranjado e com perfume. — Filha, hoje vais conhecer a minha namorada, Úrsula, e a filha dela, Sofia.

Ah, era isso. Ele nunca se arranjava tanto para sair comigo. Fomos ao centro comercial. As duas estavam à espera na praça de alimentação.

A Úrsula sorria muito. Um sorriso que não se desligava por nada. Dizem que um sorriso genuíno não dura mais do que quatro segundos. O dela durou quase quatro horas.

A Sofia era uma criança de oito anos daquele tipo que achava que o mundo girava à volta dela. A meio do almoço, atirou o copo de sumo para o chão e cruzou os braços, porque o sumo tinha vindo no sabor errado. A Úrsula não lhe chamou a atenção, continuou a sorrir. O meu pai pediu desculpas à menina, correu ao restaurante e comprou outro sumo.

A Sofia nem agradeceu. Voltei para casa e contei à minha mãe. — Mãe, a namorada do pai não parou de sorrir para mim um segundo sequer. A minha mãe baixou o livro devagar, tirou os óculos e deu uma risadinha.

— Ah, minha filha, ninguém faz horas extraordinárias de sorriso de graça. Ela quer mostrar ao teu pai que vai ser a melhor madrasta do mundo. Caímos as duas na risada. A minha mãe era a minha melhor amiga e uma coisa eu podia afirmar: ela tinha sempre razão.

Alguns meses depois, o meu pai casou-se com a Úrsula. Os passeios de sábado foram diminuindo aos poucos, daqueles que nem damos conta quando param. Acabei por ver o meu pai três ou quatro vezes por ano. Os anos foram passando e a vida fez o que faz de melhor: baralhou tudo.

Eu tinha quase quinze anos quando a minha mãe descobriu que estava doente. A primeira coisa que disse ao voltar do médico foi:
— Eloía, não te preocupes, vai correr tudo bem. Foram quatro anos de tratamento, mas a minha mãe continuava firme e forte. No meio daquele caos, prestei exame de acesso à universidade e entrei em ciências contabilísticas na Federal de Minas Gerais.

A minha mãe chorou como se a aprovada fosse ela. Poucos dias depois, a minha mãe foi internada. Sempre que eu chegava para a visitar, ela tinha um pedido só:
— Eloía, rega a Genoveva. Aquela precisa de água.

Eu regava e até conversava com a planta. Achei que, se mantivesse a Genoveva viva, mantinha a minha mãe viva também. Quem dera a vida funcionasse assim. A minha mãe nunca mais voltou para casa.

O meu pai ajudou a organizar o velório. Apareceu sozinho, de fato preto. Tratou dos papéis do enterro. Para ser justa com ele, cumpriu o papel de pai naquele dia.

Antes de ir embora, veio ter comigo. — Eloía, se quiseres, posso ficar aqui contigo por um tempo. Trago a Úrsula e a Sofia e ajudamos-te a reorganizar tudo. Eu disse que sim, sem pensar duas vezes.

Tinha apenas dezoito anos e não sabia como funcionava uma casa. IPTU, contas, papelada. O meu pai trabalhava com burocracia o dia inteiro. Era a pessoa certa para me ensinar.

No dia seguinte, tocaram à campainha, os três com mala na mão. A Úrsula chegou com cara de luto, treinada. Sobrancelha levantada, mão no peito, suspiro pesado a cada três passos. O meu pai estava mesmo triste.

Ele morara naquela casa mais de dez anos com a minha mãe e via-se a nostalgia misturada com a tristeza no olhar dele. A Sofia vinha atrás, com o telemóvel colado à mão. A primeira semana foi tranquila. O meu pai arranjava as coisas que precisavam.

A Úrsula cozinhava. A Sofia ficava na dela, com os auscultadores. Naqueles dias, cheguei a pensar que tinha julgado a Úrsula mal anos antes. Aquele sorriso todo no centro comercial talvez não fosse falso.

Foi nessa primeira semana que o Dr. Raimundo me chamou ao escritório. Ele era sócio do escritório de contabilidade e advocacia onde a minha mãe trabalhava. A notícia era boa: a minha mãe tinha deixado tudo organizado e pago adiantado.

Os advogados da casa iriam tratar do inventário, do levantamento dos bens e da transferência da casa para o meu nome. Eu não precisava de me preocupar com nada. Antes de eu sair, ele disse-me:
— Eloía, quando te forma e quiseres começar a trabalhar, lembra-te de nós. O lugar é teu antes mesmo de pedires.

Agradeci e chorei o caminho todo até casa. Era a minha mãe a continuar a tomar conta de mim. Foi nessa altura que abriu a matrícula da universidade. O meu pai perguntou:
— Eloía, não vais fazer a matrícula?

Ir para Belo Horizonte significava deixar a casa da minha mãe abandonada durante quatro anos. Pensei em adiar. Foi então que veio a proposta. — Elô, o contrato de arrendamento da nossa casa está a terminar.

Podemos ficar aqui enquanto andas na universidade. Pagamos as contas, cuidamos da casa, mantemos tudo em ordem. Não tens de te preocupar com nada. Era a solução perfeita.

Eu seguia com a universidade, coisa que a minha mãe queria mais que tudo, e a casa ficava segura. Disse que sim, sem rodeios. — Volto nas férias, está bem? — Claro que sim, minha filha.

A casa é tua. Aluguei um quarto em Belo Horizonte. Empacotei as coisas mais preciosas da minha mãe: fotografias, alianças, joias, livros. Guardei tudo no fundo do armário do meu quarto, trancado.

Fiz as malas, peguei na Genoveva e o meu pai levou-me de carro até Belo Horizonte. Eram mais de sete horas de estrada, por isso acabei por voltar pouco a casa nos quatro anos seguintes. E quando voltava, a Úrsula era uma anfitriã exemplar. Lasanha caprichada, abraço apertado, biscoito de gengibre no Natal.

Reparei que algumas coisas tinham mudado na casa, mas não me incomodei. Eles estavam a morar ali. Era natural que precisassem de se sentir em casa também. No último ano de universidade, nem consegui voltar nas férias.

TCC, estágio, provas finais, tudo amontoado. Foi assim que me formei em ciências contabilísticas, com boa nota, bom currículo e a Genoveva ainda viva no parapeito do meu quarto. A minha mãe ficaria orgulhosa. Liguei ao Dr.

Raimundo na semana da formatura. — Olá, Dr. Raimundo. Aqui é a Eloía, filha da Cristina.

Lembra-se de mim? — Eloía, claro que me lembro. Como estás? — Estou bem, obrigada.

Acabei de me formar. Queria saber se aquele lugar ainda está disponível. Ele riu. — Eloía, o teu lugar está à tua espera.

Vejo-te segunda-feira. — Segunda-feira está perfeito. Desliguei a sorrir. Era a segunda vez que a minha mãe cuidava de mim depois de partir.

Juntei as minhas coisas, peguei na Genoveva e voltei para São Bernardo de boleia com uma amiga. Não avisei ninguém em casa. Queria fazer surpresa. A minha amiga deixou-me em frente ao portão.

Peguei nas malas, segurei na Genoveva com cuidado e fui até à porta. Coloquei a chave na fechadura. A chave não entrou. Tentei de novo.

Não entrou. Toquei à campainha. Toquei mais uma vez. Quando estava a começar a achar que não havia ninguém em casa, a Úrsula abriu a porta.

Olhou para mim, olhou para as minhas malas, olhou para a Genoveva no meu braço. Voltou a olhar para mim, com uma expressão de quem não estava a perceber nada. — O que estás aqui a fazer, Eloía? — Olá para ti também, Úrsula.

Terminei a universidade, então voltei para casa. Trocaram as fechaduras? A minha chave não entrou. Ela continuou parada na porta, sem me deixar entrar, com aquele sorriso travado.

Olhei por cima do ombro dela e vi o meu pai a descer as escadas de olhos arregalados. — Eloía, não me avisaste que vinhas. — Queria fazer surpresa, pai. Porque é que a minha chave não funciona?

— É que tivemos de trocar as fechaduras por um modelo mais seguro. Houve muitos assaltos na rua e esquecemo-nos de te avisar. A Úrsula olhou para o meu pai com uma cara estranha, mas naquele momento deixei para lá. Ela saiu do caminho devagar e eu entrei.

Olhei para a sala e o meu queixo caiu. Sala pintada de lilás, sofá novo roxo, móveis estranhos, retratos da Úrsula, do meu pai e da Sofia espalhados pelas paredes. Os três na praia, a Úrsula e o meu pai no altar, a Sofia a soprar velinhas. Nenhum único retrato da minha mãe.

Nenhum único retrato meu. Era como se nunca tivéssemos posto os pés naquela casa. — Pai, onde estão os retratos da minha mãe? O meu pai já estava ao meu lado, com a mão nas minhas costas.

— Eloía, filha, vem comigo aqui um instante. Puxou-me pelo cotovelo, com uma firmeza que eu não conhecia, na direção do escritório da minha mãe. Empurrou a porta. O escritório da minha mãe já não era o escritório da minha mãe.

Tinha virado uma sala de televisão. Sofá de canto cinzento, televisão do tamanho de uma janela, consola de jogos. Os diplomas dela, o computador, os livros de contabilidade, tudo tinha desaparecido. No lugar do tapete favorito da minha mãe estava um tapete fofo branco que mais parecia um urso polar esparramado do que um tapete.

O meu pai fechou a porta atrás de nós. — Pai, onde está o escritório da minha mãe? Onde estão as coisas dela? Ele disse, em sussurro:
— Eloía.

Fala baixo, pelo amor de Deus. Cruzei os braços e esperei. — Filha, lembras-te de que, quando conheci a Úrsula, eu morava de arrendamento, não morava? — Lembro.

Um apartamento pequeno em cima de uma padaria. — E eu menti-lhe. Disse que tinha uma casa própria, mas que a tinha deixado para a tua mãe morar contigo depois do divórcio. Que eu era um pai responsável que tinha aberto mão da casa pela filha.

— Pai, estás a falar a sério? — Era o nosso primeiro encontro, filha. Eu queria impressionar. Não sabia que ia casar com ela.

— Mas casaste. — E depois já tinha passado tanto tempo que não tive coragem de contar a verdade. Continuou, em voz ainda mais baixa:
— Quando a tua mãe faleceu e viemos para cá dar-te uma força, ela começou a soltar indiretas. Dizia que agora a casa voltaria a ser minha, que quando te formasses sairias daqui, que agora finalmente tínhamos a nossa casa própria, que ela podia decorá-la como quisesse.

Fiquei ali parada, a processar. Então era isto. Na cabeça da Úrsula, ela era a nova dona da casa. Cada parede pintada, cada móvel trocado, cada retrato pendurado era ela a exercer o direito que achava que tinha.

E eu, em toda aquela história, era apenas a enteada que ia uma vez por ano passear. Eu era a convidada na minha própria casa. — Filha, eu tentei segurar. No início, dizia-lhe para não mexer nas coisas da tua mãe, mas ela foi mexendo na mesma, aos pouquinhos, e eu nunca tive coragem de contar a verdade.

Ele coçou a nuca. — Sinceramente, fui apanhado de surpresa hoje. Não esperava que voltasses tão cedo. Achei que ias ficar mais tempo em Belo Horizonte.

Pensei que te iam efetivar lá no estágio. Olhei para ele. Aquilo foi pior do que tudo o que ele já tinha dito. — Então estavas a torcer para eu nunca mais voltar para a minha casa, pai.

— Não, filha, não é isso. Temos de contar a verdade a ela. — Pai, dá-me algumas semanas. Vou encontrar uma maneira de lho contar sem arruinar o meu casamento.

Por favor, imploro-te. Não contes nada à Úrsula. Senti o calor a subir pela nuca, mas olhei para a cara abatida dele, com uma vergonha tão visível que dava pena. Lembrei-me de que aquele homem era o único pai que eu tinha.

Quatro anos depois da minha mãe partir, não queria perdê-lo também. Abanei a cabeça e engoli em seco. — Pai, por mim tudo bem continuarem a morar aqui comigo, mas tens de contar à Úrsula que eu sou a dona desta casa. — Eu sei, filha, eu sei.

Vou resolver isto, juro. — Tudo bem. Vou para o meu quarto. — Eloía, espera.

O teu quarto agora é o quarto da Sofia. Ela queria o teu quarto porque era maior e tu ficavas mais tempo fora do que aqui. Deixámos ficar. Fechei os olhos e respirei fundo.

Aquele era o quarto da minha infância. O meu pai teve coragem de o entregar à enteada sem me perguntar, só porque ela queria. — E as minhas coisas, filha? — Juntei tudo o que era teu e coloquei no quarto da tua mãe, incluindo as coisas que estavam aqui no escritório.

Cada caixa, cada papel, cada fotografia. Não deixei a Úrsula mexer em nada. O quarto da tua mãe está fechado à chave. Fiquei calada por uns segundos.

Tinha um nó na garganta do tamanho da casa. De toda a porcaria que ele me contou, foi a primeira coisa que me soou a pai. Ele tirou uma chave de uma gaveta e colocou-ma na mão. — Sobe lá, filha.

Está tudo lá, prometo. Peguei na chave, segurei na Genoveva e saí do escritório sem dizer mais nada. Subi as escadas devagar, passei pela porta do meu antigo quarto e ouvi música de TikTok a vazar lá de dentro. Não parei.

Fui direto à porta do quarto da minha mãe. E realmente estava tudo lá, só que amontoado. Caixas de cartão empilhadas quase até ao teto, sacos de plástico com as minhas roupas dentro, livros jogados a um canto, os diplomas da minha mãe em cima da secretária, os porta-retratos que viviam pela casa empilhados em cima da cama em que ela dormia, alguns com o vidro rachado. Era um quarto de arrumações.

O cantinho onde o meu pai despejou a memória da minha mãe e a minha vida inteira para a Úrsula poder decorar a casa como quisesse e para a enteada ter o quarto que quisesse. Coloquei a Genoveva em cima de uma das caixas, sentei-me na beira da cama e fechei os olhos. — Calma, Eloía, vai correr tudo bem. Repeti baixinho, ali parada no meio das caixas.

Eu não imaginava que, dali para a frente, ia passar quase um mês como hóspede inconveniente dentro da minha própria casa. A Úrsula tinha trocado de pele em questão de horas. A mulher boazinha que me recebia nas férias com lasanha e abraço apertado tinha desaparecido. No lugar dela apareceu a madrasta malvada que tinha estado o tempo todo debaixo daquele sorriso.

Suspirava alto, batia com as panelas, revirava os olhos. Quando eu fazia uma pergunta simples, lavava um copo, deixava-o na pia e em três minutos ela passava pela cozinha a resmungar bem alto:
— Há gente que nunca aprende a pôr as coisas no lugar. As refeições eram feitas apenas para três. Eu chegava do trabalho e a comida estava na mesa.

Três pratos servidos, três cadeiras ocupadas, sem comida para mim. Mas aguentava calada pelo meu pai. Ele tinha-me pedido um tempinho e eu tinha dado a minha palavra. Já tinha começado a trabalhar com o Dr.

Raimundo. Salário decente, vale-refeição, seguro de saúde. Cheguei a casa cheia de orgulho. Contei ao meu pai como estava a correr.

Ele deu-me um sorrisinho de “que bom, filha”. A Úrsula saiu da cozinha a enxugar as mãos no pano, com o sorriso de vez em quando ressuscitado. — Eloía, que ótimo. Agora que vais ter salário fixo, até dá para começares a procurar um cantinho só teu.

Conheço uns apartamentos baratos do outro lado da cidade. Para quem está a começar, eu e o teu pai podemos ajudar com a renda até te estabeleceres. O meu pai olhou para mim aflito por um segundo, baixou a cabeça e voltou para o telemóvel. Eu sorri.

— Obrigada pela oferta, Úrsula, mas prefiro ficar aqui. Ela sorriu de volta e olhou para o meu pai, como quem dizia “faz alguma coisa”. Chegou um sábado. Acordei com um silêncio estranho na casa.

Aos sábados, a Úrsula costumava estar na cozinha desde as oito, a bater com as panelas como uma banda militar. Naquele dia, nada. Levantei-me e desci. A cozinha vazia.

A sala igual. Olhei pela janela. O carro do meu pai não estava na garagem. Os ténis dele tinham desaparecido do tapete da entrada.

Pensei comigo: foram passear e deixaram-me para trás. Tudo bem. E, para ser sincera, aproveitei. Tomei o pequeno-almoço em paz.

Sentei-me na sala e li um livro com a casa em silêncio pela primeira vez em quase um mês. Tirei uma sesta. Quando deu as dez da noite, achei estranho ninguém ter voltado. Será que tinha acontecido alguma coisa?

Peguei no telemóvel e liguei. O meu pai foi para o voicemail. A Úrsula tocou e caiu. Liguei de novo.

Ela atendeu. — Alô. Música tropical ao fundo. Sons de pessoas a conversar e a rir.

— Úrsula, onde estão? Ela soltou uma risada curta, ácida, sem alegria. — Ah, querida, estamos na Bahia. Resort all-inclusive.

Uma maravilha. Silêncio do meu lado. — Viajaram e nem me avisaram. — Claro que não, Eloía.

Desde quando temos de te dar satisfações? Estamos de férias em família. Aí soltou, com aquela voz de álcool a fazer efeito:
— E quer saber de uma coisa, Eloía? Tu és uma parasita.

Uma adulta que se recusa a crescer e a viver a própria vida. Vives na nossa casa, comes da nossa comida, usas a nossa luz, água e gás, como se fosse um direito teu. Tens uma semana para arrumar as tuas tralhas e ir embora. Se voltarmos e ainda estiveres aí, eu mesma te ponho no olho da rua.

Ouvi a Sofia a rir ao fundo. — Tchau, querida. Aproveita os teus últimos dias aí na minha casa. E desligou.

Fiquei sentada na cozinha com o telemóvel na mão, imóvel por uns dois minutos. E então, em vez de chorar, ri-me. Uma risada pequena, irónica, daquelas que damos quando percebemos uma coisa de uma vez por todas. Aquela mulher chamou-me parasita e queria expulsar-me da minha casa.

Eu tinha aguentado quase um mês em nome de uma promessa que, agora sabia, ele nunca tivera intenção de cumprir. Aquela chamada foi a última gota. A Úrsula achava que ia expulsar-me da minha casa. Mal sabia ela quem ia expulsar quem.

Pus o telemóvel no balcão da cozinha e fiquei a olhar para o nada, a pensar. Comecei a montar o plano na cabeça. Item um: trocar todas as fechaduras. Item dois: passar no supermercado e arranjar caixas de cartão, comprar fita adesiva e sacos de lixo grandes.

Item três: empacotar tudo o que pertencia aos três e deixar tudo bonitinho na garagem, pronto para eles apanharem quando voltassem da Bahia. Subi ao quarto da minha mãe, deitei-me na cama e dormi um sono pesado. No domingo de manhã, liguei ao chaveiro. Em duas horas, o homem estava lá a trocar todas as fechaduras da casa, incluindo o código do portão elétrico.

Depois fui ao supermercado da esquina perguntar se tinham caixas de cartão grandes para me darem. Tinham. Fiz três viagens a carregar montes de caixas. Depois voltei e comprei rolos de fita adesiva e sacos de lixo.

Voltei para casa, atirei tudo para o chão da sala lilás. Estava na hora de empacotar. Comecei pela sala. Tirei os porta-retratos das paredes, um a um, e empilhei-os dentro de uma caixa, com os vidros a baterem uns nos outros.

Se partissem, paciência. Era o mesmo tratamento que tinham dado aos retratos da minha mãe. Recolhi as almofadas estampadas do sofá roxo, o vaso decorativo do canto, os candeeiros novos e a manta de pelo sintético jogada no encosto. Tudo para dentro das caixas.

Empilhei tudo na garagem. Fui para a cozinha. Recolhi as loiças novas, as panelas, as canecas com fotografias deles impressas e várias tralhas que a Úrsula tinha comprado. Caixa atrás de caixa, garagem.

Passei para o escritório que tinha virado sala de televisão. A televisão do tamanho de uma janela foi a parte mais difícil, quase do meu tamanho. Desliguei tudo, embrulhei num lençol da Úrsula que estava na lavandaria e arrastei-a até à garagem. Voltei para a consola.

Os comandos, os jogos, o tapete fofo branco, tudo enfiado em sacos de lixo pretos e atirado para o chão da garagem. Subi as escadas para o segundo andar. O quarto da Sofia estava trancado. Os três acharam que estariam seguros a trancar os quartos de cima à chave.

Mas havia um pormenor que não sabiam. Naquela casa antiga, todas as portas dos quartos usavam o mesmo segredo. A mesma chave abria todas, e a chave do quarto da minha mãe estava comigo. Coloquei-a na fechadura, empurrei a porta e dei de caras com o quarto da Barbie.

Paredes pintadas de rosa pastel, cortinas de tule branco com luzinhas a piscar, penteadeira branca com espelho oval cheia de maquilhagem, ursos de peluche em cima da cama. Arranquei tudo com gosto, enfiando tudo em sacos de lixo pretos. Era a vez do quarto do casal. A porta também estava trancada.

Coloquei a chave e abriu. O quarto era vermelho com pormenores dourados. Cabeceira estofada em capitonê, daquelas que parecem hotel de beira de estrada com pretensão de luxo. Espelho enorme pendurado em cima da cama.

Lustre de cristal de plástico. Edredão acetinado dourado. Livros de autoajuda empilhados: “Os Segredos da Mulher Poderosa”, “Como Manter o Seu Marido Apaixonado”. Provavelmente nenhum lido até ao fim.

E na parede em frente à cama, um retrato da Úrsula em close, daqueles de book fotográfico, com sorriso de revista e olhar de “Eu Sou Poderosa”. O tipo de quadro que toda a narcisista que se preza pendura para acordar todos os dias já a elogiar-se. Comecei pelo armário do meu pai. Empilhei as camisas, as calças sociais e as gravatas já com nó feito dentro dos sacos.

Fui para o armário da Úrsula. Vestidos, blusas de marca, sapatos de salto alto que nem imaginava que ela usasse. Atirei tudo de qualquer maneira para dentro dos sacos de lixo. Bolsas, lenços, cintos.

Cheguei à cômoda. Abri a primeira gaveta. Meias, cuecas, sutiãs. Fui empurrando tudo para o saco de lixo sem olhar muito.

Mas no fundo da gaveta, a minha mão bateu em qualquer coisa pesada. Parei. Tirei as cuecas de cima. Era um telemóvel.

Não era o telemóvel do dia a dia da Úrsula. Esse ela tinha levado para a Bahia. Era outro aparelho, um modelo mais simples, escondido no fundo da gaveta das cuecas. Ninguém guarda um telemóvel antigo no fundo de uma gaveta de cuecas.

Sentei-me na beira da cama e carreguei no botão de ligar. Tinha bateria. Apareceu o ecrã de reconhecimento facial. Olhei para o retrato da Úrsula na parede, com o sorriso de revista e a confiança de quem é a mulher mais esperta do mundo.

Coloquei o telemóvel em frente ao retrato. Clique. Desbloqueado. O telemóvel só tinha o WhatsApp instalado.

E uma única conversa. Ricardo. Foto de perfil de um homem de uns trinta anos com um rolo na mão. Calma, pessoal.

Um rolo de pintura. Abri a conversa. As últimas mensagens eram de um dia antes da viagem. A Úrsula mandou: “Vou viajar para a Bahia.

Pena que não é contigo. Volto na sexta. ”
O Ricardo respondeu: “Vou sentir saudades. Boa viagem, minha ursinha.

”
Minha ursinha. Li aquilo umas três vezes e ainda não conseguia processar. A Úrsula tinha um caso. Estava a trair o meu pai.

Comecei a rolar para cima. Mensagens, mensagens, mensagens. Fui rolando, rolando, e o que fui descobrindo deixou-me de boca aberta. Cada encontro deles era uma fantasia diferente.

Uns três meses antes, a Úrsula mandou: “Amor, amanhã vens de motoqueiro? Acho tão sensual. Quero que venhas de casaco preto, calças pretas, capacete na mão e não te esqueças dos meus brinquedinhos. ”
Mais acima, outra mensagem da Úrsula: “Amanhã vens de fato, gravata e pasta na mão.

Vens cobrar uma dívida e eu não tenho dinheiro para pagar. ”
O Ricardo respondeu: “Kkk, não tens jeito. Vou pedir-te para pagares a dívida de outra forma. ” Emoji de diabinho.

Houve uma mensagem em que a Úrsula lhe pediu para levar a fantasia de bombeiro e disse: “Vem usar a mangueira para apagar o meu fogo. ”
Fechei os olhos e abri-os de novo, achando que tinha lido mal. Não tinha. Cada encontro era uma fantasia diferente.

Bombeiro, motoqueiro, executivo, médico, canalizador, técnico da operadora que veio mexer no router. E sempre, sempre a mesma frase no fim do recado: “Não te esqueças dos meus brinquedinhos. ”
Os brinquedinhos. Numa fotografia percebi o que eram.

Um pacote sortido de coisas que nenhum supermercado de bairro vende. Coisas rolíças de borracha, algemas de peluche, olhos, velas. Pelo que entendi, os encontros aconteciam na minha casa, sempre nas tardes em que o meu pai e a Sofia estavam fora. Li uma mensagem da Úrsula: “Querido, terça à tarde a minha filha vai fazer luzes no cabelo e vai demorar.

Tenho a casa inteirinha para nós das duas às cinco. Vem com roupa de canalizador. ”
Olhei para a cama onde estava sentada e levantei-me na hora. Aquela cama tinha visto coisas que eu, em vinte e três anos de vida, nunca tinha imaginado.

No meio daquele monte de mensagens, notei alguns comprovativos de Pix da Úrsula para o Ricardo. Subi a conversa toda até à primeira mensagem. Era de um ano e dois meses antes. E adivinhem como se conheceram?

O Ricardo era o pintor que pintou a casa. Foi ele que deixou aquela sala lilás. E, pelo visto, a Úrsula não resistiu a um homem com um rolo na mão. A primeira mensagem da conversa foi da Úrsula: “Oi, Ricardo.

É a Úrsula da casa que pintaste na semana passada. Lembras-te de mim? Comprei um número diferente só para falar contigo. Está de pé o que combinámos aquele dia?

”
Ele respondeu: “Oi, Úrsula. Claro que me lembro. Como poderia esquecer? Está de pé?

Sim, é só marcar. ”
A Úrsula mandou: “Quarta-feira às duas na minha casa. Pode ser. Quanto vais cobrar por esta primeira visita?

”
O Ricardo respondeu: “Vou-te fazer um desconto porque gostei de ti. Cem reais por hora e mais o valor do que quiseres que compre para ti. ”
A Úrsula disse: “Combinado. Pago depois do serviço.

Compra uns olhos e brinquedinhos. ”
Fechei os olhos. Então era isto. Os Pix que a Úrsula fazia ao Ricardo, entre uma mensagem e outra, eram para pagar os serviços extras dele.

E ele ainda cobrava por hora. E o corno do meu pai, que queria manter o casamento a todo o custo, estava a pagar o próprio chifre. Que ironia. Desliguei o telemóvel.

Já tinha visto o suficiente. Não o devolvi à gaveta das cuecas. Meti-o no bolso das calças. Aquele aparelhinho ia ser o guião da minha sexta-feira.

O plano já estava redondinho na minha cabeça. Terminei de esvaziar o quarto do casal. Em duas horas, estava vazio. Sobrou apenas o retrato da Úrsula a sorrir na parede.

Na segunda de manhã, fui trabalhar normalmente. Depois do expediente, passei na loja de tintas da esquina e comprei as cores originais da casa da minha mãe: bege e branco. Toda a noite, depois do trabalho, dava uma demão em algum cômodo. Anunciei o sofá roxo a preço de banana.

Em duas horas, já tinha comprador. Comprei um sofá novo pela internet, bege, simples, do jeito que a minha mãe gostava. Em menos de uma semana, a casa estava quase como era antes. Os retratos da minha mãe voltaram para as paredes.

O escritório voltou a ser escritório. E a Genoveva voltou para o parapeito da cozinha. A casa parecia respirar de novo. Na quinta à noite, o meu pai resolveu dar sinal de vida.

Mandou-me uma mensagem: “Oi, filha. Voltamos amanhã da viagem. Chegamos umas cinco da tarde. Quando chegar, explico-te tudo.

”
Olhei para a mensagem e ri. Explicar tudo o quê? Ele tinha tido um mês inteiro para explicar tudo. Alguns anos, na verdade.

E ainda assim preferiu defender a maldade da madrasta e a birra da enteada em vez de ficar do lado da filha. Eu já não queria explicação nenhuma dele. Peguei no telemóvel da Úrsula, liguei-o, apontei para a fotografia dela e abri a conversa com o Ricardo. Mandei algumas mensagens.

No dia seguinte, trabalhei normal, almocei normal, uma caneca normal. Às cinco e meia da tarde, o meu telemóvel começou a vibrar com mensagens. O meu pai a dizer que o comando do portão não funcionava e que a chave da porta principal estava travada, a perguntar se eu estava em casa. A Úrsula a perguntar se tinha havido algum problema com o portão e porque é que a porta não abria.

A Sofia a pedir que eu respondesse, porque estavam parados no passeio com o carro cheio de malas e ela precisava de entrar para ir à casa de banho. Não respondi a nenhuma. Terminei a folha de cálculo que o Dr. Raimundo tinha pedido para fechar até ao fim do dia.

Saí do escritório às seis em ponto. Quando dobrei a esquina para a rua de casa, lá estavam eles. Os três, em frente ao portão da minha casa. Malas no passeio, caras nervosas, suados.

Cheguei calma, com a mochila ao ombro. A Úrsula, ao ver-me, veio na minha direção com cara de quem ia bater. — Eloía, partiste o meu portão? — Olá para ti também, Úrsula.

Coloquei a chave na fechadura da porta ao lado do portão. Girou à primeira. — Troçaste a fechadura da minha casa? Que abusada!

Onde é que já se viu trocar a fechadura da casa dos outros? Gritava no meio da rua. Os vizinhos começaram a espreitar das janelas. O meu pai veio atrás, com a voz de quem implorava para parar:
— Úrsula, calma.

Pelo amor de Deus, calma. Falamos lá dentro. A Sofia cruzou os braços e foi mais direta:
— Elô, sinceramente, já és formada, já trabalhas, já ganhas dinheiro. Vai morar sozinha.

Para de ficar a morar de favor na casa dos outros. Olhei para a cara dela e ri, abanando a cabeça em negação. Empurrei a porta da frente e convidei:
— Entrem! Os três entraram.

A Úrsula a bufar e a reclamar em voz alta. O meu pai, vermelho, a entrar com algumas malas. A Sofia a correr para a casa de banho. Abri a porta da sala.

A Úrsula entrou em choque. Parou no meio da sala, olhou para a parede bege, olhou para o sofá novo, olhou para os retratos da minha mãe pendurados onde antes estavam os retratos deles, olhou para o chão, para as cortinas, para tudo. — O quê? O que fizeste à minha casa, Eloía?

Onde está o meu sofá roxo? Fiquei tranquila, a segurar na maçaneta. O meu pai olhou para mim com cara de quem nunca me tinha visto. — Eloía, ultrapassaste os limites.

Olhei para ele. — Conto eu ou contas tu, pai? Ele ficou branco. — Eloía, vamos para a sala de televisão falar a sós.

— Já não quero falar, pai. Conto eu ou contas tu? A Úrsula andava pela sala, a olhar para cada canto com olhar de horror. — Eloía, vou chamar a polícia agora.

Invadiste a minha casa. Mexeste nas minhas coisas. Roubaste os meus móveis. Vai-te embora daqui antes que eu chame a polícia.

Arnaldo, manda a tua filha embora agora. A Sofia riu e subiu as escadas para ir para o quarto. Em três segundos, ouvimos o grito. — Não!

O que aconteceu ao meu quarto? Em poucos segundos, desceu a funguear alto, com lágrimas a escorrerem-lhe pelo rosto, e foi direita para os braços da Úrsula. — Mãe, ela desmontou tudo. Os meus posteres, os meus ursinhos, as minhas roupas.

Já não há nada, mãe. Está vazio. A Úrsula abraçou-a com uma mão e olhou para mim por cima do ombro da filha, com cara de quem me ia cortar em pedacinhos. — Arnaldo, faz alguma coisa.

O meu pai veio até mim. — Filha, vamos sentar e conversar como pessoas civilizadas. A Úrsula virou-se para ele. — Que conversar, Arnaldo?

Manda a tua filha sair daqui agora. — Ou ela ou eu. Respirei fundo. Sorri.

— Úrsula, podes gritar o quanto quiseres. Não vou sair desta casa porque esta casa não é do meu pai, muito menos tua. Ela olhou para mim como se eu tivesse falado japonês. — Do que estás a falar?

— Esta casa é minha, Úrsula. A minha mãe deixou-ma a mim. O meu pai nunca foi dono desta casa. Mentiu-te todos estes anos.

A Úrsula virou-se para o meu pai. O meu pai gaguejou:
— Não, não é bem assim, amor. A Eloía está só a tentar irritar-te. Eloía, para com isso, filha.

Peguei na mochila, tirei a cópia da escritura e do IPTU e entreguei-lhas. A Úrsula pegou nos papéis. Os olhos dela passaram pelo documento. — Arnaldo.

O que ela está a dizer é verdade. O meu pai passou a mão pela testa, puxando o cabelo para trás. Respirou fundo. — Amor, deixa-me explicar.

Quando te conheci, queria impressionar-te. Acabei por mentir, dizendo que tinha uma casa própria. Esta casa sempre foi da Cristina. E quando ela faleceu, ficou para a Eloía.

Arrependo-me de ter mentido. Juro que errei feio. Perdoa-me. A Úrsula olhou para o papel, olhou para o meu pai, voltou ao papel.

— Arnaldo, mentiste-me este tempo todo? Fizeste-me acreditar todos estes anos que esta casa era minha? Respirou fundo, fechou os olhos. Quando os abriu, encarou o meu pai daquela maneira que faz o coração parar.

Mas depois respirou de novo, virou-se para mim e amaciou a voz. Trocou de máscara como quem troca de camisa. — Desculpa, Eloía, pela maneira como falei contigo lá fora. Estava fora de mim.

Está toda a gente exaltada. Vamos sentar e conversar com calma. Fiquei calada. — Vamos pensar com cabeça fria.

Somos uma família, não somos? As famílias discutem às vezes. Continuei calada, para ver até onde ela ia chegar. — A casa é grande, tem espaço para todos.

A Sofia já fez amigos no bairro e anda a estudar aqui perto. Não faz sentido continuarmos a brigar agora que tudo foi esclarecido. Podemos viver em harmonia. Respirou e mudou o tom para algo mais íntimo, como quem oferece uma vantagem.

— Mas se não quiseres morar aqui connosco, querida, também entendo. Podemos ajudar-te de outra maneira. Eu pago-te uma rendinha num lugar só teu, perto do escritório do Dr. Raimundo, para teres a tua privacidade.

Apartamento mobilado, tudo certinho, não é, Arnaldo? O meu pai foi rápido:
— É, filha. É. A Úrsula tem razão.

Pagamos uma renda para ti perto do trabalho. Ficas independente, sossegada. Olha a audácia daquela gente. Até semana passada, ela queria expulsar-me daqui aos berros, a chamar-me parasita, e agora queria morar comigo, dividir a casa em harmonia, ou pagar-me uma renda para eu me mudar e deixar a minha casa só para eles.

Será que achava mesmo que eu ia aceitar? O meu pai aproveitou a brecha:
— Filha, a tua mãe não ia querer ver-nos a brigar pela casa. A tua mãe ia querer ver a família dela a viver em harmonia. Que palhaçada.

Ele não fazia ideia do que a minha mãe ia querer. Mas eu fazia. A minha mãe já tinha pegado na vassoura e empurrado aquela gente para fora da casa dela à primeira patada que me tivessem dado. Ia querê-los fora antes da primeira patada, para ser sincera.

A Sofia, que estava encolhida no sofá, a chorar baixinho pelo quarto desmontado, levantou a cabeça e mudou o tom:
— Elô, maninha, não podes expulsar-nos daqui. Considero-te uma irmã de verdade. Aquela Sofia e a Úrsula eram farinha do mesmo saco. Foi nesse momento que a campainha tocou.

Olhei para o relógio. Seis e meia da tarde. Que pontual. Todos pararam e olharam para a porta.

Peguei no interfone e não disse nada. Apenas carreguei no botão de destravar a porta. Em poucos segundos, ouvimos os passos de uma pessoa a atravessar o jardim. A porta foi-se abrindo, uma voz alta a falar:
— Ursinha!

X—
A frase morreu-lhe na boca. O Ricardo estava lá do jeitinho que a ursinha tinha pedido. Camisa de oncinha aberta até ao umbigo, três cordões de ouro grossos ao peito, calças pretas apertadas, óculos escuros a um fim de tarde. Parecia um gigoló.

Numa mão, um buquê de rosas vermelhas. Na outra, um saco. Quando ele bateu o olho na sala e viu o meu pai parado perto da porta, a Úrsula congelada, a Sofia a chorar e eu, de braços cruzados, encostada ao batente do corredor, ficou paralisado. O saco escapou-lhe da mão e caiu no chão.

E de dentro dele rolou um brinquedo rolíço de borracha, devagar, até parar mesmo aos pés do meu pai. O meu pai olhou para aquilo que tinha parado ao pé dele, com cara de quem viu uma barata morta. Deu um pontapé. O brinquedo voou para debaixo do sofá.

Depois levantou os olhos para o Ricardo. — Ricardo, que raio estás aqui a fazer? E porque é que trouxeste essa coisa? Ora, ora, ora.

O meu pai conhecia o Ricardão. A Úrsula ficou branca, parecia um urso polar. O Ricardo olhou para o meu pai, olhou para mim, olhou para a Úrsula, voltou a olhar para o meu pai. — Sim, senhor Arnaldo.

Eu, eu, eu vim, eu… Tentou começar uma frase três vezes e travou nas três. — Eu não… senhor Arnaldo, é que eu não sabia que o senhor estaria…

Engoliu em seco, viu que estava a piorar a situação. Olhou para a Úrsula com cara de quem implorava socorro. A Úrsula olhou para o Ricardo confusa, sem entender. Os olhos dela percorreram a camisa de oncinha, o buquê na mão dele, o saco caído no chão…

até que entendeu. Os olhos dela subiram devagar e encontraram-me. A cara dela mudou num segundo. De confusa para apavorada.

De apavorada para cara de quem queria gritar. — Foste tu. Mas não conseguia, porque gritar aquilo em frente do meu pai era o mesmo que se entregar. Eu sorri para ela.

Sinceramente, tinha planeado tudo certinho. Escolhi o look do Ricardo. Sabia o horário. Pedi-lhe para trazer os brinquedinhos.

Mas o saco a cair no chão e o brinquedo a rolar devagar até parar exatamente aos pés do meu pai? Isso não foi mérito meu. Isso foi a gravidade a jogar do meu lado. A Úrsula virou as costas e disparou pelas escadas.

Subiu de dois em dois degraus. Os outros ficaram a olhar sem entender por que estava a correr. Eu não. Eu sabia exatamente onde ela ia.

Lá em cima, ouvia-se o estrondo da porta do quarto a abrir e o barulho da gaveta da cômoda a ser puxada com força. Depois veio um silêncio. E logo em seguida, o grito:
— Eloía, sua… Os passos a descer as escadas, agora bem mais rápidos do que tinham subido.

A Úrsula apareceu no pé da escada, vermelha, descabelada. Tirei o telemóvel do bolso das calças e levantei-o à altura dos olhos, para ela ver bem. — Estás à procura disto, ursinha? A Úrsula olhou para o telemóvel na minha mão.

Tomou fôlego e mudou a cara para aquele jeito de quem está prestes a mentir descaradamente. — Que telemóvel é esse? Nunca vi esse telemóvel na vida. Olhei para ela.

— Nunca viste, Úrsula? Tens a certeza? Aproximei-me, levantei o telemóvel à altura do rosto dela e apontei a câmara frontal. Clique.

Desbloqueado. A Úrsula travou. Os olhos arregalados, a processar o que tinha acabado de fazer. Tinha desbloqueado o próprio telemóvel com aquela cara feia dela.

— Devolve-me esse telemóvel. Tarde demais. Atirei o aparelho para a mão do meu pai, que o apanhou no ar. A Úrsula virou-se para ele:
— Arnaldo, desliga esse telemóvel.

Isto é uma armação da Eloía. Ela armou tudo para nos separar. Mas o meu pai já estava a ler. Os olhos dele a percorrer o ecrã, a subir a conversa, a descer a conversa, a subir de novo.

Demorou em algumas mensagens, demorou ainda mais nas fotografias. A cor dele foi mudando. Vermelho, roxo, cinzento. Aquele cinzento de quem levou um pontapé no estômago e está a tentar processar.

A Úrsula foi piorando junto. Tentou arrancar o telemóvel da mão dele uma vez. O meu pai virou o ombro. Tentou de novo.

O meu pai deu três passos para trás, sem tirar os olhos do ecrã. Ela virou-se para o Ricardo, desesperada, a gesticular:
— Ricardo, faz alguma coisa. Ajuda aqui. Mas o Ricardo continuava parado na porta da casa, mudo, sem saber se entrava na sala, se saía a correr ou se fingia um desmaio.

Encolheu mais os ombros e ficou a olhar para o chão. Aí ela mudou de tática. Virou-se para o meu pai com cara de vítima:
— Arnaldo, a tua filha invadiu a minha intimidade. Pegou no meu telemóvel escondido na minha gaveta.

Violou a minha privacidade. Por acaso isto é certo? Pode isto, Arnaldo? Olha a cara de pau daquela tratante.

Acabou de ser apanhada a trair e queria que o meu pai se preocupasse com a privacidade dela. O meu pai não respondeu. Continuou a ler. Passou-se mais um minuto.

Vi os olhos dele pararem numa parte específica do ecrã. Ele ergueu os olhos do telemóvel e olhou para a Úrsula. — Tu davas dinheiro a ele? A Úrsula abriu a boca para negar, mas não saiu nada.

— Pagaste a um homem para me trair, Úrsula? Pagaste a um prostituto com o meu dinheiro? O Ricardo deu um passo discreto para trás, como quem queria tornar-se invisível. Mas o meu pai não tinha terminado.

Virou-se para a Úrsula, a masculinidade ferida a tomar conta. Engoliu em seco. — Porquê, Úrsula? Porque é que me foste trair com esse tipo que se veste como um gigoló dos anos setenta?

O que é que viste nele? Sou um homem trabalhador. Dou-te casa, dou-te conforto, dou-te amor. Não tinhas motivo nenhum para me fazeres isto.

Ainda por cima com esse pintorzeco de merda. O Ricardo, que até então estava quieto e encolhido, pareceu ficar ofendido. Tirou os óculos escuros pela primeira vez naquela noite, deu um passo à frente e olhou diretamente para o meu pai. — Está bem, acho que é melhor deixar-vos conversar a sós.

Vou-me embora. Mas quem é que vai pagar pelos meus serviços de hoje? O meu pai virou o rosto para o Ricardo devagar, daquele jeito de touro que acabou de ouvir o último estímulo. Em três passos, estava em cima dele.

Agarrou o Ricardo pelo colarinho da camisa de oncinha e empurrou-o para fora, sem dizer uma palavra, sem dar tempo de o Ricardo se equilibrar. Corri até ao interfone e destranquei a porta da frente. O meu pai atirou o Ricardo para o passeio. Ele caiu de rabo no chão.

O buquê de rosas vermelhas voou para o lado. Mas o meu pai não tinha terminado. Voltou para dentro de casa, foi direito ao sofá, agachou-se e pegou no brinquedo rolíço de borracha. Saiu novamente pela porta, a segurar naquilo, a balançá-lo.

Lá fora, o Ricardo já estava a entrar no carro dele, com a porta do condutor a bater e o motor a ligar. O meu pai apontou e atirou. O brinquedo voou pelo ar e a ventosa do brinquedo colou-se ao vidro traseiro do carro. O Ricardo arrancou em pânico.

O carro desceu a rua com o brinquedo rolíço colado no vidro de trás. O meu pai voltou, bateu com a porta, encostou-se a ela de costas, respirou três vezes. Depois virou-se para a Úrsula. — Úrsula, acabou.

A voz saiu-lhe seca. — Quero o divórcio. Não dormes aqui mais uma noite. A Úrsula começou a chorar.

Aquele choro feio, descontrolado, com a cara a amassar. — Arnaldo, não, Arnaldo. Foi um momento de fraqueza. Foi só isso.

Amo-te. Nunca mais te vou trair. Juro. Aí veio a Sofia tentar ajudar a mãe.

Foi até ao Arnaldo, olhou para ele com os olhos cheios de água e disse:
— Pai, vais largar a minha mãe? Vais fazer isto connosco? A Sofia nunca chamava “pai” ao meu pai. Nunca.

Sempre “Arnaldo” ou “Naldo”. Mas agora, quando a água lhe bateu no rabo, chamava-lhe pai. O meu pai entendeu na hora. Não era tão burro quanto parecia.

Vi na cara dele aquela ficha que demorou anos a cair. Era ele a perceber que tinha sido manipulado por mãe e filha durante dez anos. Olhou para a Sofia e falou baixo:
— Sofia, em dez anos nunca me chamaste pai, nunca me trataste como pai. Sempre me trataste como a carteira ambulante que era casada com a tua mãe.

Virou-se para a Úrsula. — Quero as duas fora desta casa hoje. Foi nesse momento que entrei na conversa. — Pai, já arrumei as malas dos três.

Está tudo na garagem. O meu pai virou-se para mim. — Como assim, filha? — Arranjei tudo esta semana, depois de a Úrsula me mandar sair da minha própria casa.

Está tudo na garagem. Liguem para um carreto por aplicação. Marquem para hoje à noite ou amanhã de manhã, porque amanhã é dia de lixo e o camião passa à tarde. Se não chamarem o carreto até amanhã, ponho os sacos de lixo com as vossas coisas na rua.

A Úrsula olhou para mim. — A sério, Eloía? Atiraste as nossas coisas para dentro de sacos de lixo? Olhei para ela com a cara mais tranquila do mundo.

— Fiz igualzinho ao que vocês fizeram com as coisas da minha mãe e com as minhas. Porque é que estás tão surpresa, Úrsula? Ela engoliu em seco e desviou o olhar. O meu pai voltou ao centro da sala.

— Eloía. Filha, entendo-te. Tens toda a razão em querer a Úrsula fora desta casa. Mas eu sou teu pai.

Respirei fundo. — Sinto muito, pai. Mas tu também vais embora. Fiz uma pausa e continuei:
— Em todos estes anos, escolheste a Úrsula e a Sofia.

Sempre. Quando te contei que os retratos da minha mãe tinham desaparecido, pediste-me para relevar. Quando me contaste a mentira da casa, pediste-me para esperar. Quando elas me chamaram parasita ao telefone, ficaste em silêncio.

Sempre achaste melhor ferir a tua filha do que perder a tua esposa traidora e a tua enteada mal-agradecida. Ele não respondeu. — Agora, escolhi ficar longe de ti. A Úrsula chamou um carreto pela aplicação.

Em vinte minutos, o homem apareceu. Uma carrinha velha, com o motorista a bocejar. Os três foram até à garagem e foram pondo caixas e sacos de lixo pretos dentro do carreto. Eu fiquei encostada à porta, a observar.

Em quarenta minutos, a carrinha estava cheia. Tudo o que era deles tinha cabido lá dentro. A Úrsula passou por mim, parou à minha frente e soltou um último ataque:
— Espero que percas esta casa, Eloía. Nunca vais conseguir manter um sobrado deste tamanho com esse saláriozinho de recém-formada.

Como é que vais pagar o IPTU? Como é que vais pagar todas as contas sozinha? Em seis meses, vais pedir socorro e adivinha quem não te vai ajudar? Olhei para ela com o sorriso mais sereno que consegui montar.

— Deixa-me adivinhar: tu. Mas isso é óbvio. Tu nem sequer tens emprego. A Sofia passou por mim logo a seguir, com cara de ódio.

Levantou o dedo do meio mesmo à minha frente. — Sua… Eu nunca gostei mesmo de ti. — Eu sei, Sofia.

Igual, tchau. Tchau. O meu pai foi o último. Mochila ao ombro.

Não olhou para mim, não disse nada. Pôs as coisas dele no porta-malas do próprio carro. Dois sacos pretos e uma caixa pequena. Subiu para o carro, ligou o motor e foi-se embora.

Fechei a porta e dei duas voltas na chave nova. Pela primeira vez em anos, a casa era só minha. Na manhã seguinte, olhei para a Genoveva no parapeito da janela. Tinha amanhecido mais verde, mais firme, com uma folhinha nova a brotar no caule do meio.

Sorri. Era o jeito da minha mãe de comunicar comigo. Seis meses passaram. Num sábado à tarde, a campainha tocou.

Atendi o interfone e abri a porta. Era o meu pai, com um buquê de margaridas numa mão e, na outra, um saco com pão francês fresquinho e bolo. — Oi, Eloía. Posso entrar?

Olhei para ele. Magro, cabelo mais branco do que me lembrava. Olhar de quem dormiu pouco nos últimos seis meses. — Podes.

Entrou, olhou para a sala. Bege, do jeito que a minha mãe gostava. Sentou-se na ponta do meu sofá, com as mãos nos joelhos. — Filha, vim pedir-te perdão.

Sentei-me do outro lado, deixando uma almofada de espaço entre nós. — Errei contigo de todas as maneiras possíveis, filha. Fui cobarde. Fui burro.

Deixei-te de lado para agradar uma mulher que me estava a usar e a trair. Não posso voltar atrás. Mas queria perguntar-te se podemos tentar reconstruir alguma coisa. Tipo um café ao sábado, uma visita de vez em quando.

Só queria ter uma hipótese de voltar a ser teu pai. Olhei para ele. — Pai, aceito manter-te na minha vida. Mas cada um no seu canto.

Ele assentiu. — Sim, filha. Entendo. Ficámos em silêncio por alguns segundos.

Depois ele contou-me:
— Divorciei-me da Úrsula. Como ela não trabalha, tenho de pagar pensão e renda. Aluguei um apartamento de um quarto para ela e a Sofia do outro lado da cidade. Era exatamente a tal rendinha num lugar do outro lado da cidade que a Úrsula tinha oferecido para mim meses antes.

Agora era o lar dela. Olha o karma. Não comentei nada. Apenas servi café fresquinho, manteiga para o pão e cortei o bolo.

Comemos na cozinha. Eu, o meu pai e a Genoveva no parapeito da janela. Hoje, todos os sábados, o meu pai aparece com pão e flores. Tomamos café, falamos do tempo, do trabalho dele na câmara.

A Genoveva tornou-se uma samambaia gigante e tomou metade do parapeito da cozinha. O escritório da minha mãe voltou a ser escritório, agora com os nossos diplomas pendurados. Fui promovida a analista plena na empresa e tive um aumento. Comprei outra samambaia para fazer companhia à Genoveva.

Dei-lhe o nome de Brigite. As duas dividem o parapeito como duas velhas amigas a apanhar sol da tarde. E o brinquedo rolíço? Esse virou lenda.

Dizem que aquela coisa colada ao vidro traseiro desceu a estrada inteirinha naquela sexta-feira. O carro dele tinha um autocolante nas laterais com a frase “Ricardo, Pintor Profissional” e o número de telefone em letras garrafais. A piada espalhou-se. Virou fotografia no WhatsApp, vídeo nas redes sociais.

Em pouco tempo, toda a gente no ABC conhecia o pintor Ricardo como o pintor com uma reputação que nenhuma tinta cobria. A minha mãe sempre dizia: “Tudo vai correr bem, filha. ” E adivinhem? Correu mesmo.

Pelo menos para mim.