Eu estava dentro do carro, no estacionamento do prédio onde morava, com a minha amiga Fernanda ao lado. No ecrã do telemóvel, a câmara do meu quarto transmitia ao vivo. E na nossa cama, o meu noivo e uma mulher que eu conhecia muito bem estavam prestes a usar algo que eu tinha preparado com muito carinho para eles. A Fernanda apertou o meu braço e sussurrou: “Amiga, ele está a abrir o frasco.

” Olhámos uma para a outra e sorrimos, ansiosas. Mas calma, deixa-me recuar e contar como tudo começou, porque prometo que esta história vale cada segundo. O meu nome é Cristiane, mas toda a gente me trata por Cris. Tenho vinte e cinco anos, trabalho na parte administrativa da câmara municipal, o salário não é grande coisa, mas é estável, cai sempre no dia cinco e não devo nada a ninguém.
Estava noiva do Jurandir, um homem de trinta e dois anos, vendedor numa loja de móveis e eletrodomésticos. Tinha boa lábia, falava macio, sorria com facilidade e passava aquela imagem de confiança. Combinava com a profissão e, como vim a descobrir, com o tipo de homem que era. Estávamos juntos há vinte e cinco meses, noivos há seis e a morar juntos há cinco.
Quando digo morar juntos, quero dizer que dividíamos um apartamento que era dele, o número vinte e cinco do segundo andar de um prédio residencial. O Jurandir tinha dado a entrada e financiado o resto em trezentas e sessenta prestações, faltavam trezentas e vinte e cinco, ou seja, mal tinha começado a pagar aquilo. A casa era dele, mas as contas, a luz, a água, o gás, a internet e as compras do mês saíam todas do meu bolso, e eu achava justo. Antes de viver com ele, pagava renda.
O que gastava agora com as despesas e o supermercado dava quase o mesmo valor, por isso era um bom acordo para os dois: ele pagava a prestação do apartamento, eu cobria o resto. No início, era bom. O Jurandir era atencioso, carinhoso, fazia questão de jantar comigo, perguntava pelo meu dia e abraçava-me quando eu chegava cansada do trabalho. Eu olhava para ele e pensava: encontrei um homem bom, simples, trabalhador.
Não é perfeito, mas é o meu homem. Estava feliz de verdade. Há cerca de três meses, o Jurandir decidiu começar a ir ao ginásio. Disse que se tinha inscrito numa academia perto do trabalho e ia quase todas as noites, direto do emprego.
Chegava a casa por volta das nove ou dez, tomava banho e ia dormir. Eu achei ótimo, incentivei, até sugeri ir com ele. Na primeira vez que pedi para ir junto, disse que tinha tido uma cãibra e não ia nesse dia. Na segunda, disse que a academia não ia abrir.
Na terceira, ficou emburrado e disparou: “Cris, vou ser sincero. A academia é o meu momento. Preciso de um tempo para mim, sem ninguém. ”
Achei estranho, mas respeitei.
Nem todo o casal precisa de fazer tudo junto. Ficou ali uma pulga atrás da orelha, mas deixei andar. Numa manhã de folga dele, enquanto ainda dormia, eu estava a arrumar-me para o trabalho e vi a mochila do ginásio jogada no sofá. Abri para ver se havia roupa suada para pôr na máquina.
Toalha, calções, uma camiseta normal. Depois, senti qualquer coisa num compartimento interno com fecho, daqueles escondidos que nem se nota. Abri e tirei um pequeno frasco. Gel lubrificante e íntimo, sabor a menta, efeito gelado.
Fiquei a olhar para aquilo na minha mão. Para que é que um homem comprava gel lubrificante e o escondia na mochila do ginásio? Se estava escondido, era porque não era para eu ver. A minha cabeça começou a andar à roda.
Será que me está a trair? Será que me ia fazer uma surpresa? Guardei o frasco no sítio exato, fechei o fecho e deixei a mochila como estava. Ele não podia saber que eu vi.
Saí para o trabalho, mas aquilo não me saiu da cabeça o dia inteiro. Comecei a juntar as peças. Toda a vez que quis ir à academia com ele, tinha uma desculpa diferente. Nenhum homem que vai mesmo ao ginásio se importa que a noiva vá malhar com ele, a não ser que não esteja a ir para academia nenhuma.
Decidi segui-lo depois do expediente. No dia seguinte, saí mais cedo do trabalho com uma dor de cabeça inventada, fui até à loja dele e pus-me à espera. Às seis da tarde, o Jurandir saiu pela porta com a mochila às costas, todo arranjado, cabelo penteado. Para ir ao ginásio?
Segui-o de longe. Ele caminhou até à esquina onde ficava a academia. O coração disparou. Ele virou na direção da porta e eu prendi a respiração.
Passou direto. Dobrou a rua e continuou andando. Dois quarteirões depois, entrou num prédio que eu conhecia bem. O estômago gelou.
Peguei no telemóvel e liguei-lhe. Atendeu no segundo toque. “Fala, meu amor. ” “Oi, Ju.
Onde estás? ” “Na academia. Porquê? ” “Nada, só queria saber se voltavas mais cedo para casa.
Bom treino. ” Ele estava a mentir na minha cara, sem gaguejar, sem hesitar. Voltei para casa de Uber, com o coração partido. Vinte e cinco meses juntos, planos, vida dividida, e ele tinha deitado tudo fora.
Cheguei, fui direto ao computador dele. O Jurandir amava aquele computador mais do que me amava a mim. E era tão descuidado que deixava a palavra-passe num post-it colado na lateral do monitor. O homem escondia gel num compartimento secreto da mochila, mas deixava a senha do computador à vista de qualquer um.
Liguei, digitei a senha e o WhatsApp Web abriu sozinho. A última conversa ativa era com um contato guardado como “Prisinha”. Quando vi a foto de perfil, o sangue ferveu. Era a Priscila, a talarica.
Deixa-me contar quem ela é. A Priscila era minha amiga de colégio, minha e da Fernanda. Crescemos juntas, éramos um trio inseparável. A Fernanda namorava o Gerson desde o último ano e tinham marcado a data do casamento.
Até a Priscila começar a mandar mensagens para ele. Elogiozitos, risadinhas, comentários a dizer que ele era bonito e que era cedo demais para casar. E o Gerson, que pensava com a cabeça de baixo, caiu na dela. Traiu a Fernanda, terminou o noivado a dizer que se tinha apaixonado pela Priscila.
A Fernanda ficou destruída. E a Priscila ainda publicou fotos do novo casal nas redes sociais, legenda melosa, durante um mês inteiro, até se cansar e o largar como quem larga um brinquedo velho. O Gerson voltou de joelhos a implorar perdão, mas a Fernanda mandou-o pastar. Cortámos a Priscila da nossa vida naquele dia.
Para toda a gente que conhecia a história, ela virou a talarica. Não era alcunha, era título, cargo vitalício. E agora a talarica estava no WhatsApp do meu noivo. Comecei a ler as mensagens e, quanto mais lia, mais queria enterrar a cabeça daquele homem no micro-ondas.
Eram semanas de conversas íntimas, fotos que preferia não ter visto, planos de encontros. E os encontros eram sempre nos dias em que ele dizia ir à academia. Em várias mensagens, falavam do gel mentolado. Ela dizia que adorava aquele geladinho, que era viciante, que já não conseguia viver sem.
Enquanto eu estava em casa a achar que o meu noivo malhava, ele estava a dar uns malhos na talarica. E o prédio onde ele entrava era o prédio onde ela morava. Mas o pior não foi isso. O pior foram as coisas que diziam de mim.
A talarica mandou um áudio a dizer que um dia queria fazer coisas com ele na nossa cama, que seria mais excitante. Chamava-me feiosa, dizia que eu era a maior perdedora da escola, que toda a gente me gozava, que sempre fui uma piada. E acham que o Jurandir me defendeu? Claro que não.
Ria junto, mandava emojis a chorar de riso e completou: “Eu é que devia ter conhecido você antes. Não teria perdido tanto tempo com a Cris. ”
Pelo visto, eu era tempo perdido para ele. Continuei a ler e ficou pior.
Faziam planos. Ele ia esperar o contrato de arrendamento da talarica vencer e, quando vencesse, ela mudava-se para o nosso apartamento. Até lá, eu continuaria a pagar as contas e as compras sem saber de nada. Numa mensagem, ele disse que ia pedir-me para comprar uma picanha e deixá-la congelada, para quando ela se mudasse fazerem um churrasco de comemoração.
Ele ia terminar comigo em dois meses. Fechei o WhatsApp, desliguei o computador. As mãos tremiam de ódio. A história estava a repetir-se.
A mesma mulher, o mesmo golpe, a mesma cara de pau. Liguei para a Fernanda e contei tudo, desde o gel escondido até às mensagens. Quando terminei, houve um silêncio de cinco segundos e depois ela disse: “Não acredito que essa vaca quer fazer isso de novo. ” “Fer, não vou deixar barato desta vez.
Vou fazê-la arrepender-se por nós as duas. ” “Podes contar comigo, Cris. O que quiseres fazer, eu ajudo. ”
Desligámos e eu fiquei sentada no sofá, a olhar para o nada.
A raiva passou e, no lugar dela, veio uma coisa pior: frieza. Eu não ia confrontar o Jurandir, mas também não ia deixá-lo sair impune. Ia fazer qualquer coisa que eles nunca mais esquecessem. Então, como num estalo, lembrei-me do gel lubrificante, aquele com efeito gelado e sabor a menta.
Uma ideia começou a formar-se. Uma ideia horrivelmente maravilhosa. Mandei uma mensagem para a Fernanda com o meu plano. Dois minutos depois, respondeu com um áudio.
Estava a rir tanto que mal conseguia falar: “Que ideia brilhante, Cris. Conta comigo. ”
Eu só precisava do cenário perfeito. Naquela noite, o Jurandir chegou do ginásio, banho tomado, cabelo arranjado, cheiroso.
Claro que tomava banho em casa da talarica, mas fingi que não sabia. “Então, como foi o treino hoje? ” “Cansativo. Peguei pesado.
” Aposto que pegaste mesmo muito pesado, pensei. Ele sentou-se no sofá e disse: “Cris, estava a pensar… que tal fazermos um churrasco no próximo fim de semana? Compra uma picanha boa, uns vinhos.
Já não fazemos nada de jeito há tempo. ” Picanha, vinhos. Coisas caras que ele nunca pedia, mas eu já estava dois passos à frente. Sorri e disse: “Claro, meu amor.
Sabes que faço tudo por ti, não sabes? ” Ele sorriu, aquele sorriso de canalha que achava que era o mais esperto da sala. “Ah, e antes que me esqueça, a Fernanda chamou-me para passarmos o fim de semana no sítio dos pais dela. Saímos sexta à noite e voltamos domingo.
Queres ir? ” Os olhos dele brilharam de um jeito que nunca tinham brilhado quando olhavam para mim. Mas controlou-se rápido, fez uma cara falsa de tristeza, coçou a cabeça e suspirou: “Ah, amor, até queria, mas tenho de trabalhar neste fim de semana. Vou ter muitas saudades, mas mereces um tempo com a tua amiga.
”
Fiquei a olhar para ele e pensei: eu acreditei neste homem durante vinte e cinco meses e nunca percebi. No dia seguinte, assim que ele saiu para o trabalho, liguei o computador. As mensagens da noite anterior estavam lá, e eu quase acertei em tudo. “Pri.
Fim de semana livre. Ela vai viajar com uma amiga. ” Ela respondeu logo: “Finalmente vou estrear essa cama. ” E ele: “Vou passar na farmácia e comprar mais daquele geladinho que tu gostas.
O último não durou nem dois dias. ” Eu li aquilo e respirei fundo. Ele ia comprar um gel novo. Perfeito.
Iria facilitar-me o trabalho. Ao almoço, passei numa loja de eletrónica e comprei mini câmaras, daquelas pequeninas que ligam ao telemóvel por aplicação. Paguei caro, mas ia valer cada cêntimo. De que servia planear uma vingança se não estivesse lá para a ver?
Depois, passei na farmácia e comprei o que precisava. Coloquei na mala e fui para casa a sorrir. Na noite anterior à viagem, o Jurandir chegou a fazer teatro. “Vou ter tantas saudades, meu amor.
” Abraçou-me, fez-me festinhas no cabelo. Que ator. Se houvesse um Óscar para o canalha do ano, ele levava a estatueta para casa. Fomos dormir.
Esperei até ouvir o primeiro ronco. Conhecia bem aquele ronco, grosso e constante. Podia cair o teto que ele não acordava. Levantei devagar, fui à sala, abri a mochila dele e lá estava o frasco novinho de gel mentolado.
Esvaziei-o na pia da cozinha e enchi-o com salompas em gel, aquele para dores musculares, transparente, cheiro a mentol, textura parecida. Perfeito. Ninguém notaria a diferença, pelo menos não antes de usar. Devolvi o frasco à mochila, fechei o fecho e pendurei-a no cabide.
Depois, instalei as mini câmaras, uma na sala, uma no quarto, bem escondidas, e liguei-as à aplicação no meu telemóvel. Imagem perfeita, som perfeito. Voltei para a cama. O Jurandir continuava a roncar.
Deitei-me ao lado dele, olhei para o teto e sorri no escuro. Sexta-feira chegou. Saí do trabalho e fui para casa. O Jurandir já estava lá, arranjado, perfumado, com aquela cara de quem ia sentir muitas saudades.
Mentira, era a cara de quem contava os minutos para eu desaparecer. “Amor, a Fernanda já vem a caminho. Vais ficar bem sozinho? ” “Vou sim, meu bem.
Vai tranquila. Aproveita o sítio, descansa, que mereces. ” Deu-me um abraço apertado, olhou-me nos olhos e disse “amo-te”. Nem respondi.
Peguei na mala falsa, disse adeus e desci. Já tinha entregue o comando do portão à Fernanda e mostrado onde ficava a nossa vaga. Ela estava lá à minha espera. Entrei no carro e abri a aplicação das câmaras.
O Jurandir estava a limpar a mesa, a arrumar o quarto. O homem estava a fazer o que nunca tinha feito nos meses em que morámos juntos. Pôs taças na mesa, organizou o sofá, até passou um pano no chão. “Que desgraçado”, disse eu.
A Fernanda tirou do saco dois refrigerantes, um pacote de bolachas e pipocas. “Trouxe o lanche. Se vamos ver o espetáculo, pelo menos vemos confortáveis. ” Rimo-nos.
Parecia uma festa do pijama. Uma hora depois de eu sair, o interfone tocou. O Jurandir atendeu e abriu o portão. Pela aplicação, vimos a porta abrir e lá estava ela, a talarica.
Vestido curto, justíssimo, saltos altos, cabelo solto, maquilhagem pesada. Parecia que ia para a discoteca. Entrou, olhou em volta com aquela cara de dona e disse: “Até que é jeitoso. Vou adorar morar aqui contigo.
” Jeitoso. O apartamento que eu ajudava a manter, que eu limpava, cujas contas eu pagava, era jeitoso para ela. O Jurandir fechou a porta e foi todo pegajoso para cima dela. Beijo no pescoço, mão na cintura.
Que nojo. Sentaram-se no sofá, abriram um vinho, riram, e ela disse: “Vamos estrear a tua cama? ” Ele levantou-se com um sorriso de orelha a orelha, puxou-a pela mão e foram para o quarto. A câmara do quarto apanhava tudo.
Sentaram-se na cama, nos meus lençóis limpos. O Jurandir levantou-se, foi à sala e tirou da mochila o frasco de gel. “Olha, Pri, comprei um novinho para usarmos o fim de semana todo. ” Ela sorriu: “Ai, Jurandir, eu adoro esse gel.
Passa bastante. ”
A Fernanda apertou-me o braço. “Amiga, ele está a abrir o frasco. ” Olhámos uma para a outra e sorrimos.
Era agora. Pelo telemóvel, víamos e ouvíamos tudo. Eles usaram o gel, bastante, generosamente. O Jurandir comentou que o cheiro estava um pouco mais forte que o normal, mas disse que devia ser fórmula nova.
“Fórmula novíssima”, disse eu baixinho no carro. A Fernanda tapou a boca para não se rir. Assim que os vimos a usar o gel, saímos do carro em silêncio, fomos até à zona da portaria, onde ficavam os registos de água, e fechámos o registo do apartamento vinte e cinco por completo. Voltámos para o carro a correr, sem tirar os olhos do telemóvel.
Nos primeiros minutos, tudo parecia normal no ecrã. Até que a talarica franziu a testa. “Ju, não está a gelar, está a aquecer. ” “É mesmo?
Devo ter apanhado o errado. Este deve ser o de efeito quente em vez do gelado. ” “Mas está a aquecer demais, Jurandir. ” “Calma, Pri.
Já passa. Normalmente passa. ” “Não, Jurandir, está a começar a arder. ” Ele parou, fez uma cara estranha.
“É, realmente está a aquecer muito. Deve ser porque usámos demais. ” “A minha periquita está a queimar. ”
A talarica empurrou-o com força.
Ele caiu da cama e bateu com o cotovelo no chão. Ela levantou-se aos gritos, a pular, a abanar-se, sem saber o que fazer com as mãos. O Jurandir levantou-se do chão com a cara de quem finalmente percebeu que aquilo não era normal. “Vai para o chuveiro!
“, gritou. Os dois correram para a casa de banho. Abriu o chuveiro no máximo. Saíram umas gotas, umas gotinhas miseráveis.
E acabou. “Ué, cadê a água, Jurandir? ” “Não tem água na pia do banheiro também. ” “Tem a água do vaso, seu imbecil.
Eu não vou passar água do vaso na minha periquita. ”
Correram para a cozinha, nus, a arder, desesperados. Torneira da cozinha? Nada, nenhuma gota.
O Jurandir abriu o frigorífico, pegou na garrafa de água e despejou-a no cogumelo. A água estava gelada demais e a diferença de temperatura fê-lo gritar ainda mais. “E joga em mim também, seu idiota! ” Acabou a água.
Ele correu à despensa, pegou numa Coca-Cola de dois litros. Mal abriu, a talarica arrancou-lhe a garrafa e despejou tudo na chavasca. O gás da Coca-Cola fê-la arder ainda mais. O grito que ela deu, tenho a certeza de que o bairro inteiro ouviu.
“Ai, isso piorou! ” “Já sei. Calma, tem leite no frigorífico. ” Ele abriu, pegou na caixa de leite e despejou-a nas partes dele e dela.
“Jurandir, gastaste tudo! ”
Eu e a Fernanda estávamos a chorar a rir no carro. Não aguentávamos. O Jurandir escorregou no chão da cozinha, todo molhado de água, Coca-Cola e leite, e caiu de rabo no chão, com as pernas para o ar.
A Fernanda soltou um grito abafado de risada: “Amiga, eu vou morrer. ”
Os dois estavam nus, encharcados, a arder, desesperados. Não tinham mais líquido no apartamento. “O que é que a gente faz?
Está a arder demais! “, gritava a talarica. “Vamos pedir ajuda. ” Saíram nus para o corredor.
Pela câmara da sala, só víamos a porta aberta e ouvíamos os gritos e batidas. “Toc, toc, toc. Pelo amor de Deus, abram, precisamos de água! ” Claro que ninguém abriu.
Onze da noite, batem à tua porta, olhas pelo óculo e vês dois nus encharcados a pedir água. Abririas? Ouvíamos vizinhos a gritar de trás das portas: “Vou chamar a polícia! Vocês estão chapados!
” E depois, a voz da talarica: “A piscina, Jurandir! Vamos para a piscina! ” Passos acelerados, escada abaixo, a correr. Um mergulho.
Eu e a Fernanda olhámos uma para a outra. Era a nossa deixa. Saímos do carro e fomos a andar tranquilamente até à área da piscina, como se tivéssemos voltado para buscar algo que esquecêramos. Sem pressa, sem suor.
E, de repente, demos de caras com aquela cena digna de cinema: vizinhos nas janelas, alguns a filmar com o telemóvel, outros a gritar e a gozar. E na piscina, dois seres humanos nus, a lavar as partes desesperadamente, a gritar de dor. A talarica xingava: “Seu idiota, o que é que passaste em mim? ” E ele: “Foi o gel de sempre!
”
Aproximei-me da borda da piscina, fiz a melhor cara de surpresa e disse: “Jurandir, Priscila, o que é que vocês estão a fazer nus na piscina? ” A cara do Jurandir ficou branca. Gaguejou: “Cris… tu não estavas no sítio da Fernanda?
” “Voltámos porque esqueci uma coisa. Mas quem me deve explicações são vocês. O que é que está a acontecer aqui? ” A talarica olhou para mim do meio da água, com aquele olhar de desafio: “Ora, ora, olha quem voltou mais cedo.
” O Jurandir olhou para mim com súplica e desespero: “Cris, por favor, pega uma toalha para nós. Eu juro que depois explico tudo. Por favor. ”
Um vizinho gritou do primeiro andar: “Explica agora, que toda a gente quer ouvir!
” Outros moradores concordaram. E foi nesse momento que apareceram as luzes azuis e vermelhas. A polícia tinha chegado. Dois agentes aproximaram-se.
Um mais velho, bigode grosso, cara de quem já viu de tudo. Outro mais novo, que claramente segurava o riso. “Boa noite. Recebemos uma denúncia de perturbação e atentado ao pudor.
” Olhou para os dois dentro da piscina. “Porque é que estão sem roupa? ” O Jurandir engoliu em seco: “Senhor, é uma história longa. ” “Eu tenho tempo.
Beberam? Usaram algum tipo de entorpecente? ” “Bebemos só um vinho. Não usámos nada.
” “Então expliquem-me porque é que os moradores ligaram a dizer que dois chapados estavam a correr nus pelo corredor a bater às portas. ” O Jurandir tentou: “Senhor, posso explicar, mas não aqui. Posso falar consigo a sós? ” O agente olhou para ele, olhou para a talarica escondida atrás dele, olhou para os vizinhos a filmar nas janelas e disse: “Aqui não há conversa a sós, não.
Vocês os dois vão sair da piscina, vestir-se e vamos todos à esquadra resolver isto lá. ” Virou-se para mim: “A senhora conhece estas pessoas? ” “Ele é meu noivo. Moramos juntos no apartamento vinte e cinco, segundo andar.
E essa mulher deve ser uma prostituta que ele contratou. ” A talarica arregalou os olhos: “Prostituta? Estás a chamar-me prostituta? ” “Sabes muito bem quem és, sua cretina.
” “Sei, sim. És uma vaca que gosta de roubar os homens dos outros. ” “Eu não roubei ninguém! Vocês é que não sabem segurar um homem!
” O agente levantou a mão: “A senhora fica quietinha. Vai ter tempo para toda a gente falar na esquadra. ” Tive de me conter para não rir. Ele virou-se para mim: “A senhora poderia subir e buscar roupa para eles?
” “Claro, senhor. ”
Subimos os três, eu, a Fernanda e o agente. No caminho, a Fernanda ficou para trás e religou o registo de água, discretamente, sem pressa, ninguém viu. O elevador abriu no segundo andar e o cheiro a salompas já estava forte, aquele mentol ardido que fazia os olhos lacrimejar.
O agente franziu o nariz. A porta estava escancarada, a sala e a cozinha um caos: poças de água, Coca-Cola e leite por todo o lado, tapete encharcado, chão escorregadio, garrafa de vinho vazia, duas taças. Ele foi andando, olhou o quarto, a cama desfeita, os lençóis no chão, a vela derretida, o frasco de gel em cima da cama. Tocou na cómoda, fez uma cara de nojo e olhou para a mão, com uma substância não identificada nos dedos.
Saiu apressado para a casa de banho e lavou a mão com força. Eu e a Fernanda trocámos um olhar de canto. Se ele soubesse o que era, tinha lavado com água benta. Peguei em duas toalhas e fui escolher a roupa.
Abri o meu guarda-roupa e procurei as peças mais ridículas que tinha. Achei duas camisolas. Uma cor-de-rosa choque com corações vermelhos estampados, tamanho grande. Outra, mais pequena, com escrito “Deusa do Amor” na frente.
Sim, eu tinha uma camisola escrita “Deusa do Amor”. Sim, era brega, mas quem nunca comprou algo brega que atire a primeira pedra. Quando saímos, dois vizinhos estavam no corredor. Uma senhora e um rapaz de pijama.
Falaram os dois ao mesmo tempo: “Senhor agente, foi uma gritaria naquele apartamento. Coisas a cair, vidro a partir, gente a berrar. ” “Depois saíram a correr, nus pelo corredor, a bater às portas e a gritar. A gente achou que era efeito de droga.
” A senhora assentiu: “Na minha idade já vi muita coisa, mas dois nus a bater à minha porta a pedir água… isso é droga, só pode ser. ” O agente anotou tudo, agradeceu e descemos. Entreguei as toalhas e as camisolas com a cara mais preocupada que consegui.
O Jurandir olhou para a camisola cor-de-rosa com corações. A talarica olhou para a “Deusa do Amor”. Os dois olharam para mim. “Pelo amor de Deus, não tens outra roupa?
” O agente gritou: “O senhor vai vestir essa roupa agora e vai parar de reclamar. ” Vestiu-se. O Jurandir de camisola cor-de-rosa até ao joelho, a talarica de “Deusa do Amor”. Os vizinhos que ainda estavam nas janelas não aguentaram, ouviram-se risadas de pelo menos três andares.
O agente mais velho recomeçou as perguntas: “Agora contem-me o que aconteceu lá em cima. ” O Jurandir, de camisola cor-de-rosa, tentou: “Senhor, estávamos só a brincar um pouco. Usámos um gel e o gel começou a aquecer demais. Abrimos todas as torneiras da casa e não havia água.
Desesperámo-nos e saímos a pedir ajuda. ” “Não havia água? Acabei de usar a torneira do seu apartamento e tinha água. Está a mentir para mim?
” O Jurandir arregalou os olhos: “Não tinha! Abrimos tudo e não saiu nada. ” O agente olhou para o parceiro, e os dois trocaram aquela cara de quem acha que estão a gozar com ele. “Olha, moço, a história não bate certo.
Sem roupa, a correr pelo prédio, a bater às portas, a mentir à polícia. Isso parece-me uso de entorpecentes ou exibicionismo. Vocês vão ter de nos acompanhar até à esquadra. ”
Entraram na viatura.
O Jurandir de camisola cor-de-rosa, a talarica de “Deusa do Amor”, descalços, cabelo molhado, a cheirar a cloro e salompas. A cena mais patética que aquele prédio já viu. Fiquei a ver a viatura afastar-se. A Fernanda olhou para mim: “Então, vamos?
” “Vamos. ”
Subimos para o apartamento. Primeiro, peguei em todas as minhas coisas, roupas, sapatos, documentos, tudo o que era meu, e meti em malas e sacos. Depois, recolhi as câmaras, uma da sala, uma do quarto, e guardei-as com cuidado.
Aquelas gravações eram o meu tesouro, o meu álbum de memórias. Enquanto arrumava, olhei o grupo de WhatsApp do prédio. Os vizinhos já tinham postado tudo. Vídeos de vários ângulos, os dois nus a correr e a saltar para a piscina.
De cima, de lado, de frente. Parecia a cobertura de um Mundial. Cada morador tinha filmado de um ângulo diferente. Sentei-me na cadeira do Jurandir e liguei o computador dele pela última vez.
Escrevi a senha, abri o WhatsApp, peguei no melhor vídeo do grupo do prédio, o que mostrava os dois nus a saltar para a piscina com a maior nitidez, e enviei para todos os grupos do Jurandir. Todos. Grupo da família, dos amigos, do trabalho, do futebol, dos jogos online. Todos.
Fechei o WhatsApp e, por último, pus o computador a restaurar para as configurações de fábrica. A tela ficou preta com a barra de progresso. Adeus, computador gamer. Foi bom enquanto durou.
Peguei nas malas, apaguei as luzes e saí. Tranquei a porta e deixei a chave debaixo do tapete. Já não ia precisar daquilo. Desci com a Fernanda, pus tudo no carro, sentei-me no banco do passageiro e respirei fundo.
Acabou. Terminei o noivado por mensagem. Simples e direto: “Jurandir, está terminado. Não me procures nunca mais.
” Bloqueei. Fui viver para casa da Fernanda até me organizar. Na primeira noite, vimos os vídeos das câmaras juntas. Rimos até chorar, até doer a barriga, até não conseguirmos respirar.
Nos dias seguintes, o vídeo dos vizinhos viralizou. “Casal chapado salta nu para a piscina do prédio. ” Estava em todas as redes sociais, Twitter, Instagram, TikTok, grupos de WhatsApp. As pessoas achavam que eram dois drogados.
Ninguém sabia a história verdadeira, só eu e a Fernanda. A família do Jurandir viu o vídeo no grupo. A mãe dele ligou-me a chorar. Os irmãos perguntaram se ele usava droga.
E claro que eu disse que sim. Ele desmentia, dizia que não usava nada, mas viciado nunca assume. Ninguém acreditou nele. A loja despediu o Jurandir na segunda-feira.
O gerente foi direto: a imagem de um vendedor nu e chapado viralizado não podia estar associada à marca. A loja da talarica despediu-a no mesmo dia. Vendedora de marca que aparece nua em vídeo viral não é bom para os negócios. E, para completar, nem ficaram juntos.
Soube por conhecidos que o Jurandir quis ficar com a talarica mesmo depois de tudo, mas ela deu-lhe um pontapé. Culpava-o por tudo. Dizia que a culpa era dele, por ser burro. Porque para ela a culpa nunca era sua, era sempre do outro.
O mundo inteiro errava, menos ela. E o mais engraçado, até hoje nenhum dos dois sabe que era salompas. O Jurandir deve achar que exagerou na dose do gel. Quem sabe um dia, quando for mais velho e tiver dores nas costas, compre um salompas na farmácia e sinta aquele cheirinho a mentol.
Talvez a ficha caia. Os dois ainda responderam por ato obsceno. Foram ao tribunal, réus primários, crime de menor potencial ofensivo. Foram condenados a pagar cinco cabazes de alimentos cada um, mas a dor de cabeça de responder ao processo, ir a audiências e ter ficha na justiça, isso ninguém lhes tira.
O Jurandir pôs o apartamento à venda. Estava desempregado, sem dinheiro para pagar o financiamento e com pressa de se livrar daquilo. Ia a entrevistas e o entrevistador reconhecia-o: “Espera, não és o nu chapado da piscina? ” Ninguém queria contratar o homem que virou meme.
Teve de vender o apartamento por uma pechincha a um conhecido. Com o dinheiro, quitou o financiamento e não sobrou nada. A entrada, as prestações já pagas, tudo perdido. Saiu de mãos vazias, enfiou o que tinha numa mala e foi viver com a mãe.
Os pais, depois da história das drogas, passaram a tratá-lo como uma criança de seis anos. Controlavam onde ia, com quem falava, o que fazia. Até o telemóvel e o computador vigiavam. Um homem de trinta e dois anos a pedir permissão à mãe para usar o Wi-Fi.
E sem emprego e sem dinheiro, não ia sair dali tão cedo. A Fernanda, pela primeira vez desde que terminou com o Gerson, sentiu que a justiça tinha sido feita. A mulher que ela chamava de amiga e que destruiu o namoro dela finalmente sentiu na pele, literalmente, o que era sofrer as consequências dos próprios atos. E eu segui a minha vida, solteira e feliz.
Continuo no meu emprego estável na câmara, com o salário a cair no dia cinco, sem Jurandir, sem mentiras, sem gel na mochila. Ah, e os vídeos das câmaras de dentro de casa estão guardados, muito bem guardados. Sempre que eu e a Fernanda queremos rir, fazemos uma pipoca, pomos a correr e vemos como se fosse um filme. O escorregão na cozinha é o melhor.
Passamos até em câmara lenta para ver todos os frames, e nunca deixa de ser engraçado. Agora, sempre que vou à farmácia e vejo um salompas na prateleira, tenho um ataque de riso, porque salompas trata mesmo as dores, até as de cotovelo.